Crítica: ‘Não Olhe para Cima’ faz a gente torcer pelo fim da humanidade

Leonardo DiCaprio no filme Não Olhe para Cima: superprodução é líder na Netflix neste fim de 2021 e faz público inteligente torcer pelo fim da humanidade – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

Filme da Netflix com Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep faz sátira com a tolice humana nos dias de hoje

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Uma sátira ferina e desconcertante sobre a humanidade atual, seja nos Estados Unidos ou neste triste Brasil. Assim poderia ser definido o filme Não Olhe para Cima (Don’t Look Up, EUA, 2021, Dir. Adam McKay), que acaba de estrear na Netflix na liderança da plataforma mundial de streaming neste fim de 2021.

Protagonizado por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, na pele de dois cientistas que tentam alertar a humanidade para a iminente extinção da vida na Terra por conta de um cometa que em seis meses destruirá tudo por aqui, o longa de Adam McKay é uma comédia-catástrofe, que flerta com a linguagem dos memes da internet e de vídeos do YouTube.

O filme utiliza o apocalipse para fazer uma corajosa sátira política e traçar um retrato fiel da ignorância contemporânea, seja nas altas esferas do poder ou mesmo na vida banal, feita para ser postada nas redes sociais, cujos donos tudo dominam com seus viciantes algoritmos dotados de inteligência artificial exponencial.

A superprodução coleciona participações de peso, a começar por Meryl Streep, ótima como a presidente Orlean, chefe da República dos Estados Unidos, à qual falta escrúpulos e decoro para o cargo, refletindo algumas das execráveis lideranças mundias contemporâneas. A mandatária usa o nepotismo para colocar seu entojado filho, papel de Jonah Hill, como chefe de gabinete da Casa Branca – qualquer semlhança com um famigerado líder sul-americano é mera coincidência.

Outra no quesito estrelas que dão as caras no filme é Cate Blanchett, excelente na pele de uma apresentadora de TV para a qual os fatos não importam, mas, sim, os números de ibope ou quem ela consegue levar para a cama, como tantas que fazem carreira por aí.

A estrela teen Ariana Grande mistura realidade e ficção em sua participação, como uma cantora pop fútil que emenda singles entre um e outro escândalo com seu namorado, interpretado pelo também cantor Kid Cudi.

McKay é sarcástico ao desnudar as novas gerações, absortas nas fofocas e polêmicas das redes sociais, enquanto deixam de lado o que realmente importa. Assim, o diretor expõe o ridículo da política e da mídia atuais, forjadas para agradar a este público raso e sem referências que consigam ir além do imediato e de seu próprio umbigo.

Outro ponto alto do filme é demonstrar a vitória da ignorância e seu desprezo pela ciência, com negacionismos e achismos sem qualquer tipo de embasamento, mas que trazem graves consequências, no caso a morte da vida na Terra. Ou, no plano da realidade, o que vimos nesta pandemia: centenas de milhares de mortes por atraso na vacinação ou briga governamental para não vacinar crianças, enquanto as pessoas aprendem a dancinha da vez no TikTok.

Os protagonistas são anti-heróis por excelência, especialmente a jovem e desiludida doutoranda em astronomia interpretada por Jennifer Lawrence, com seu cabelo à gouche, acompanhada neste quesito do veterano cientista vivido por Rob Morgan. Eles representam justamente a solidão de quem é inteligente em um mundo povoado por uma maioria de idiotas.

E o astrônomo vivido por Leonardo DiCaprio quase se perde ao flertar com as benesses de seus 15 minutos de fama, só acordando para a realidade científica na reta final da história, o que redime em parte o narcisismo de seu personagem, em eterna crise de meia idade.

Se nos filmes-catástrofe sempre torcíamos para que os mocinhos e mocinhas da história conseguissem reverter o apocalipse e salvar a humanidade de seu fim, em Não Olhe para Cima qualquer espectador mais inteligente comunga de uma mesma expectativa: que o cometa exploda logo a Terra e acabe com a humanidade de vez, essa espécie que, definitivamente, não deu certo com sua sanha ególatra e narcisista.

O injusto é que o cometa destrua também as outras formas de vida na Terra, como o restante do reino animal e os outros reinos viventes, que não têm nada a ver com a burrice da aberração humana.

Não Olhe para Cima (EUA, 2021, Dir. Adam McKay, 145 min)
Com Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Rob Morgan, Cate Blanchett e outros.
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Nos cinemas e na Netflix

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Jornalista cultural influente e respeitado no Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo Pod. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra o júri de Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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