Crítica: Filme Río propõe liberdade no amor sem perder a ternura

Río, de Marco Buontempo (ARG, 2020)
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪


A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida, dizia, sabiamente, o poeta do amor, Vinicius de Moraes. E ele estava coberto de razão. Em um mundo tão desencontrado e odioso, deparar-se com um filme que aposta no amor e na delicadeza é uma dádiva. Sobretudo, se ele traz a consigna de uma luta indenitária, o amor entre dois homens, o que não deixa de ser algo altamente político, mas sem perder o poético. Este é o caso do curta-metragem argentino Río, um dos destaques do Festival Asterisco, de Buenos Aires, dedicado à temática LGBTQIA+ assim como o nosso Festival Mix Brasil.

Río é dirigido por Marco Buontempo e produzido em conjunto com Igna Jairala (também assistente de direção), Eliana Campos e Walter Pérez (responsável pela sutil montagem). Com apenas 25 minutos de duração e uma bela história, o filme ainda ganha pontuações potentes com a trilha original de Emiliano Terráneo e candura na fotografia despretensiosa de Matías Sáchez Cáceres. E ainda conta com chefia de produção de Luciana Rodríguez, direção de som de Ornella Taricco, som direto de Emilse Matus e arte de Rodrigo Savid.

Leia: “Narrar uma história homossexual é político”, diz ator de Río

Río traz o reencontro de dois jovens gays, Bruno e Franco, alguns anos após os primeiros fugazes encontros da adolescência. Os dois atores protagonistas do filme, Ivan Nicolai e Facundo Cáceres Rojo, se destacam com atuações sensíveis e sem qualquer tipo de afetação. Ambos estão na medida certa, completamente entregues ao desenrolar suave das cenas, revelando, aos poucos, as questões internas de seus personagens.

Inteligentemente, Río quebra com estereótipos relacionados à comunidade gay, à qual muitas vezes foi imposto, mesmo que de forma inconsciente, um padrão de comportamento hétero, inclusive no sexo. Os dois jovens no filme propõem desconstruções interessantes, apresentando múltiplas possibilidades e rompendo gavetas, sem que o curta caminhe para o gratuito ou perca sua refinada elegância.

Em tempos de lutas identitárias tão necessárias, mas também tão aguerridas, o que acaba também por roubar um pouco de nossa poesia (até mesmo pela necessidade de alerta e confronto constante), é um alento ver em Río um filme realmente do amor e da paz. Río é um curta que, exalando delicadeza, não deixa de ser altamente político, parecendo evocar o sábio pensamento de um outro poeta da vida, chamado Guevara, mas de apelido Che, que nos ensinou: Hay que endurecerpero sin perder la ternura jamás.

Leia: “Narrar uma história homossexual é político”, diz ator de Río

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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2 Resultados

  1. Adriana disse:

    Excelente , adelante corto que dejó un mensaje que llega al ALMA a todo ser humano de este planeta

  1. 15/11/2020

    […] Por Miguel Arcanjo PradoO ator Facundo Cáceres Rojo é uma das grandes revelações da sétima edição do Festival Asterisco, focado na produção cinematográfica internacional LGBTQIA+ e realizado em Buenos Aires desde o último dia 10 e até 19 de novembro. Ele é um dos protagonistas do delicado filme Río, curta de Marco Buontempo. A obra tem como temática o reencontro de dois jovens gays no interior da Argentina, revelando questões da descoberta da sexualidade.Leia a crítica do filme Río, de Marco Buontempo […]

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