Morre Miss Biá, drag pioneira e ícone da noite de SP

Morreu Miss Biá, aos 80 anos, grande ícone da noite paulistana e pioneira na arte drag e transformista no Brasil, vítima da covid-19, nesta quarta (3). Artista desde 1961, ela trabalhou como artista da noite, drag, performer e maquiadora até o fim de sua vida.

Sua morte acontece um dia depois da morte Vânia Mattos, a Bonequinha do Medieval, também vítima do novo coronavírus, sua amiga e também drag pioneira, com quem vivia em um apartamento na av. Vieira de Carvalho, na República, região central paulistana.

Pioneira na cultura drag queen no Brasil, Biá, cujo nome de batismo era Eduardo Albarella, ficou famosa por seus figurinos exuberantes e maquiagens sempre perfeitas e de grande sofisticação.

“Duas coisas: se você tem talento e se tem glamour, meu bem, ninguém te derruba”, MISS BIÁ

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No sofá da Biá – Tudo Sobre Eles
Biá e a amiga Rogéria – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do @miguel.arcanjo

Paulistana descendentes de italianos do Brás, seu nome artístico foi retirado de uma canção de Carmen Miranda.

Repleta de referências cults, Biá fazia seu visual inspirado na diva do cinema italiano da década de 1950 Gina Lollobrigida.

Ela também era grande fã de Hebe Camargo, de quem foi amiga íntima.

Biá dança em lendária apresentação na boate Nostromundo – Foto: Arquivo pessoal – Blog do @miguel.arcanjo

Em depoimento “A gente era vista pelo Chiquinho Scarpa, Denner, Clodovil. Todo esse povo ia ver porque era uma coisa diferente. O Medieval foi a primeira casa, com aquele espetáculo maravilhoso, depois veio Nostromundo, a Corinto, a HS, e aí foi crescendo o movimento”, lembrou Biá há dois anos em depoimento ao Museu da Diversidade de São Paulo.

“Sempre como ator transformista. Não tinha essa coisa de drag, essa coisa que o pessoal vê o vídeo, faz igual e vai em frente. Tinha uma repressão muito grande e veio a censura, a ditadura era muito pesada. Então, eu trabalhava de homem, hominho meio fresco, e fazia show com vedetes como Wilza Carla, Sonia Mamede, Marly Marley, todo esse pessoal, artista da Globo, trabalhei com muita gente”, contou Biá em depoimento ao Museu da Diversidade de São Paulo.

Miss Biá e Márcia Dailyn nos bastidores da peça Entrevista com Phedra, de Miguel Arcanjo Prado, em 2019, no Espaço dos Satyros – Foto: Miguel Arcanjo Prado Blog do @miguel.arcanjo

Amiga e pupila, Márcia Dailyn lamenta morte de Biá

“Biá amava sorrir, nunca fez maldade com ninguém, era uma bondade de pessoa”, disse ao Blog do Arcanjo, emocionada, a atriz Márcia Dailyn, diva do Satyros e da praça Roosevelt e musa do Acadêmicos do Baixo Augusta e da boate The Week. Márcia e Biá eram muito amigas, já que Biá ajudou Márcia no começo de sua carreira.

“Biá foi me ver inúmeras vezes dançar no Theatro Municipal”, lembra Márcia, primeira bailarina trans da escola de bailado do mais tradicional espaço cênico paulista.

Márcia recorda que foi apresentada à Biá por Phedra D. Córdoba (1938-2016), a grande diva cubana, a quem interpretou no teatro na peça Entrevista com Phedra, obra vencedora do Prêmio Nelson Rodrigues de 2019 e que Biá assistiu.

“A primeira vez que pisei no palco foi na boate Nostromundo, numa matinê de domingo, foi a Phedra e a Biá quem criaram meu número, com sapatilha de ponta no palco com a música do Abba”, rememora.

“Quando saí do Municipal, a Biá me conseguiu emprego com hostess e no elenco na Planet G, foi ela quem me colocou lá”, recorda. “E foi ela quem me batizou artisticamente. Já era Márcia, e ela achava muito comum, aí ela falou Dailyn, tanto que ela amava me chamar de Dailyn Rose”.

“Sem saber, na hora em que ela morreu hoje, eu senti a Biá perto de mim. Assim como aconteceu no dia que a Rogéria partiu”, contou a diva.

A última aparição pública de Biá foi em janeiro deste ano na plateia do espetáculo Divinas Divas no Theatro Municipal de São Paulo, onde foi aplaudir as amigas.

“Os figurinos que a Biá me deu da época que fazia a Hebe ficam de lembrança e de recordação. Miguel, não sei o que dizer, minha cabeça está a mil, minhas amigas estão indo embora, as pioneiras que me deram as mãos e me ensinaram a conduzir como artista”, concluiu.

A imagem pode conter: 12 pessoas, incluindo Divina Nubia, pessoas sentadas
Divina Núbia (à esquerda, de cabelos ruivos), ao lado de Kaká Di Polly, Elisa Mascaro, Miss Biá e Vânia Mattos na estreia do filme São Paulo em Hi-Fi no Cinesesc – Foto: Arquivo Blog do @miguel.arcanjo

Divina Núbia lamenta morte de Miss Biá

“Perdemos uma das primeiras transformistas, que sem saber que estava abrindo os caminhos”, define Divina Núbia, importante drag da noite paulistana, sobre Miss Biá.

“Com simpatia e carisma, viveu 60 anos da arte, fazendo o que gostava. Passou por várias novas gerações e sempre cabia com seu discurso acima de tudo artístico, que foi o que trouxe Biá até aqui”, declarou Núbia.

“Fechou a cortina pra nós, mas ela está atrás dessa cortina com uma quantidade e uma qualidade de artistas que se foram e que não têm tamanho. Desfrute agora Biá daqueles que estavam te fazendo falta e agora estão lhe recebendo. Biá Forever”, finalizou.

Veja o depoimento de Miss Biá ao Museu da Diversidade:

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2 Resultados

  1. ISABELITA DOS PATINS disse:

    PARABENS PELA BELA E MERECIDA MATERIA PARA A QUERIDA BIA = ELA ERA UM ATOR PERFORMATICO UMA CELEBRIDADE UMA FACULDADE PARA TODOS NÓS = PARABENS PELA MATERIA =

  1. 04/06/2020

    […] em São Paulo, vítima da covid-19, na última terça (2), apurou o Blog do Arcanjo. Assim como Miss Biá, que também morreu aos 80 anos nesta quarta (3), vítima do novo coronavírus, Vânia Mattos, cujo nome de batismo era Rubens Borro, foi drag pioneira na noite paulistana, na […]

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