Meu Deus! tem Sergio Guizé como Deus em crise e Bianca Bin como psicóloga exausta

Sergio Guizé e Bianca Bin estão em Meu Deus! no Teatro das Artes © Caio Oviedo Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

O Criador do universo entra em crise existencial e resolve se sentar no divã de uma psicanalista exausta, reletindo neste embate toda a fragilidade humana. É esse o ponto de partida de Meu Deus!, espetáculo produzido pela Morente Forte com Bianca Bin e Sergio Guizé escrito pela dramaturga israelense Anat Gov e dirigido por Elias Andreato que estreia nesta sexta, 24 de julho, no Teatro das Artes, localizado no Shopping Eldorado, em São Paulo, onde cumpre temporada até 1º de novembro com sessões de sexta e sábado às 20h e domingos às 17h (ingressos entre R$ 25,00 e R$ 160,00via Eventim; duração de 80 minutos; classificação 12 anos). A obra ainda marca a estreia do jovem ator Enzo Morente.

Na trama, Ana, uma psicóloga e mãe solo de filho autista que luta contra suas próprias dores cotidianas, recebe um misterioso paciente identificado apenas como “D”: um Deus profundamente deprimido, desiludido com a humanidade e cogitando o fim de tudo. Ela dispõe de apenas uma sessão para tentar salvar o arquiteto do cosmos e, por extensão, o próprio mundo.

Os atores Bianca Bin e Sergio Guizé e do tarimbado diretor Elias Andreato conversaram com o Blog do Arcanjo sobre a peça. A montagem carrega a assinatura da Morente Forte Produções Teatrais, com grande tradição no cenário cênico nacional comandada por Célia Forte e Selma Morente, vencedoras do Prêmio Arcanjo de Cultura em 2025 pelos 40 anos da produtora. A assistência de direção é de Zé Guilherme Bueno.

Sergio Guizé dá vida ao Criador desiludido da peça Meu Deus! no Teatro das Artes © Caio Oviedo Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Assumindo a colossal tarefa de dar carne e osso à divindade, Sergio Guizé busca desconstruir o imaginário clássico para dar lugar a uma figura vulnerável. “A possibilidade de interpretar Deus já é algo maravilhoso. Sabia que ia ser uma alegoria, e não o Deus da barba branca que tentaram me ensinar na infância. É um homem frágil que vem para discutir as nossas próprias fragilidades. A genialidade da Anat Gov é justamente tirar Deus do altar e colocá-lo no divã”, aponta o ator. Guizé acrescenta como o formato favorece o debate sobre temas latentes: “Deus, na história da Anat, está há mais de 5.000 anos ouvindo o problema dos outros, e acho que é a primeira vez que ele vai poder falar dos seus próprios problemas. É de tirar o veneno pela boca e buscar a cura pelos ouvidos.”

Bianca Bin é psicóloga exausta em Meu Deus! no Teatro das Artes © Caio Oviedo Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Na outra ponta da cena, Bianca Bin encarna a terapeuta Ana, personagem que sintetiza a sobrecarga e as fraturas da sociedade atual. “A Ana simboliza exatamente a humanidade contemporânea. Eu não sou mãe solo, mas consigo me colocar na circunstância e imaginar o quanto essa mulher é sobrecarregada, exausta, descrente e ferida”, explica a atriz. Para Bianca, a força da peça reside na capacidade de provocar identificação sem impôr dogma algum: “Ela não enfatiza um tom religioso; trata de ateísmo, fala de todos os assuntos sem ser panfletária. É um texto muito inteligente que trata da auto-responsabilidade: a gente culpa muito a Deus por tudo o que vive, mas a peça nos faz refletir sobre o Deus que cada um carrega dentro de si.”

Sergio Guizé, Enzo Morente e Bianca Bin estão na peça Meu Deus! no Teatro das Artes © Caio Oviedo Divulgação Blog do Arcanjo 2026

A sintonia entre o casal protagonista transborda dos palcos para a rotina diária. Juntos desde 2017, e casados desde 2017, Guizé e Bin fazem o primeiro espetáculo juntos. Residentes em uma chácara em Indaiatuba, no interior paulista, Bianca e Guizé transformaram as viagens de carro até a capital em um laboratório cênico contínuo.

“O trajeto dava mais ou menos uma hora de casa até o ensaio, o tempo ideal para fazer uma passagem de texto do início ao fim”, revela Bianca, com humor. “Ter uma réplica o tempo todo me ajudou a aprofundar mais rápido. Além disso, há uma admiração mútua imensa pelo trabalho do outro”, confidencia a atriz. Guizé ratifica a fala da companheira: “Fiz questão de me engajar no projeto por causa dela e também porque sou fã do Elias desde criança. Trabalhar ao lado da Bianca é um privilégio; a potência do texto da Ana que ela constrói ajuda a dar forma ao meu Deus fragilizado”, declara.

Elias Andreato dirige a peça Meu Deus! no Teatro das Artes © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2024

Para o diretor Elias Andreato [leia entrevista com ele], a escolha por resgatar essa dramaturgia, que já dirigiu em 2014 com Irene Ravache e Dan Stulbach, passa diretamente pela necessidade contemporânea de reconexão e afeto. “A concepção vem do momento que vivemos. Hoje em dia, um abraço é um ato político. Todo mundo bate em todo mundo, todo mundo mata todo mundo. Finalizar uma peça com um abraço… acho que só isso já tá bom”, reflete o encenador.

Andreato destaca ainda o valor de uma obra capaz de se comunicar com o grande público sem recorrer ao panfletarismo: “Às vezes a gente faz muito espetáculo para a bolha, para se experimentar, para transpirar, ficar louco. E às vezes uma peça de sofá nos ensina muito mais do que qualquer loucura. Porque você tem que lidar com o simples, com a delicadeza, com a violência, tudo ao mesmo tempo, sem perder o tom e sem perder o espectador.”

Enzo Morente estreia no teatro na peça Meu Deus! no Teatro das Artes © Caio Oviedo Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Meu Deus! quer sensibilizar a plateia, confrontando os abismos do ego moderno através do humor sutil e da urgência do diálogo. Em tempos de tanta polarização e ruídos digitais, pôr a divindade no divã surge como um convite poético para reaprendermos, afinal, a arte da escuta.

Bianca Bin e Sergio Guizé vivem embate psicológico em Meu Deus! no Teatro das Artes © Caio Oviedo Divulgação Blog do Arcanjo 2026

MEUS DEUS! – De 24 de julho a 1 de novembro de 2026. Teatro das Artes no Shopping Eldorado em SP. Sessões – sexta e sábado às 20h e domingo às 17h. Ingressos – de R$ 25,00 a R$ 160,00. Vendas EventimGênero: Comédia. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos.

Texto Anat Gov. Adaptação Jorge Schussheim. Tradução Eloísa Canton. Versão Célia Regina Forte. Direção Elias Andreato. Elenco Bianca Bin – Ana. Sergio Guizé – D. Enzo Morente – Paulo. Cenário Rebeca Oliveira. Figurino Fábio Namatame. Iluminação Wagner Pinto. Música original Jonatan Harold. Designer Gráfico Vicka Suarez. Fotos Caio Oviedo. Assistente de Direção Zé Guilherme Bueno. Assessoria de Imprensa Fernanda Teixeira e Maurício Barreira – Arte Plural Comunicação. Produtoras Selma Morente e Célia Forte.  Lei Rouanet. Patrocínio Laboratório Cristália. Uma produção Morente Forte Produções Teatrais. Realização Ministério da Cultura, Governo do Brasil do lado do povo brasileiro.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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