Elias Andreato dirige Meu Deus! e diz: ‘Uma peça de sofá nos ensina mais que qualquer loucura’

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Em meio aos preparativos finais para a estreia da peçaMeu Deus!, produção da Morente Forte com Sergio Guizé e Bianca Bin em dramaturgia da israelense Anat Gov que cumpre temporada de 24 de julho a 1º de novembro no Teatro das Artes, em São Paulo (sextas e sábados às 20h e domingos às 17h; ingressos de R$ 25 a R$ 160 com ingressos via Eventim), o renomado diretor Elias Andreato reflete sobre o processo de encenação e o atual momento das artes cênicas [leia reportagem sobre a peça].
Ao comandar a montagem que coloca o Criador no divã de uma psicanalista, o ator paranaense de Rolândia de 71 anos e com farta experiência nos palcos, aproveita o contexto do espetáculo para compartilhar observações contundentes sobre o texto, a evolução da profissão de ator, a disciplina exigida pela comédia sutil e a necessidade de desarmar o ego no fazer teatral.

Ele elogia a sutileza encontrada pela dramaturga israelense. “De repente você pega uma autora que ela não faz a cabeça de ninguém, ela não vai falar assim: ‘Você tem que acreditar em Deus’… Ela vai por um ponto de vista tão humano e isso me toca”.
Para Andreato, a escolha por dirigir essa dramaturgia passa diretamente pelo entendimento de que o alcance do teatro se dá na troca direta com quem está na plateia. “O teatro se perpetua através do boca a boca”, pontua o encenador, enfatizando que a maturidade do intérprete envolve aprender a dialogar com os espectadores sem recorrer a exageros.
“Às vezes a gente faz muito espetáculo para a bolha, para se experimentar, para transpirar, ficar louco. E às vezes uma peça de sofá nos ensina muito mais do que qualquer loucura. Porque você tem que lidar com o simples, com a delicadeza, com a violência, com tudo ao mesmo tempo, sem perder o tom e sem perder o espectador.”
“Às vezes uma peça de sofá nos ensina muito mais do que qualquer loucura.”
Elias Andreato
diretor
Ao abordar o amadurecimento técnico do ator, Andreato resgatou aprendizados marcantes acumulados ao longo da carreira, incluindo lições transmitidas por grandes mestres do teatro brasileiro, como Paulo Autran, com quem trabalhou diversas vezes e foi amigo pesssoal.
“Quando eu era jovem e ia assisti-lo, achava a caratice. Via aquele teatro de 1.200 pessoas aplaudirem de pé e eu lá no fundo, com ódio, falava: ‘Não sei o que a pessoa vê nisso! Que ator é esse?’. Ficava com inveja, na verdade. E ele me ensinou: ‘Isso é um grande exercício para o ator. Você tem uma partitura muito complexa’. Quando a gente é jovem, quer fazer louco, quer babar, quer se drogar, quer se jogar no chão… E às vezes não, o louco também tem sensibilidade, tem delicadeza, tem sutileza. Eu acho que esse tipo de dramaturgia é um exercício maravilhoso.”
“Quando a gente é jovem, quer fazer louco, quer babar, quer se drogar, quer se jogar no chão… E às vezes não, o louco também tem sensibilidade, tem delicadeza, tem sutileza.”
Elias Andreato
diretor
A condução dos ensaios e o cuidado com a equipe também são pontos do processo teatral que o encenador pontua com delicada atenção. Para o encenador, o processo criativo deve ser pautado pela segurança e pelo acolhimento, em oposição a métodos fundamentados no desgaste emocional. “Não sou um diretor que coloca o ator num lugar caótico. O importante é deixar o artista seguro para criar, tirando dele o que ele tem de melhor para oferecer com gentileza, amorosidade e delicadeza no olhar”, observa.
Por fim, ao analisar a função da dramaturgia no cenário atual, o diretor reforça que o verdadeiro impacto em cena não depende da agressividade. “A cena, estar no palco já é uma loucura. Não precisa grifar isso. Eu não quero ser o radical, quero ser revolucionário, mas não preciso cair, babar, gritar. Eu quero que fique bonito nessa brincadeira. A gente vive o egoísmo, essa apropriação de Deus, o preconceito… É tudo tão violento. Quem comanda o jogo somos nós, e o importante é fazer uma dramaturgia para o público sem perder a intenção do autor”, ensina. “Hoje em dia, um abraço é um ato político. Que todo mundo bate em todo mundo, todo mundo mata todo mundo, né? E você finalizar uma peça com um abraço, acho que só isso já tá bom, né?”, conclui.
“Hoje em dia, um abraço é um ato político.”
Elias Andreato
diretor

10 declarações de Elias Andreato
Sobre o teatro para além da bolha artística:
“Às vezes a gente faz muito espetáculo para a bolha, para se experimentar, para transpirar, ficar louco, né? E às vezes uma peça de sofá, ela nos ensina muito mais do que qualquer loucura. Porque você tem que lidar com o simples, com a delicadeza, com a violência, com tudo ao mesmo tempo sem perder o tom e sem perder o espectador.”
Sobre o controle da cena e a relação com a plateia:
“Não é porque a gente tenha que se vender para o público, não. Quem comanda o jogo somos nós. Por mais que você queira rir, eu não posso entrar na sua, porque senão eu perco a delicadeza ou a intenção do autor. Mas eu tenho que pensar em você. Você tem que fazer parte desse jogo.”
Sobre os excessos da juventude versus a maturidade do ator:
“Quando a gente é jovem, quer fazer louco, quer babar, quer se drogar, quer se jogar no chão… E às vezes não, o louco também tem sensibilidade. Eu acho que esse tipo de dramaturgia é um exercício maravilhoso.”
Sobre o afeto como gesto de resistência no mundo atual:
“Hoje em dia, um abraço é um ato político. Que todo mundo bate em todo mundo, todo mundo mata todo mundo, né? E você finalizar uma peça com um abraço, acho que só isso já tá bom, né?”
Sobre a intensidade inerente ao palco sem necessidade de apelos:
“A cena, estar no palco já é uma loucura, gente. Não precisa grifar isso: ‘Olha, tô sendo louco, hein? Ó!’. Não, já tô louco, tô aqui, eu escolhi isso! […] Eu só não quero ser o radical, mas quero ser revolucionário.”
Sobre a formação do olhar através de mestres como Paulo Autran:
“Quando eu era jovem e ia assisti-lo [Paulo Autran], achava a caratice [risos]. Via aquele teatro de 1.200 pessoas aplaudirem de pé e eu lá no fundo, com ódio… Ficava com inveja, na verdade. A essência básica era inveja. E ele me ensinou isso. Ele falou: ‘Isso é um grande exercício para o ator. Você tem uma partitura muito complexa’.”
Sobre abordar temas profundos e espinhosos sem dogmatismo:
“Você vê, olha como a pessoa pode falar sobre questões importantes sem grifar, sem tomar uma posição, sem radicalizar e que pode abrir a cabeça do espectador.”
Sobre a perpetuação e a potência da troca no fazer teatral:
“O teatro se perpetua através do boca a boca, né?
Sobre a generosidade e a brincadeira no processo de criação:
“Eu falei para o Sérgio Guizé: Não tem personagem que vai suprir o ego depois de fazer Deus [risos], nem o outro, nem o Hamlet! [risos] Mas eu acho que isso é a grande brincadeira do teatro, né? E eu acho que é fazer isso com leveza.”
Sobre a busca por um propósito comovente na arte:
“De repente você pega uma autora que ela não faz a cabeça de ninguém, ela não vai falar assim: ‘Você tem que acreditar em Deus’… Ela vai por um ponto de vista tão humano e isso me toca.”
MEUS DEUS! – De 24 de julho a 1 de novembro de 2026. Teatro das Artes no Shopping Eldorado em SP. Sessões – sexta e sábado às 20h e domingo às 17h. Ingressos – de R$ 25,00 a R$ 160,00. Vendas Eventim. Gênero: Comédia. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos.
Texto Anat Gov. Adaptação Jorge Schussheim. Tradução Eloísa Canton. Versão Célia Regina Forte. Direção Elias Andreato. Elenco Bianca Bin – Ana. Sérgio Guizé – D. Enzo Morente – Paulo. Cenário Rebeca Oliveira. Figurino Fábio Namatame. Iluminação Wagner Pinto. Música original Jonatan Harold. Designer Gráfico Vicka Suarez. Fotos Caio Oviedo. Assistente de Direção Zé Guilherme Bueno. Assessoria de Imprensa Fernanda Teixeira e Maurício Barreira – Arte Plural Comunicação. Produtoras Selma Morente e Célia Forte. Lei Rouanet. Patrocínio Laboratório Cristália. Uma produção Morente Forte Produções Teatrais. Realização Ministério da Cultura, Governo do Brasil do lado do povo brasileiro.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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