Morre Marilena Ansaldi, grande bailarina do Brasil

Por Miguel Arcanjo Prado

Morreu Marilena Ansaldi, grande bailarina do Brasil, aos 86 anos, apurou o Blog do Arcanjo. Ela morreu às 7h desta terça, 9/2, devido a complicações pulmonares e falência múltipla dos órgãos, mas não foi Covid-19. Desde outubro ela estava internada no Hospital dos Servidores da Cidade de São Paulo, informou Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho, seus assessores. Ela já havia superado um câncer, mas infelizmente não resistiu dessa vez. A artista foi pioneira no país na dança-teatro. O último espetáculo dela foi Depois, com a Studio3 Cia. de Dança. Marilena ainda trabalhou como atriz na TV Globo e atuou nas novelas Selva de Pedra e Cara e Coroa.

A artista nasceu em 4 de novembro de 1934 e foi um dos principais nomes da dança brasileira. Ela foi a primeira bailarina do Theatro Municipal de São Paulo e bailarina convidada pelo Balé Bolshoi, da Rússia. Também foi casada com o crítico teatral Sábato Magaldi.

Marilena ainda fundou o Balé de Câmara do Estado de São Paulo, em 1966, e o Grupo de Dança Viva, em 1972. Sua trajetória de sucesso é contada no livro Marilena Ansaldi – ATOS – Movimento na Vida e no Palco, lançado em 1994 pela Editora Maltese com Bolsa da Fundação Vitae.

Marilena Ansaldi e José Possi Neto: parceria marcante nos palcos – Foto: Divulgação – blogdoarcanjo.com

Seu último trabalho nos palcos foi em 2019, em Depois de Tudo, com direção de Anselmo Zolla e o Studio 3 de Dança. Em 2017, foi dirigida por José Possi Neto em Paixão e Fúria, Callas, O Mito, espetáculo com temporadas consagradoras no Brasil e na Europa. O diretor conversou sobre a amiga e parceira de trabalho com o Blog do Arcanjo, ainda muito sensibilizado com sua partida. Leia a fala de José Possi Neto sobre Marilena Ansaldi.

Marilena Ansaldi foi casada com Sábato Magaldi, que foi meu professor na ECA. Eu a conheci como coreógrafa e primeira bailarina do Theatro Municipal de São Paulo, onde começou muito jovem, quando ainda era o Balé da Ópera do Theatro Municipal. Depois ele se transforma no Corpo de Baile, onde foi solista. Nos anos 1960, com muita coragem, participa com um grupo de brasileiros do Festival da Juventude na Suécia, consegue entrar na Rússia, consegue uma audição no Bolshoi com muita luta, entra no Bolshoi, onde vira solista. Ela fica dois anos na Rússia, então União Sovitéica, e sai porque ela teria de assumir a cidadania russa e nunca mais poderia voltar ao Brasil, já que eram tempos de Cortina de Ferro. Ela passa um período em Paris para que desapareça do passaporte dela a passagem pela Rússia, o que era proibido, e ela faz bicos e figurações no cinema francês para sobreviver. Depois, volta para o Brasil, para o Balé do Theatro Municipal. Ela é entrevistada pelo Sábato Magaldi, para a estreia de uma ideia dela de montar Dama das Camélias, ele tinha acabado de ficar viúvo, se apaixonam e casam. Ela então passa a se interessar por teatro e a viver com a comunidade. Foi grande amiga de Cacilda Becker, Ruth Escobar, Walmor Chagas, enfim, das figuras mais importantes do teatro brasileiro. Nisso, ela rompe com a dança clássica e é a pioneira na criação de teatro-dança no Brasil. Trabalhou com Celso Nunes e Iacov Hillel, que cria com ela o premiado espetáculo Isso ou Aquilo. Foi premiadíssima em Sopro de Vida, de Clarice Lispector. Trabalha com Marcio Aurelio, Cibele Forjaz e comigo em variados espetáculos, tudo na linguagem de teatro-dança. Ela se despede dos palcos há 8 anos e a trago de volta para o Cia Studio3 de Dança, volta com Paixão e Fúria, Callas, o Mito. Completa 80 anos em cena no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e viaja conosco para Milão e Paris, onde fez a volta de fênix consagrada. Fez ainda Orpheus com o Studio3. Seu último espetáculo foi Depois de Tudo, no qual foi ovacionada. Nos últimos anos, voltou às salas de ensaio, admirada por bailarinos jovens. Era hilária e foi minha grande amiga. Ela foi triste por ver o Brasil governado por uma enorme mediocridade. Marilena Ansaldi construiu uma carreira de glórias e muita luta, porque todo pioneiro sofre muito para se impor. A cultura brasileira fica mais pobre com a ausência de Marilena Ansaldi”.

José Possi Neto, diretor.

Marilena Ansaldi – Fotos: Leandro Menezes/Divulgação – blogdoarcanjo.com

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Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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