Cegueira botânica e as majestosas árvores dos jardins de Inhotim | Por Guta Nascimento

Tamboril em Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Tamboril em Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

Por Guta Nascimento
Especial para o Blog do Arcanjo*

Boas notícias, infelizmente, nem sempre são abundantes. Por isso, vamos celebrar! É com muita alegria que todos nós que amamos as árvores (Mas será que há quem não as ame? Sim, há, porque, afinal de contas, se todo mundo as amasse não existiriam tão poucas delas no nosso dia a dia, não é mesmo?) saudamos a nova exposição que Inhotim lança em homenagem ao próximo Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado neste sábado, 5 de junho. Do Tamboril à Braúna: Conversas com Quem Gosta de Árvores é um tour virtual instalado no Google Arts and Culture, a plataforma googler desenvolvida em parceria com museus, que oferece visitas gratuitas e virtuais a algumas das maiores galerias de arte do Brasil e do mundo.

Monumentos vivos

O passeio é fantástico. A exposição destaca 13 espécies das árvores mais representativas do extenso acervo botânico de Inhotim. Às vezes é comum lembrarmos de Inhotim apenas como um portentoso local de arte e cultura incrustadas em lindos jardins, relegando a natureza ao papel de belo cenário a abrigar as monumentais obras artísticas. Associação alimentada pela nossa cegueira botânica – sobre a qual falo mais adiante – mas que após essa exposição, tenho certeza, será minorada.

As árvores de Inhotim são grandes monumentos vivos. E é encantador ir descendo a tela (bem-vindes ao novo caminhar virtual das exposições digitais) e lentamente seguir aprendendo mais sobre elas; seja pelos belos registros das imagens feitas pelo fotógrafo João Marcos Rosa (@joaomarcosrosa), que durante dois dias percorreu os jardins em busca dos melhores cliques, seja pelos pequenos áudios com especialistas, que agregam mais curiosidades para ajudar a mitigar nossa passiva ignorância sobre as milhares de espécies que temos em nosso país.

Longe de mim ser a chata do ‘spoiler’, mas não resisto em compartilhar aqui algumas imagens das árvores que amei contemplar e muitas informações que adorei aprender.

Tamboril em Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Tamboril em Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

O Tamboril

De cara, prepare-se para reverenciar a árvore que é ícone de Inhotim. O majestoso tamboril. Uma árvore ancestral, que a equipe botânica calcula ter de 80 a 100 anos, e de 18 a 20 metros de altura, o que nos faz parecer estar dentro do filme Avatar ao contemplarmos-na de baixo para cima. Sua copa frondosa é linda e, se você um dia já teve o privilégio de visitar Inhotim e planeja voltar, ou se sonha um dia ir, não deixe de incluir no seu roteiro pessoal uma parada para saudar essa belíssima árvore, que fica na área central e onde tudo começou. Sim, lá mesmo, já que o tamboril habita o primeiro sítio que deu origem a tudo aquilo que hoje chamamos de Inhotim. Uma árvore que é testemunha e abrigo de tanta história ao mesmo tempo. Mais emocionante, impossível.

A Embaúba

Eu não sabia, mas o bicho-preguiça adora uma embaúba, outra espécie contemplada. As formigas também. E os três conseguem conviver harmoniosamente numa simbiose invejável, uma espécie de trisal ecológico. Em Inhotim, as folhas prateadas se destacam no Jardim Sombra e Água Fresca. A madeira da embaúba é leve e ela cresce rápido.

Jequitibá em Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Jequitibá em Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

O Jequitibá

Cariniana estrellensis mas pode chamar de Jequitibá. Outro deleite da exposição é poder comparar os nomes científicos das espécies, dados pelos botânicos, com os nomes populares e ancestrais, em sua maioria, indígenas. Jequitibá, por exemplo, é um nome derivado do tupi-guarani, que significa “gigante da floresta”, e define a essência da espécie. Em florestas bem preservadas, ela pode chegar a 45 metros. Uma árvore desse porte pode transpirar até mil litros de água por dia, por isso, os jequitibás são mestres em construir rios aéreos. E prepare-se para se derreter de fofura ao contemplar um ninho que um joão-graveto construiu (e sustentáveis que são, serão usados por anos seguidos). Nossos gigantes são a casa e a proteção de muitos animais também.

O Cedro

Ao chegar nele, não deixe de ouvir o áudio gravado por Juliano Borin. Ele é o curador botânico da exposição e de Inhotim. Engenheiro agrônomo, Juliano trabalha no Instituto já há 9 anos. O conheci em nossa visita virtual guiada, a qual tive o prazer de fazer acompanhada pela equipe do Instituto autora do projeto, formada pela coordenadora do Jardim Botânico, Sabrina Carmo, pela bióloga Nayara Mota e pela analista ambiental, Bárbara Sales; e também em companhia do simpaticíssimo @umbotaniconnoapartamento, juntamente com outras pessoas que verdadeiramente amam as árvores, como a jornalista Silvia Franz Marcuzzo, Alda Heizer, que trabalha no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (o primeiro do Brasil) e Nathalia Molina, do @ComoViaja, entre outros. Foi Juliano quem nos contou que o cedro rosa era a madeira preferida por Aleijadinho para suas estátuas, muitas das quais podemos ver em Congonhas, a linda cidade mineira dos profetas.

A Jabuticabeira

Inhotim tem mais de 80 espécies frutíferas. E a ótima notícia é que lá a gente pode comer tudo do pé. Isso mesmo, é permitido catar e degustar in loco. Plinia cauliflora, a nossa amada Jabuticaba, dá abundantemente em seus caules e, como diz o texto da exposição, ‘ocupa um lugar especial na mesa dos mineiros (na minha memória de infância carioca também…). Apenas para lembrar, Inhotim fica a uma hora e meia de Sabará, considerada a terra da jabuticaba, que desde a época colonial mantém a prática de alugar pés para os visitantes se deliciarem no local e até levarem para casa. Em Inhotim, nem precisa alugar…

A Mangueira

Inhotim deve ter mais de 30 mangueiras. Por isso, voce já sabe… quando visitar… O spoiler aqui é que a foto do João Marcos Rosa vai te dar água na boca…

O Urucum

Eu não sabia que o urucum dá um fruto tão bonito, lindo para ser usado em paisagismo. Também aprendi que a tinta, tão usada por várias etnias indígenas para belíssimas pinturas corporais, protege a pele do sol e dos insetos. Aaah, será que um dia a gente consegue recuperar uma ínfima parte dos saberes ancestrais dos povos originários que tanto perdemos?

Coité em Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Coité em Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

O Coité

Fica perto do Tamboril. Seu fruto é aquele que faz as cabaças dos berimbaus. No norte do Brasil é muito comum ter um pé de coité no quintal para fazer cuias de tomar água, sopa e açaí. As bolas verdes gigantes penduradas nos troncos são divertidíssimas e as crianças ficam encantadas. Mas, com eles, nada de se animar… o fruto cru é venenoso, viu? Na exposição tem áudio da Laís Diniz Silva, educadora do Instituto, pra gente aprender mais sobre ele.

O Pau-Mulato

O pau-mulato da Amazônia também tem raízes fincadas em Inhotim. O tronco liso e a cor de bronze são maravilhosos e, talvez por isso haja tantos deles nas alamedas do museu. Burle Marx usava muito também. E se um dia você for ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, lá existe um exemplar que é um dos mais antigos do Brasil.

Jacarandá em Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Jacarandá em Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

O Jacarandá

A décima árvore do tour é uma das mais cobiçadas no Brasil. O sublime jacarandá da Bahia com sua estupenda beleza negra. Para termos uma ideia, o metro cúbico cortado dessa madeira escura, usada exaustivamente em móveis coloniais e belos pianos, chega a custar até 50 mil dólares. Imaginemos a pressão que ela sofre na natureza… dá calafrios só de pensar. No Brasil existem várias espécies de jacarandá mas a que vemos em Inhotim é a Dalbergia nigra. Não perca o áudio de Harri Lorenzi, que nos conta que o Brasil tem cerca de 6 mil espécies de árvores, uma riqueza incalculável, da qual pouco sabemos reconhecer. Lorenzi é engenheiro agrônomo, autor de uma série de livros sobre Botânica e fundador do Instituto Plantarum, em Nova Odessa (SP), onde vale muito a pena também conhecer o Jardim Botânico Plantarum. Jardins botânicos são uma confraria que celebram e se prestigiam entre si. Só falta a gente prestigiá-los mais!

Pau-Brasil em Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Pau-Brasil em Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

O Pau-Brasil

E claro que temos na exposição o nosso símbolo-mor, o Pau-Brasil. Em nossa visita, Juliano nos contou uma curiosidade sobre ter sido encontrado na região entre Porto Seguro e Arraial d’Ajuda, no sul da Bahia, um pau-brasil ancestral, com cerca de mil anos. Que vontade que deu de um dia poder conhecer esse esplendor!

O ipê-felpudo

O ipê-felpudo faz jus ao nome. E você vai concordar comigo ao vê-lo.

A Braúna

E chegamos à última espécie, a braúna, que também faz parte do título que nomeia a exposição, com sua linda flor da cor de ouro e seus 15 metros que ajudam a compor as imponentes florestas verticais da natureza. Na última foto, ouça o áudio e dê um zoom para ver a delicadeza com que o Waltinho, como é carinhosamente chamado o viveirista Walter Pereira da Silva, segura uma mudinha de braúna.

Jardins de Inhotim - Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação - Blog do Arcanjo
Jardins de Inhotim – Foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação – Blog do Arcanjo

Cegueira botânica

Árvores são seres abundantes, generosos e é lindo pararmos para observá-las. É triste demais sofrermos da tal cegueira botânica que citei mais acima. Cegueira botânica ou vegetal é um termo criado em 1998 por uma dupla de botânicos e educadores americanos, Elisabeth Schussler e James Wandersee, que significa “a inabilidade de ver ou perceber as plantas no seu ambiente”. É olhar plantas e árvores e as vermos apenas como “pano de fundo”, não reconhecermos suas espécies. É chamar tudo verde de “mato”, como se não fossem indivíduos do nosso mesmo habitat. É saber dizer o nome do último animal que vimos mas não sabermos dizer qual foi a última planta ou diferenciá-la de outras. Não que eu também não sofra desse mesmo mal. Aprendi esse termo apenas recentemente numa live da excelente jornalista Néli Pereira (@neli_pereira) com o biólogo Luciano Zandoná (@lucizandona), que tem um projeto maravilhoso de conservação de orquídeas da Mata Atlântica (sigam o @zandonaconservacao). Vou deixar ao final do texto o link dessa live deles, juntamente com outras dicas que estão me ajudando a diminuir esse apagamento de saberes fundamentais da natureza no qual o homo sapiens se meteu e que espero não ser tarde demais para recuperá-los.

Por tudo isso, e por estarmos vivendo uma era tenebrosa de absoluta destruição das nossas árvores, biomas e ecossistemas, fiquei tão feliz com essa exposição de Inhotim e quis compartilhar com vocês.

Espero um dia poder voltar e ver presencialmente todas essas árvores lindas, bibliotecas do tempo e de tantos saberes. Inhotim, aprendi na exposição, tem um banco de sementes de mais de 220 mil espécies. Uma euforia saber que estamos, em meio ao caos e à incerteza das mudanças climáticas, preservando um pouco de futuro. Quero muito conhecer o banco. E das próximas vezes, caminharei com mais atenção pelos jardins de Inhotim. Dos 140 hectares de área de visitação, 38 são jardins construídos, cuidados com amor e respeito por 75 jardineiros, muitos deles, hoje, afastados pela pandemia de suas funções diárias por serem pessoas mais idosas e com comorbidades. São quatro equipes de jardineiros que se dividem entre plantar, manter, podar e cuidar de pragas. Uma outra equipe faz a gestão ambiental, cuidando de ativos ambientais, como a água e os animais. E que inveja da equipe que tem como trabalho diário montar os arranjos florais feitos com o material dos jardins.

Como nem todos podemos ir a Inhotim, como diz o Juliano Borin, a exposição “é uma forma de levar Inhotim pra dentro da casa das pessoas”.

Pra mim, foi uma honra ter todas essas árvores magníficas dentro da minha sala, na tela do meu computador, e conhecer um pouquinho mais sobre elas. A partir de agora, quando reconhecer uma embaúba, já sei que vou abrir um sorriso procurando um bicho-preguiça besuntado – e nem um pouco preocupado – de formigas aztecas em busca do pão que a árvore as dá.

Comecei esse texto dizendo que boas notícias não são abundantes mas hoje abrimos uma exceção. Além da boa nova da exposição, a segunda boa notícia é que ela é a primeira de outras, com mais espécies, que virão.

Alvíssaras!

Pra terminar, deixo alguns convites.

Que este dia 5 de junho não seja apenas um dia de hashtags e que a gente arrume um tempo em nossas vidas corridas para efetivamente nos reconectarmos presencialmente com algum elemento do nosso habitat natural. Nem que seja apenas tirar o pé do sapato e pisar na terra. Vai nos lembrar que somos todos animais e que não podemos destruir o que nos dá a vida sob o risco de morte. O primeiro passo para nos salvarmos é ter consciência disso.

Seguem os links:

Visite as árvores majestosas de Inhotim

Veja a live da Néli Pereira com o Luciano Zandoná

Mais sobre a Cegueira Botânica em matéria da BBC

Quem também fala muito sobre Cegueira Botânica é a professora Suzana Ursi, do Instituto de Biociências da USP

Se apaixone mais ainda por elas lendo o livro A Vida Secreta das Árvores

E sigam o @umbotaniconoapartamento porque o Samuel Gonçalves é muito divertido 🙂

Feliz 5 de junho!

A jornalista Guta Nascimento – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

*Guta Nascimento é jornalista e adora contar notícias do Novo Mundo🌱 Foi diretora da Revista CLAUDIA, diretora de conteúdo da Escola de Você e do portal feminino Tempo de Mulher. Por mais de 20 anos, atuou em televisão, tendo trabalhado nos telejornais Jornal Nacional, Jornal da Globo e Jornal Hoje, da TV Globo. Na emissora, também atuou baseada em Nova York na cobertura de grandes fatos internacionais, entre eles, a Guerra de Kosovo e o regime talibã no Afeganistão. No SBT, fez parte da equipe que, em 2005, reestruturou o departamento de jornalismo, lançando o telejornal SBT Brasil. Na Record TV, participou de coberturas nacionais e eventos internacionais, como as Olimpíadas de Vancouver e de Londres. Em 2014, cobriu o surto de Ebola, na Guiné Conacri, para a Band. A trabalho, conheceu o Butão e foi duas vezes ao Pólo Norte. A passeio, subiu a pé até o acampamento-base do Everest e o topo do Kilimanjaro. Mergulhou com tubarões-baleia na Tailândia e sonha um dia tirar uma selfie no final da Muralha da China. Atualmente é nômade digital e quando a saudade de ver estrelas aperta, se refugia na @refazendarioxopoto
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Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordenada a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Foto: Edson Lopes Jr.

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