Hugo Possolo, o palhaço que salvou a cultura, é ovacionado no Festival de Curitiba

Hugo Possolo celebra retomada do teatro com Parlapatões em dose tripla no Festival de Curitiba – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial ao Festival de Curitiba*

O palhaço que salvou a cultura, o ator, diretor e gestor cultural Hugo Possolo foi consagrado por fortes aplausos e gritos de ‘Fora Bolsonaro’ do público, no 30º Festival de Curitiba, nas duas apresentações de seu solo, Prego na Testa, no Teatro Sesc da Esquina, nesta terça (29) e quarta (30).

Secretário de Cultura da Cidade de São Paulo na gestão Bruno Covas durante o período mais crítico da pandemia, no qual realizou um trabalho histórico, ele também é cofundador da SP Escola de Teatro, gerida pela Adaap, e do grupo de humor e circense Parlapatões. Sua companhia apresenta ainda outras duas obras no evento, PPP@ WllmShkspr.br nesta quinta (31) e sexta (1º), e Parlapatões Revisitam Angeli no sábado (2) e domingo (3), no mesmo Sesc da Esquina.

Pouco antes de entrar em cena, Hugo Possolo, que ainda foi diretor do Theatro Municipal de São Paulo, onde abriu o tradicional palco para artistas pretos, LGBTQIA+ e eventos como Amarelo, de Emicida, e o Prêmio Arcanjo de Cultura, ele conversou com o Blog do Arcanjo na sala de imprensa montada no Hotel Mabu, no centro da capital paranaense.

Possolo falou sobre a celebração da retomada do teatro, dos 30 anos de presença no Festival de Curitiba com os Parlapatões, do trabalho desenvolvido na SP Escola de Teatro e região da Praça Roosevelt e de sua passagem pela Secretaria de Cultura paulistana e direção do Theatro Municipal de São Paulo, onde deixou uma marca de representatividade no mais emblemático palco do Brasil.

Veja os principais trechos da entrevista.

Hugo Possolo no Festival de Curitiba – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Retomada dos palcos

A reestreia de Prego na Testa no Festival de Curitiba foi uma emoção indescritível. Poder retomar depois de três anos sem estar no palco atuando, no meio de uma pandemia. Precisa ter muita delicadeza na relação com as pessoas. O público nos recebeu maravilhosamente bem. Eu me questionei se estava dando certo ou não… Essa insegurança é ótima para o artista!

Shakespeare por Parlapatões

Faremos Shakespeare, PPP @wllmshkspr.br, uma peça que é de 1997, uma curva muito grande. É um esforço diferente. Um espetáculo que brinca com todas as peças de Shakespeare, é um desafio. O que a gente fazia aos 30 anos, agora fazer com 60, não é brincadeira, não! É a peça que foi a mais importante para o Parlapatões. Ter estreado aqui no Festival de Curitiba mudou a nossa cara. Não é o sucesso que determina um trabalho, é o ponto de virada.

Limite do humor

A gente encerra nosso trio de peças no Festival de Curitiba com Parlapatões Revisitam Angeli, que discute uma temática importante e bastante delicada: a questão do humor politicamente incorreto ou correto. Quais são os limites do humor? Dou um exemplo: se a gente fizer uma peça sobre um cara que é deficiente físico, que é muito irônico. E ele quer destruir a família e ter mais poder. Se essa peça for uma comédia, ela pode ser muito condenada. Mas, se ela for Ricardo III de William Shakespeare, e for uma tragédia, todos vão perdoar. Então, a questão não é do que se trata, mas como se trata. Essa questão do limite do humor está sendo tratada de maneira muito equivocada hoje em dia.

Will Smith e Chris Rock

O humor pode até errar e repetir formas de preconceito, mas pode também pedir desculpa. Humorista que faz piada errada, que é agressão, deveria levar “tapa na cara” no discurso. Se bem que podem existir tapas na cara quando atinge uma mulher, uma doença, em meio a uma vulnerabilidade. É significativo que isso tenha acontecido dessa forma no Oscar.

Papel da mídia

A crítica viveu um pouco certo monopólio da mídia. E, hoje, a crítica precisa viver da sua importância, para construir uma obra, que é bastante complexo. A rede social engole não só com a notícia falsa, mas com a distorção dos fatos.

Hugo Possolo durante entrevista a Miguel Arcanjo Prado no Festival de Curitiba – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Diálogo com nova geração

Em Parlapatões Revisitam Angeli, estamos em diálogo com uma nova geração do rock roll, muito bacana ter essa interação da banda junto com os Parlapatões. Já estou com meus cabelos brancos, em 2022 faço 60 anos [risos]. Mas a gente não pode envelhecer de cabeça. Estar na SP Escola de Teatro com outras gerações fazendo teatro é ótimo. Não podemos ficar fechados em nosso mundinho. Precisamos pedir licença ao passado, ao futuro, e seguir. O presente é o lugar que temos que estar, sem ficar preso ao passado, e sem medo do futuro.

Começo no HQ

Eu comecei a vida de artista como ilustrador, eu era fã de muitos desenhistas. Duas pessoas tinham um traço que eu gostaria de alcançar. O meu traço não passava do universo Disney, muito caprichadinho. Eu queria um desenho que fosse mais identificado com a minha geração. Aquilo sempre ficou na minha cabeça. Eu conheci a [cartunista] Laerte numa determinada fase de um concurso de dramaturgia. Ela trouxe uma adaptação do [espetáculo] Piratas do Tietê, li e queria fazer. Não aconteceu. Lá na frente o Grupo La Mínima montou, em um momento que Laerte estava fazendo sua transição.

Parlapatões Revisitam Angeli

O Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Curitiba, me falou de um projeto, que poderia ser algo que tivesse a identidade das duas cidades. Nos perguntou o que achávamos o que seria a identidade de São Paulo. Na hora veio Angeli. O Branco Mello, dos Titãs, topou entrar no projeto.Comemoramos nossos 30 anos dos Parlapatões junto dos 30 anos do Festival de Curitiba. E Angeli foi uma peça que fizemos pouco. É um espetáculo que tem característica musical, com banda de rock ao vivo, vídeo. Tudo precisa dar certo.

Hugo Possolo reencontra o público no Festival de Curitiba – Foto: Virginia Benevenuto – Blog do Arcanjo

Teatro roqueiro

Nossa cara é o que eu chamo de “teatro sujo”, no qual defendo a ideia contra essa a assepsia da cena. De uma cena extremamente limpa, rigorosa, que só corresponde a um pensamento hegemônico, burguês. Eu sempre penso numa cena mais suja, pé no chão da Praça Roosevelt. Com mais diálogo com os caras que dividiam o palco com a gente no começo, que são os moradores em situação de rua. Os melhores diálogos da minha vida, de como ocupar um espaço público.

Praça Roosevelt

A gente não está na Praça Roosevelt à toa com nosso Espaço dos Parlapatões, começamos na República, e no Ibirapuera, passando o chapéu. E o que a gente faz não é produto. É uma interação social, provocativa, que busca transformação. Fizemos parceria com o Satyros, do Ivam Cabral e do Rodolfo García Vázquez, em uma relação de olho no olho com a praça e seu entorno que mudou a história desse lugar, realizando uma mudança por meio da arte.

Velho Bardo

A nossa ligação com o Festival de Curitiba é muito forte. E o PPP@WllmShkspr.Br foi uma peça muito importante pra gente. Era um ano em que os Parlapatões estavam começando a descobrir projetos. Tínhamos conhecido o Emílio Di Biasi – uma figura importantíssima da historia do teatro, da televisão e deste Festival. Ele vinha aqui fazer uma conexão dos atores com a Globo e nos procurou, dizendo que havia comprado os direitos de uma peça, e gostaria que nós fizéssemos. Aceitamos, mas muito descrentes, com muito medo. Essa “irresponsabilidade” foi boa, pois não criamos o compromisso que nós artistas temos de querer fazer perfeitamente alguma coisa. Ele trabalhou aquilo com muita dedicação, com visões diferentes, pois tínhamos a visão do teatro de rua muito aberto. E quando chegamos ao Teatro Fernanda Montenegro, a gente se olhou e dissemos que daria tudo errado, porque era um ensaio frio, técnico. Mas tivemos uma surpresa dupla: nós e o público – foi aquele encontro! O espetáculo estourou e entramos em um cenário nacional. Foi uma peça com mais de 600 apresentações naquele período, marcou muito nossa história.

Hugo Possolo em cena de Prego na Testa, solo consagrado no Festival de Curitiba – Foto: Virginia Benevenuto – Blog do Arcanjo

Festival de Curitiba, 30 anos

Nós temos uma relação íntima com o Festival de Curitiba, que está completando 30 anos, e o grupo Parlapatões tem 31, estamos desde o comecinho. Estreamos muitas peças aqui. É uma ligação afetiva e natural estarmos aqui neste momento. Para além do resultado de público, nós batalhamos juntos em defesa da Cultura, não só com a produção, mas da ligação com público para quem fazemos. O Festival não é feito para dar um verniz intelectual a certas discussões que são importantes no teatro. Ele se volta principalmente para a produção que tem em todo País. É um Festival que coloca o Brasil todo em cena.

Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo

Encarar esse momento foi muito desafiador. Eu sempre fui um militante da Cultura, e, de repente, estava vendo meus colegas em absoluto desespero. O nosso setor foi o primeiro a parar. Sabíamos que a retomada seria complicada, como está sendo. A pandemia não terminou. Reconquistar o público, ter esse momento é difícil. Foi desafiador lidar com o Governo Federal, que está sendo obrigado a engolir uma lei importante como a Aldir Blanc. Eles fizeram todo jogo sujo possível para que isso não acontecesse. Da regularização de lei, prazos, dificuldade nos pagamentos, etc. Todo bastidor disso era para mostrar que eles tinham recurso, mas o que eles queriam fazer era vetar que chegassem às mãos dos Estados e Municípios. Felizmente eu tive o privilégio de estar à frente de uma cidade grande como São Paulo, no setor cultural muito forte, o que possibilitou que o jogo fosse completamente diferente. No caso de São Paulo, nas atividades mais periféricas, vulnerabilizados, em comunidades quilombolas, de grupos indígenas – que nem são grandes em quantidades na cidade, mas poderiam ficar completamente apagados nesse momento. Com a participação da sociedade civil foi bem significativo.

Secretário de Cultura na pandemia

Do ponto de vista pessoal eu me emociono toda vez que falo sobre este momento de ter sido secretário de Cultura de São Paulo durante o começo da pandemia. Não é brincadeira achar que estamos entrando em um cargo público como artista, querendo celebrar o circo, a palhaçaria, fazer festa, a Virada Cultural, um grande Carnaval… Aí tiraram isso da minha frente e precisei resolver o pior problema, que era cuidar do setor em que defendia sem recurso – que estava indo para Saúde, de maneira muito correta. Gerenciar isso tudo e ser coerente com o meu pensamento, que é progressista, de esquerda, indo na contramão dessa barbaridade que o Governo Federal está fazendo. É inaceitável que esse País com a potência cultural que tem, esteja sendo achatado por pessoas sem nenhum escrúpulo e caráter. Mais que conservadores, eles são fascistas e genocidas.

Palhaço gestor público: Hugo Possolo foi secretário de Cultura de São Paulo durante o começo da pandemia – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Diversidade na gestão do Theatro Municipal

Eu sou uma pessoa que veio de uma militância de teatro de grupo, de setor cultural, de esquerda. Quando fui convidado para o Governo do Bruno Covas que era do PSDB, tivemos uma reunião, em que foi falado: ‘Você sabe que somos de esquerda? Votávamos no PT”. Bruno respondeu que sabia, e queria justamente isso, não ser um cara de direita e, sim, de centro-esquerda. Ele dizia que estava construindo uma carreira política nessa direção. Tinha aliados que eram mais conservadores, mas não da extrema-direita. Ele bancou o projeto que a gente desenvolveu, o Alê Youssef quem trouxe, que era executar o que todos nós já vínhamos fazendo. No meu caso, no âmbito municipal, simplesmente dei continuidade ao que fazíamos na SP Escola de Teatro, com todos os grupos que são envolvidos com a formulação do espaço, do pensamento que ele gerou. A SP Escola de Teatro também nos transformou como artistas. Trouxemos pessoas da periferia para uma formação, e isso nos influenciou a pensar nessas pautas afirmativas com políticas anti-racistas, pensar nas questões sexistas, LGBTQIA+, a visão feminista nas preposições. De mudanças de ânimos que de maneira contemporânea, são muitos importantes e significativas, mas precisam ter voz e espaço. A primeira coisa que fiz no Theatro Municipal foi chamar um espetáculo roteirizado, pensado e desenvolvido somente por artistas pretos. Na plateia tinham pessoas pretas que nunca haviam pisado no Municipal. Isso foi o pontapé inicial para a catarse que foi a apresentação do Emicida depois e o Prêmio Arcanjo de Cultura. O novo modernismo é a arte da periferia sendo protagonista!

Colaborou Michele Marreira

O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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