CineOP revê trajetória de Baby do Brasil no filme Apopcalipse Segundo Baby de Rafael Saar

Baby do Brasil lança o documentário Apopcalipse Segundo Baby na 21ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto Leo Lara/Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Enviado especial a Ouro Preto a convite da Universo Produção

Uma das figuras mais emblemáticas e autênticas da música popular brasileira, Baby do Brasil iluminou a 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, para o lançamento do documentário Apopcalipse Segundo Baby, em sessão aplaudida neste sábado (27) na cidade histórica mineira. O longa, dirigido por Rafael Saar, esmiúça o percurso artístico, a espiritualidade e a cosmovisão singular da cantora telúrica de 73 anos, mas uma eterna menina.

Em uma entrevista marcada por sua irreverência característica, reflexões profundas e bom humor, Baby reforçou que o filme consegue capturar sua essência sem filtros.

“Esse filme me traduz perfeitamente. Eu sou daquele jeito. E daquele jeito a gente vence também. Tudo certo, não precisa ser igual e encaixar na caixinha”, declarou a artista.

Baby do Brasil lança o documentário Apopcalipse Segundo Baby na 21ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto Leo Lara/Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

Novos Baianos

Durante a conversa, Baby relembrou o início de sua caminhada musical e como sempre se posicionou de forma independente em relação aos moldes tradicionais da indústria fonográfica e da sociedade. Ela pontuou que, ao longo de sua carreira, muitas vezes esteve fora do “esquema” de grandes festivais ou shows temáticos moldados pelo mercado.

Sua fundação artística mais sólida, contudo, reside nos Novos Baianos, grupo com o qual conviveu intensamente por dez anos em uma comunidade hippie. A cantora celebrou o reconhecimento histórico do grupo, cujo álbum Acabou Chorare é amplamente considerado um dos mais importantes da música mundial.

“Hoje a gente tem, como Novos Baianos, um dos álbuns mais importantes do planeta Terra. Entre 300 ou 400 álbuns selecionados, a gente está antes de Lady Gaga, de Beyoncé com Acabou Chorare”, orgulha-se. “A gente tem uma experiência diferente. Então a minha vivência como cantora, como pessoa, como mulher desde os meus 17 anos, é muito diferente de uma coisa natural, normal”, declarou.

Baby do Brasil lança o documentário Apopcalipse Segundo Baby na 21ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto Leo Lara/Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

Polêmica no filme sobre os Novos Baianos

Sem citar nomes diretamente ou buscar confrontos judiciais inflamados, Baby do Brasil não esquivou-se de comentar uma polêmica envolvendo uma produção audiovisual anterior sobre a história dos Novos Baianos, que ao fim teve as citações e imagens da artista cortadas. Baby revelou ter se sentido surpreendida ao descobrir que um filme [Filhos de João: O Admirável Mundo Novo Baiano, de 2009, dirigido por Henrique Dantas] que utilizava sua imagem e depoimentos estava sendo comercializado sem o seu consentimento formal ou contratos assinados.

“Eu preciso que a pessoa não diga para mim que é uma entrevista que vai fazer para a faculdade, mas que talvez isso possa virar um dia tal coisa”, explicou, ressaltando a importância da transparência. Ao descobrir a existência da obra já em circulação comercial, Baby solicitou a formalização jurídica.

“Nessa, como eu pedi isso, retiraram as minhas falas, retiraram tudo e prosseguiram, continuou o erro. Eu não falei nada porque isso também poupou a gente ter mais para esse filme aqui, né? (…) Não foi correto aquilo ali”, opinou.

A cantora destacou que preza pela correta gestão de seus direitos. E disse que atualmente vive uma boa fase financeira, após muitos perrengues ao longo da vida. “A semeadura é opcional, mas a colheita é obrigatória. Eu estou no tempo da colheita.”

Maternidade como escola de produção

Mãe de seis filhos – três mulheres e três homens –, Baby fez uma analogia bem-humorada entre a criação de sua numerosa família e sua capacidade de gerenciar grandes projetos artísticos.

“Quem tem seis filhos é uma excelente produtora! Você vai ter seis filhos: tem que ter fralda, tem que ter mamadeira, tem que ter comida, tem que ter escola, tem que ter alegria… muita coisa. Você acaba virando uma produtora. Eu sou uma produtora dos Novos Baianos.”

Questionada sobre suas visões de mundo, ela explicou que busca manter uma postura equilibrada, distante de radicalismos. Embora atue ativamente como embaixadora de uma ONG em Minas Gerais que apoia mulheres vítimas de violência física, prestando suporte médico e cirúrgico, Baby ressaltou que prefere uma abordagem de acolhimento e atitude a discursos de enfrentamento puramente ideológicos, afirmando preferir o termo “feminina” a “feminista”.

Baby do Brasil lança o documentário Apopcalipse Segundo Baby na 21ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto Leo Lara/Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

Admiração por Gilberto Gil e Elza Soares

Ao ser indagada sobre o papel da arte no combate ao racismo, Baby adotou uma perspectiva baseada em suas leituras teológicas e na profunda admiração que nutre pela cultura negra. “Primeiramente, deixa eu te falar: que coisa mais linda é a raça negra, né? Deus me livre, que coisa fantástica”, elogiou, lembrando que uma de suas maiores referências de cantora sempre foi Elza Soares, de quem foi amiga pessoal.

A cantora relembrou o impacto avassalador que teve ao conhecer Gilberto Gil, em 18 de julho de 1969, em um show em Salvador que entrou de penetra, antes de Gil e Caetano partirem para o exílio em Londres. Para ela, a postura de Gil diante das tensões raciais e políticas da época tornou-se um farol.

“O que me impactou no Gil era a postura dele diante da confusão que estava ainda sobre os negros. E eu até falo isso no filme: que marca de homem é essa, né? Eu lembro que eu tirei o meu relógio e joguei para ele dizendo: ‘Nossa, você me representa’. Sabe? A raça negra me representa”, concluiu, sob aplausos.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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