Angela Ro Ro supera sufoco, faz live e avisa: ‘Vírus herdarão a Terra’

Por Miguel Arcanjo Prado

Angela Ro Ro sempre foi da pá virada. No melhor dos sentidos que esta expressão pode ter. Afinal, ela merece todo o nosso respeito. Aos 70 anos, continua com a cuca fresca, se reinventando diariamente e dando o que falar.

Nas últimas semanas, virou notícia por ter pedido ajuda financeira em suas redes sociais nestes tempos de artistas fortemente prejudicados pela pandemia do novo coronavírus, que lhe tirou o ganha pão dos shows.

O apelo rendeu. Ela recebeu socorro de amigos queridos, fãs longínquos e o convite para fazer a primeira live, que acontece na noite deste sábado (11), 21h30, na plataforma gratuita de entretenimento digital do governo paulista #CulturaEmCasa.

Assim, estes últimos dias foram de intensos preparativos, com Ro Ro se esmerando para deixar pronta a parafernália técnica que permitirá que sua voz e seu teclado sejam ouvidos no mundo inteiro nesta noite. Aliás, o Brasil sempre ganha quando Ro Ro arranha sua garganta e abre a boca.

Veveta, Daniela, Kátia Flávia e Pretinho

A cantora está reclusa no velho sítio herdado dos pais em Saquarema, no litoral fluminense, onde, apesar dos apuros financeiros, busca passar sua quarentena em paz com direito a mergulhos nua na piscina.

Por telefone, dá detalhes.

“Olha, Arcanjo, aqui tem quintal, acabei de pegar um pinguinho de sol, tem árvore, coisa do tempo da minha mãe. Isso aqui papai comprou em 1967; eu tinha 17 anos”, recorda. “Tem bastante terrinha, tem planta, árvore frutífera”, enumera.

Durante esta quarentena, passaram a frequentar a casa quatro gatos abandonados da região. Religiosamente, os bichanos comem a ração que Ro Ro disponibiliza “três vezes por dia”.

E como eles se chamam? Ela revela os nomes do quarteto ao Blog do Arcanjo: “Tem a Veveta, que é em homenagem a Ivete Sangalo, tem a Daniela Mercury, tem a Kátia Flávia e o Pretinho, em homenagem ao Zé Pretinho do Jorge Ben Jor”, explica. “Dou um pouco de ração para os bichinhos… Não vou ficar menos rica nem mais pobre por comprar três quilos de ração para eles”, avisa.

Angela Ro Ro, o compositor Paulinho Lima e Ana Terra, sua parceira em Amor Meu Grande Amor, seu grande hit – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Blues londrino & Escândalo

A artista nunca foi de personalidade conformista. Pouco após chegar à maioridade, em pleno auge feroz da ditadura militar no Brasil, fez as malas e se mandou para Londres, onde fez de um tudo: de faxineira de hospital à lavadora de pratos em restaurante, mas o que mais curtia mesmo era encantar os ingleses com sua voz rouca nos pubs britânicos, em plena “era paz e amor”.

De volta ao Brasil, toda trabalhada na lisergia da London, London, rodou de bar em bar até conquistar seu lugar ao sol, em 1979, com o disco que levou seu nome e até hoje reúne seus maiores sucessos, em uma acertada aposta de Roberto Menescal, então diretor artístico da gravadora Polygram.

Depois, Ro Ro viveu as dores e as delícias da glória e da fossa e foi alvo de maledicências na imprensa — sobretudo após o término tumultuado do namoro com a também cantora Zizi Possi, coisa que depois rendeu o disco Escândalo, com canção-título composta por Caetano Veloso.

Naquele tempo, tratar com naturalidade o amor entre duas mulheres ainda era tabu, com a imprensa e o mercado artístico mergulhados no mar da hipocrisia.

Cabe aqui um parêntesis: Nas andanças pelos bares do Baixo Leblon na década de 1980, Ro Ro ficou próxima de Cazuza, que aprontava mais que ela na noite. “O Cazuza falava que eu era careta. Imagina, eu, Angela Ro Ro, careta! É que às vezes os meninos iam muito fundo e eu falava para eles maneirarem um pouco, e o Cazuza me xingava: ‘Para de mamãezar, Ro Ro! Eu já tenho a Lucinha!’. Aliás, a Lucinha Araújo é uma santa, mãe como ela não existe… Vou cantar na live Cheirando a Amor, que era a minha música que o Cazuza mais gostava, ele sempre me dizia isso. Essa semana fez 30 anos que ele morreu, passou muito rápido! A música está até no filme Cazuza – O Tempo Não Para, na cena que ele sai com o namorado Serginho do bar, que é muito linda por sinal. Aliás, aquele menino que fez o Cazuza [o ator mineiro Daniel de Oliveira] foi muito bem”, elogia.

Talvez, por tanto preconceito ao redor e por não ter aceitado as regras do jogo sujo do sistema, Ro Ro com tempo foi sendo deixada de escanteio no mainstream do showbiz nacional, cada vez menos afeito a artistas de verdade, daqueles que conjugam talento, originalidade e personalidade numa mesma equação.

Angela Ro Ro – Foto: Jorge Bispo/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

‘Não fiquei milionária’

Contudo, seu público fiel jamais deixou de respeitá-la, por seu talento e por sua coragem de defender seu direito de simplesmente ser, sem amarras nem molduras pré-fabricadas.

Como não é de lamuriar o que não foi, Ro Ro foca no presente concreto da vida. Por isso, faz questão de aproveitar o papo para agradecer a todos que se comoveram com seu pedido e a ajudaram.

“A única pessoa que já tinha pedido dinheiro na vida tinha sido o meu pai. Ao pedir dinheiro agora, eu me senti uma monja budista, aceitando e pedindo oferenda, oferecendo meus dons, minha poesia, minha música… Preciso dizer muito obrigado a todos que ajudaram ou mandaram energia boa”, afirma.

Momentaneamente, o sufoco foi aliviado. “Graças a Deus, consegui pagar algumas contas… Tenho de me manter. Várias pessoas doaram. Não fiquei milionária, que isso fique bem claro, mas consegui virar com dignidade este período. Plano de saúde de velhinha é caro, rapaz”, avisa.

Diante das turbulências recentes amorosas, com direito a desabafo nas redes depois devidamente borrados, este escriba pergunta: E o coração, Ro Ro? “Estou no verbo soul, de sozinha. Não estou namorando ninguém”, trata de encerrar rapidamente essa etapa da conversa. “Melhor a gente não mexer em ferida que demorou a cicatrizar”, pontua.

Armagedom de ogivas? Não, de vírus!

A única pessoa com quem mantém contato atualmente é o caseiro do sítio, a quem chama de “meu professor em todas as relações humanas”, que lhe ajuda com as compras e as pendências do lugar. “Não deixei de depositar o salário dele e todos os direitos”, faz questão de esclarecer.

Ro Ro não quis saber de muita gente em casa na live. “Duas pessoas na casa para mim já virou o Maracanazinho. Estou respeitando o isolamento. Por isso, eu mesma vou tocar teclado na live, não vou trazer músico, porque a live vai até altas horas… Eu não vou botar homem para dormir aqui em casa”, fala.

Sobre a situação atual da humanidade em confinamento nesta pandemia, ela recorre a um colega de profissão inglês dois anos mais jovem que ela. “Você se lembra daquela música do Sting, da época do The Police, Walking In Your Footsteps?”, pergunta, antes de cantarolar: “They say the meek shall inherit the erth”…

“É isso, os pequenos herdarão a Terra. Na Bíblia está escrito, em vários lugares e religiões. Com o mesmo sentido dessa frase de Cristo. Quando a gente era hippie, a gente achava que o mundo iria ser destruído com a humanidade e só sobrariam as baratas. Que o Armagedom fosse ser de ogivas nucleares, mísseis, bombas e guerra química. Que nada! Só que eu acabei de descobrir que são os vírus quem vão herdar a terra”, encerra o papo a inigualável Angela Ro Ro.

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