Crítica: O Príncipe da Indelicada Cia Teatral atesta reinvenção digital do teatro

Evandro Costa e Ricardo Fiuza em O Príncipe, da Indelicada Cia Teatral – Foto: Solomon Plaza/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

O Príncipe ✪✪✪✪
Avaliação: Muito Bom

Crítica por Miguel Arcanjo Prado

Assim como todo o teatro no mundo, a Indelicada Cia. Teatral, de Goiânia, precisou se reinventar no ambiente online e abraçar o teatro digital. O grupo estreou nas ondas virtuais nas redes no último dia 20 de agosto o espetáculo O Príncipe, que pode ser visto até este domingo (30) — até o momento desta crítica, o espetáculo já havia sido visto digitalmente pelo impressionante público de mais de 13.400 acessos no YouTube.

Trata-se de uma encenação em linguagem clown que se inspira no clássico Hamlet, de William Shakespeare, com pitadas de O Príncipe, texto ícone da ciência política escrito por Maquiavel.

O diretor João Bosco Amaral, também autor da ferina dramaturgia, abraça as novas possibilidades do digital e faz da encenação algo que vai muito além do que seria um “teatro filmado” — contando com a assistência de Sol Silveira.

Muito pelo contrário. A direção busca unir as linguagens teatral e audiovisual em uma interessante fusão que gera uma arte híbrida ainda em fase de investigação no campo das artes cênicas.

Assim, a peça começa em um plano sequência com Vânio, interpretado por Ricardo Fiuza, nos bastidores de um teatro, até que seu personagem se encontra na plateia com Kadu, interpretado por Evandro Costa. Só a partir deste momento, eles assumem o tablado, onde o restante do espetáculo em si se passa — é interessante ver a peça direto dos tablados.

As inevitáveis analogias dos textos centenários com os dias atuais, sobretudo os vividos neste complicado Brasil, são o ponto mais forte do espetáculo e evidenciam o quanto os textos clássicos merecem tal nome e respeito, por conseguirem comunicar-se de forma sempre atual ao longo dos tempos, condensando a essência humana. É provocante ver palavras atuais como “live” e “cloroquina” serem assimiladas pela dramaturgia.

Enquanto o Príncipe da Dinamarca se vê diante das tentativas de golpe por parte do tio, o público digital embarca na convenção proposta tal qual crianças inebriadas.

O texto, unido ao carisma dos intérpretes, desperta o riso inúmera vezes, mesmo ao fundir assuntos espinhosos do noticiário político e sanitário dos últimos meses de forma corajosa e com a ironia poética permitida pelo humor de qualidade, cuja maior função é confrontar o aspecto ridículo do exercício mesquinho do poder.

Ricardo Fiuza e Evandro Costa se destacam pela entrega desmedida aos inúmeros personagens que interpretam, criando nuances que diferenciam os mesmos, com a ajuda fundamental da maquiagem de Thiago Santana e dos figurinos detalhistas de Lino Calaça – que vão desde uma jaqueta de couro com botons modernos a uma capa monarca com estampa de melancia.

A cenografia simples e funcional, composta de caixas de papelão pintado erguidas em paredão ao fundo, criada por Lino Calaça e Leandro Teixeira, se une à luz de João Bosco Amaral, cuja fumaça deixa tudo mais inebriante e onírico, sob operação de Daniel Pires — aqui fica uma leve proposição deste crítico: um pouco mais de luz deixaria a peça e suas cores mais vistosas no audiovisual.

É importante aqui ainda ressaltar a identidade visual do projeto a cargo de Mayllon Oliveira, a preocupação em acessibilidade na equipe formada por Thiago Santana, Tálita Azevedo e Sarah Melgaço, à frente da interpretação em Libras e da audiodescrição — algo a ser assimilado por todo o teatro.

Outro aspecto fundamental neste ‘novo normal’ cênico é a direção de vídeo de Diego Straiotto, bem como o olhar certeiro dos cinegrafistas Sérgio Rosa e Toicin, sob assistência de Matheus Montello, nesta nova percepção cênica criada para inúmeras telas.

No grupo com direção de produção de mãos firmes de Evandro Costa, com a Bricolagem Produções, ainda estão a assessora de comunicação Adriana Balsanelli, que construiu projeção nacional ao espetáculo antes previsto para o regional, e o produtor assistente Daniel Pires.

Em tempos de pouco apoio às artes, é preciso destacar o patrocínio do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, por meio da Secretaria de Cultura de Goiás. É fundamental valorizarmos quaisquer iniciativas de governantes em prol da arte livre em tempos de tanta perseguição.

No epílogo, os artistas assumem o papel dos espectadores assistindo direto de casa e comendo pipoca, em uma proposta épica-dialética, fazendo a metalinguagem do próprio teatro digital.

Em O Príncipe, a Indelicada Cia. Teatral nos mostra que o teatro jamais morrerá, pois tem intrínseco à sua história a capacidade de reinvenção. Em tempos de pandemia, não seria diferente. Nossos aplausos.

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