Satyros prevê 2121 e faz alerta em As Mariposas, sua nova peça digital

Por Miguel Arcanjo Prado

Pelo andamento atual do mundo, um futuro complicado espera a humanidade na visão da peça As Mariposas. A nova obra do teatro digital da Cia. de Teatro Os Satyros, escrita por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, estreia nesta sexta, às 21h, no Espaço Digital dos Satyros na Sympla. Fica em temporada digital com atores ao vivo até 25 de abril, de quinta a sábado, 21h, e domingo, 18h.

O futuro distópico imaginado por Cabral e Vázquez se passa daqui a um século, exatamente no ano 2121, quando a Terra não tem mais flora nem fauna e a peste integra o dia a dia da humanidade sobrevivente.

No plano político, um presidente-ditador se mantém ad eternum no poder por meio de seus 87 filhos. Falando em filhos, a concepção da maioria dos novos bebês é feita apenas in vitro, sem possibilidade de sexo. E o pior: as pessoas interagem apenas por meio de avatares, sem qualquer tipo de contato físico.

No elenco, estão 13 atores veteranos da companhia sediada na praça Roosevelt, centro de São Paulo: Diego Ribeiro, Eduardo Chagas, Fabio Penna, Gustavo Ferreira, Henrique Mello, Ivam Cabral, Ju Alonso, Julia Bobrow, Nicole Puzzi, Marcia Daylin, Mariana França, Sabrina Denobile e Silvio Eduardo. Na equipe de direção de arte estão Adriana Vaz e Thiago Capella, com assistência de Letícia Gomide.

Eduardo Chagas e Ivam Cabral em As Mariposas, nova peça digital do Satyros – Fotos: Andre Stefano/Divulgação – blogdoarcanjo.com

“Espetáculo é um alerta”

“Vivemos num tempo em que não se precisa mais de uma bola de cristal para imaginar o que vai acontecer com o planeta, por que o mundo já está devastado, já está irrespirável. É quase ingenuidade, porque estamos vivendo tudo isso hoje. Os corpos estão se decompondo em praça pública, isso é a realidade de 2021”, afirma Ivam Cabral, lembrando que o grupo discute as relações entre o homem e a tecnologia desde 2009, época em que as redes sociais estavam ainda longe de imperar como nos dias atuais.

Para o artista, o novo espetáculo do Satyros “é um alerta para a humanização do planeta, para percebermos que, apesar de tudo, ainda temos ar, rio, árvore”. Para o ator e dramaturgo, “meio ambiente não é só falar de floresta, de rios – é falar de relações, é falar em modo sistêmico”, pontua. “Se não conseguimos mais falar em modo sistêmico, em compor e desenhar relações, o que vai acontecer conosco?”, questiona.

Henrique Mello e Julia Bobrow em As Mariposas, do Satyros – Fotos: Andre Stefano/Divulgação – blogdoarcanjo.com

Apocalipse bíblico

Vázquez revela que uma das inspirações para As Mariposas veio da Bíblia, mais especificamente de seu último livro, o Apocalipse, no capítulo 8 e versículos 10 e 11, que falam dos sete anjos apocalípticos. Ele recita de cabeça:

“E o terceiro anjo tocou a sua trombeta e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre a fonte das águas e o nome da estrela era absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas”, diz.

Cena de A Arte de Encarar o Medo, peça apresentada em 4 continentes em 2020 e vencedora de prêmio em Calcutá, na Índia, feito inédito para o teatro brasileiro – Fotos: Andre Stefano/Divulgação – blogdoarcanjo.com

Satyros na pandemia

As Mariposas encerra a trilogia do grupo sobre os tempos em que vivemos, iniciada no ano passado com A Arte de Encarar o Medo e Novos Normais – Sobre Sexo e Outros Desejos Pandêmicos.

A companhia foi o grupo teatral mais ativo do país durante 2020, ano em que estreou 6 espetáculos on-line, além de realizar o festival Satyrianas em formato digital, com mais de 400 atrações vistas por 35 mil pessoas.

Em 32 anos de trajetória, o grupo fez mais de 100 espetáculos, se apresentou em 27 países e ganhou mais de 100 prêmios nacionais e internacionais, como os recentes troféus de Melhor Elenco e Melhor Espetáculo para A Arte de Encarar o Medo, no fim de 2020, no Festival Red Courtain, em Calcutá, na Índia.

Cena da peça Novos Normais do Satyros – Fotos: Andre Stefano/Divulgação – blogdoarcanjo.com

Com o período de isolamento, o monólogo de Ivam Cabral Todos Os Sonhos do Mundo foi a primeira peça a entrar em cartaz de forma online, há quase um ano, no dia 20 de março de 2020, fazendo dele o primeiro ator do teatro digital. A partir daí, o grupo criou o Espaço Satyros Digital, que passou a receber os espetáculos digitais da companhia, concebidos na plataforma Zoom.

A pioneira A Arte de Encarar o Medo, primeira grande obra do teatro brasileiro com elenco numeroso no Zoom, criada e apresentada em 2020, recebeu três diferentes montagens internacionais. As versões brasileira, afro-europeia e norte-americana foram dirigidas e ensaiadas remotamente pelo diretor brasileiro Rodolfo García Vázquez, e vistas por mais de 30 mil pessoas pelo mundo.

As duas versões internacionais, chamadas The Art Of Facing Fear, reuniram artistas e companhias de 10 países (Brasil, EUA, Inglaterra, Senegal, Nigéria, Cabo Verde, África do Sul, Zimbabwe, Alemanha, Suécia) e forma apresentadas em quatro continentes, feito inédito para uma obra teatral brasileira.

The Art of Facing Fear ainda foi indicada a seis categorias ao BroadwayWorld de Los Angeles, incluindo Melhor Espetáculo, Elenco e Direção, e no Brasil A Arte de Encarar o Medo foi indicada ao Prêmio APCA, está indicada ao Prêmio Arcanjo de Cultura e foi nomeada destaque teatral do ano de 2020 pelos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.

Novo livro

Neste sábado (20), das 17h30 às 19h, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez lançam o livro 1991 ou a Imperfeição do Amor, texto de espetáculo do grupo que ainda irá estrear no presencial quando for possível. Trata-se da segunda parte da Trilogia das Revelações, que teve início com Todos os Sonhos do Mundo, em 2019.

A dupla de dramaturgos têm feito parceria contínua com a Editora Giostri, nos últimos anos, publicando sempre suas peças. Pela primeira vez na história do Satyros o livro chega antes da peça. É o 15º livro lançado por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, que já levaram o Prêmio Jabuti, como Melhor Livro de Arte, e também escrevem para cinema e TV. Para acompanhar o lançamento, basta acessar este link: https://bit.ly/2MQ4J9S

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Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. É coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro, colunista do Notícias da TV e faz o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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