Encontrando Ana | Por Leandro Fazolla

Roberta Estrela D’Alva no filme Ana. Sem Título, de Lúcia Murat – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

Por LEANDRO FAZOLLA
@leofazolla

Ao entrar no cinema para assistir ao novo filme de Lúcia Murat, Ana. Sem Título, eu já estava motivado por seu trailer a tecer uma escrita sobre ele. O longa é apresentado como um road movie que narra a busca de Stela, atriz que decide fazer um trabalho sobre cartas trocadas entre artistas plásticas latino-americanas nos anos 1970 e 1980 e, em meio à investigação, descobre a existência de Ana, jovem brasileira que fez parte desse mundo, mas desapareceu.

Enquanto subiam os créditos finais, as inquietações surgidas a partir do longa me movimentaram a querer saber ainda mais sobre esse intrincado enredo, que mistura documentário e ficção, fatos reais e personagens inventados, pesquisa histórica e denúncia.

Tainah Longras e Clarisse Zarvos - Foto: Nityama Macrini/Divulgação - Blog do Arcanjo
Tainah Longras e Clarisse Zarvos – Foto: Nityama Macrini/Divulgação – Blog do Arcanjo

Fui então atrás do espetáculo Há Mais Futuro que Passado, no qual o filme de Murat foi livremente inspirado e que, por sorte, está disponível no canal da Complexo Duplo, companhia que realizou a empreitada.

Do espetáculo, fui ainda para a publicação bilíngue de sua dramaturgia pela editora Javali e migrei, também, para sua desmontagem (disponível no canal de YouTube do SESC Pompeia), uma proposta em vídeo em que a equipe de realização reflete sobre seu processo de construção e apresenta ao público um pouco do que normalmente ele não vê na caixa cênica.

Após toda essa viagem de trás para frente no tempo, chegando enfim ao que seria o início do projeto, os bastidores de criação da obra, fiz o caminho inverso e avancei para o pós espetáculo/filme: li críticas e outros escritos que pudessem me alimentar ainda mais de todo um universo já tão expandido.

Lúcia Murat, diretora de Ana. Sem Título - Foto: Divulgação - Blog do Arcanjo
Lúcia Murat, diretora de Ana. Sem Título – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

Tal como as personagens – reais e fictícias – de todas essas obras, me vi tentando refazer o caminho de Ana fora da ficção e já não seria capaz de, conforme pretendia originalmente, falar apenas da Ana que me pegou pela mão e me levou pela primeira vez a uma sala de cinema em quase dois anos.

Ao assistir ao filme e ao espetáculo praticamente em sequência, é inevitável constatar o óbvio: o quanto uma história contada sempre tem mais de quem narra – e de quem ouve – do que da própria história.

Assim, o que vemos nas obras são tramas que soam praticamente distintas, ainda que ancoradas nas mesmas bases e com diversos pontos em comum. Tanto Ana. Sem Título quanto Há Mais Futuro que Passado têm como premissa a história de pesquisadoras que encontram em cartas antigas diversas citações à misteriosa Ana e resolvem seguir em seu encalço.

Mas parece que, logo após o movimento inicial, as rotas entre espetáculo e filme se dividem, quase como se as mulheres que buscam Ana (na telona, a personagem vivida por Stella Rabello e a própria Murat, em cena como ela mesma; no palco, as atrizes Clarisse Zarvos, Cris Larin e Tainah Longras) optassem por caminhos contrários em uma bifurcação.

Artista desaparecida

Murat percorre cinco países atrás da artista desaparecida. Acompanhando o interesse de Stela junto a uma reduzida equipe de filmagem, a diretora conduz um documentário ambíguo que vai habilmente deixando o espectador sem saber o que é realidade ou ficção naquele universo.

Enquanto acumula pistas que a faz avançar na história daquela persona tão enigmática quanto encantadora, Stela se depara com a realidade cruel das ditaduras latino-americanas através de diversos depoentes de tais períodos históricos, num delicado jogo de reconstituição via relato oral.

A cada novo passo, o público vai, junto à protagonista, reconstituindo a trajetória de Ana, corporificada pela atriz Roberta Estrela D’Alva, e, ainda, sendo apresentado a suas obras, que alimentam cada vez mais as dúvidas sobre o porquê de seu apagamento da história (da arte).

Outra perspectiva no palco

Distante dali, no palco, a dramaturgia de Clarisse Zarvos, Mariana Barcelos e Daniele Avila Small (que também assina a direção), seguem rumo um pouco mais ambicioso. As artistas utilizam Ana para denunciar um assunto talvez menos debatido do que as ditaduras: a ausência da mulher na História da Arte.

Ideologia se desdobra em compromisso político e uma equipe composta quase que integralmente por artistas mulheres mergulha num profundo encontro com seus pares, com outras mulheres que, ao longo da história, receberam menos espaço e oportunidades de inserção no circuito do que homens.

Em forma de peça-palestra, o espetáculo questiona as razões para isso, expõe realidades, problemáticas, debate, reflete e, principalmente instiga o público a refletir.

Caminhos distintos, Anas possíveis

Ainda que trilhando caminhos diferentes, as duas obras assumem funções bastante necessárias na atualidade. Se, fiel à sua filmografia e sua própria biografia, Murat perscruta um passado que se torna cada vez mais assustadoramente presente, os regimes totalitários na América Latina e suas consequências, e artistas às voltas com censura e um Estado repressor; a montagem do Complexo Duplo assume discussões advindas dos movimentos identitários atuais, denunciando um passado mais amplo e igualmente presente: uma História da Arte e uma sociedade ancoradas em cânones patriarcais e, mais do que isso, uma América Latina que parece ainda longe de perder seu status de colonizada e busca diretrizes eurocêntricas, pautadas por uma minoria branca e rica.

Não me parece correto e nem mesmo justo que uma obra seja lida em comparação com outra, porém, ao dividirem o mesmo ponto de partida, é interessante constatar o quanto diferentes escolhas acabam por gerar também diferentes recepções pelo espectador.

Em seu filme, Lúcia Murat entrega a Stela a solução (ou uma ampliação?) de sua angústia, reunindo todas as peças do quebra cabeças e conduzindo a atriz ao desfecho de sua jornada. Ao dar a Ana um rosto, um destino e até mesmo uma produção artística, a diretora cria uma identidade única, tirando um pouco do público o desconforto de se deparar com esta “Ana-entidade”.

Não que a Ana em tela não seja, por si só, admirável. Pelo contrário, em diversas passagens a presença de Roberta Estrela D’Alva em cena imprime o magnetismo que a Ana das cartas causa em todos que conviveram com ela e, principalmente, na quase obsessiva Stela.

Mas há uma outra Ana, não sem título, mas sem rosto, e esta é mais que uma mulher, é praticamente um conceito. Ao manter Ana como um enigma, o espetáculo tem o poder de fazer com que, ainda que sendo uma ficção (ou exatamente por isso!) possamos encontrar pistas de Ana, ou até mesmo Anas inteiras, a cada esquina.

Eu mesmo, ao investigar sua trajetória (não pelos países da América Latina, mas, ao menos pelas abas de pesquisa do Google), encontrei muitas outras possíveis Anas: ela está em Luciana Romagnolli que, ao assinar o prefácio do livro com a dramaturgia, se coloca na condição de primeira crítica mulher a escrever sobre a peça, denunciando em alguma medida o quanto as histórias das artes não mudaram tanto assim (AINDA!).

Ana está em Rita Diva, atriz e ativista da Baixada Fluminense, vítima da Covid-19; é  possível encontrar Anas, ainda, no coletivo Guerrilla Girls, que questiona em uma obra no próprio MASP se “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?”.

Mas se a Ana dos anos 1960 a 1980 parece fadada a cair no esquecimento, todas as Anas que encontrei em 2021 me provam que não apenas há mais futuro que passado, mas que, através de tantas mulheres como as que conduziram as empreitadas citadas neste texto, já há mais presente que passado. Muito mais!

Leandro Fazolla – Foto: Higor Nery – Blog do Arcanjo

*Leandro Fazolla é ator, produtor cultural e crítico de arte. Doutorando em Artes Cênicas (Unirio), mestre em Arte e Cultura contemporânea (UERJ), pós-graduado em História do Teatro Brasileiro e Ocidental (CAL) e bacharel em História da Arte (UERJ). Morador da Baixada Fluminense, região periférica do Rio de Janeiro. Cofundador da Cia Cerne e realizador do projeto Cadernos Cênicos, em seu canal no YouTube.
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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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