‘Narrar uma história homossexual é político’, diz Facundo Cáceres Rojo, do filme Río

O ator Facundo Cáceres Rojo – Foto: Agustina Cassinerio/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Por Miguel Arcanjo Prado

O ator Facundo Cáceres Rojo é uma das grandes revelações da sétima edição do Festival Asterisco, focado na produção cinematográfica internacional LGBTQIA+ e realizado em Buenos Aires desde o último dia 10 e até 19 de novembro. Ele é um dos protagonistas do delicado filme Río, curta de Marco Buontempo. A obra tem como temática o reencontro de dois jovens gays no interior da Argentina, revelando questões da descoberta da sexualidade.

Leia a crítica do filme Río, de Marco Buontempo

Río se insere em uma forte tradição argentina de fazer excelentes filmes dentro da temática LGBTQIA+ e que ganham projeção internacional, caso dos já históricos Puto, de Pablo Oliveiro, em 2006, com os dois garotos apaixonados em Buenos Aires interpretados por Juan Manuel Tellategui e César Casalone e que esteve no Brasil em festivais como Mix Brasil e Cine Ceará; e Ausente, de Marco Berger, em 2011, com um aluno que se apaixona por seu professor, interpretados por Javier de Pietro e Carlos Echevarría, filme que também exibido no Mix Brasil e que venceu o Prêmio Teddy no Festival de Berlim.

Puto, de Pablo Oliveiro, e Ausente, de Marco Berger, são filmes pioneiros na temática LGBTQIA+ na Argentina e que já entraram para a história – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo
Facundo Cáceres Rojo no set do filme Río, destaque do Festival Asterisco 2020: “Um papiro em branco que espera ser moído” – Foto: Ignacio Jairala/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Aos 23 anos, Facundo Cáceres Rojo, que também é premiado patinador profissional, nasceu em Córdoba Capital, segunda maior cidade da Argentina e importante polo cinematográfico latino-americano. Lá, cursa o quarto ano da licenciatura em Teatro na Faculdade de Artes da Universidade Nacional de Córdoba, a mais antiga instituição de ensino superior de seu país.

Bastante atencioso, o artista conversou com exclusividade com o Blog do Arcanjo sobre este momento com o sucesso do filme Río no festival e nos contou ainda o que deseja neste momento e revelou ter gostado muito do filme brasileiro Bacurau — vencedor do Prêmio Arcanjo de Cultura 2019 em Cinema. Sobre o filme no qual atua, define: “Fora do amoroso e doce que se apresenta em Río, o feito de narrar uma história homossexual no mundo atual é fortemente político”.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Facundo, no filme Rio você tem uma atuação muito tranquila e ao mesmo tempo profunda. Como conseguiu?
Facundo Cáceres Rojo –
Río foi uma das minhas primeiras experiências audiovisuais com maior preparo e profissionalismo. A conformação do personagem foi construída em conjunto com o assistente de direção Ignacio Jairala e o diretor Marco Buontempo. Nos ensaios eles davam ênfase ao natural e na rítmica de cada cena. Após vários encontros, podemos nos assistir nas gravações feitas e eu entendi que o mais mínimo frente à lente se faz imenso e com o simples fato de se estar era suficiente; a história passa através de nós e se representa na corpa, como tatuagem, deixando marcas. Na hora de criar um personagem, somos esse papiro em branco que espera ser moído.


Miguel Arcanjo Prado – Como você foi escolhido para ser o protagonista de Río?
Facundo Cáceres Rojo –
A equipe chegou até a mim por recomendação de Mariana Vargas, companheira da minha universidade. Realizei o casting e desde o primeiro momento nos entendemos com as três cabeças do projeto. Não lhe vou negar que pedia ao universo poder representar o papel, me criava um desafio colocar na minha boa os textos tabus dessa sociedade discriminatória e a partir dos personagens alguns deles contradiziam o que considero importante na hora de vincular-se com uma pessoa do mesmo sexo. Era uma realidade que, ainda que distante da minha, eu não podia negar.

Miguel Arcanjo Prado –  Como foi o trabalho com o diretor no set?
Facundo Cáceres Rojo –
Se me lembro bem, foram dez ensaios distribuídos ao longo de dois, três meses, nos quais realizávamos tarefas de escritura, improvisação, observação de filmes referentes, memorização dos textos e partituras de ações nas cenas. Não houve nenhuma que não haja sido ensaiada, praticada. Com calma, íamos construindo o necessário para cada uma delas.

Os atores Facundo Cáceres Rojo e Ivan Nicolai no set do filme Río: “Crescemos como atores no processo de Río” – Foto: Walter Pérez/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Como foi atuar com o outro ator, Iván Nicolai? Como criaram essa cumplicidade?
Facundo Cáceres Rojo –
Atuar com Iván foi muito significativo para mim. Pouco a pouco fomos criando uma fórmula de nossa relação e cada vez era maior a conexão. Algo que considero muito importante foram os exercícios individuais, nos quais se construía a intimidade pessoal dos personagens e entre nós não podíamos conhecer o que cada um tinha escrito, isso nos diferencia, mas fazia mais real nossa união. Durante a rodagem, ao dizer ação, entrávamos nesse mundo que havíamos criado, éramos Bruno e Franco, nossos olhares se mantinham e nos permitia desenvolver a atuação, sentirmo-nos cômodos e pensar-nos sozinhos, a pesar de que atrás de nós havia toda uma equipe trabalhando.

Miguel Arcanjo Prado – Vocês já se conheciam antes do filme?
Facundo Cáceres Rojo –
Com Iván, já nos conhecíamos antes, por amizades em comum, mas nossa relação era de “oi e tchau”. Por aí nos cruzávamos na rua ou em festas, mas pouco sabíamos um do outro, nos seguíamos no Instagra [risos]. Não me imagino Río sem Iván. Foi tudo muito divertido o que compartilhamos com ele, cada momento era ameno, bom e com muitas risadas. Creio que ambos crescemos muito como atores no processo, mas seu ponto de vista, sua ternura e frescura me foram de grande ajuda para abrandar minha rigidez e entregar-me com soltura para deixar-me ser visto.

Facundo Cáceres Rojo no set do filme Río: ele é uma das revelações do Festival Asterisco 2020 de Buenos Aires – Foto: Walter Pérez/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Qual a importância de ter o filme neste Festival Asterisco em um momento tão delicado da humanidade?
Facundo Cáceres Rojo –
Considero importante a existência de festivais como Asterisco, onde se dá lugar às expressões da Comunidade LGBTQIA+, expandir as fronteiras, aproximar territórios, compartilhar por meio do cinema realidades existentes em todas as partes do mundo. Algo que podemos destacar como positivo dessa invasão de virtualidade em nossas vidas. Não há que esquecer que a luta dissidente tem ganhando muito território, mas, todavia, há muito mais por expandir. Fora do amoroso e doce que se apresenta em Río, o feito de narrar uma história homossexual no mundo atual é fortemente político. Muitas expressões seguem sendo marginalizadas, menosprezadas e ocultadas no fundo do armário, nos fica muito por aprender e desconstruir tanto afora como dentro, na hora de vincular-se como pessoas. Río conta a história de dois garotos que se dão carinho sem importar o que o mundo tem para dizer, te convida a voltar ao verde e animar-se a novas formas de viver.

Miguel Arcanjo Prado – O filme viajará a outros festivais? E o que você acha do nosso país? Chega acompanhar algo do cinema brasileiro?
Facundo Cáceres Rojo –
Para mim o que se conquistou até o momento superou minhas expectativas e não paro de me surpreender até onde pode chegar Río, para mim, com essa reportagem, já viajo até o Brasil. Minha experiência com o cinema latino-americano está começando, mas tive o prazer de ver Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, que adorei! Está na minha lista de filmes pendentes está Bixa Travesty [que rendeu o Prêmio Arcanjo de Cultur a Linn da Quebrada em 2019], que chegou aqui na Argentina e gerou muita repercussão. Considero que o cinema brasileiro é necessário para despertar como sociedade.

O ator Facundo Cáceres Rojo: “Disfruto poder estar tranquilo para não me enfurecer” – Foto: Agustina Cassinerio/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – O que você mais deseja neste momento?
Facundo Cáceres Rojo –
O que mais desejo neste momento? Que pergunta complicada [risos] Sendo sinceros o transitar os dias debaixo de uma pandemia e a distorção da mesma me sensibilizaram. Para estes tempos, a sinceridade e a honestidade são primordiais, a responsabilidade social se incrementa e não deixa de ser uma urgência a aproximação de que a sociedade futura queremos. Atualmente, disfruto dos espaços verdes, a horta, a patinação artística e poder estar tranquilo para não me enfurecer, entender os tempos e poder compartilhar amor.

Leia a crítica do filme Río, de Marco Buontempo

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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1 Resultado

  1. 15/11/2020

    […] traz a consigna de uma luta indenitária, o amor entre dois homens, o que não deixa de ser algo altamente político, mas sem perder o poético. Este é o caso do curta-metragem argentino Río, um dos destaques do […]

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