Morre Maria Alice Vergueiro, atriz histórica do teatro brasileiro

A atriz Maria Alice Vergueiro morre aos 85 anos; na foto ela está em Why the Horse?, sua última peça – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo

Morreu a atriz Maria Alice Vergueiro nesta quarta (3), aos 85 anos, em São Paulo, apurou o Blog do Arcanjo.

Nome histórico do teatro brasileiro, ela estava internada havia cerca de uma semana no Hospital das Clínicas de São Paulo onde entrou com quadro de pneumonia e insuficiência respiratória. A intérprete e diretora teatral sofria do Mal de Parkinson.

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A artista chegou a ser testada para a covid-19, mas o resultado do teste deu negativo.

Maria Alice Vergueiro era um dos grandes nomes do teatro brasileiro, bastante querida e respeitada pela classe artística e pelo público, fruto de sua grande dedicação às artes cênicas durante toda sua vida.

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Maria Alice Vergueiro com os atores Robson Catalunha e Carolina Splendore na peça Why the Horse? – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo

Sua última peça foi Why the Horse?, em cartaz de 2015 a 2017 e que participou do Festival de Teatro de Curitiba, além de ter viajado os principais palcos do Brasil. Na obra, ela encenou o próprio velório ao lado dos atores Carolina Splendore, Luciano Chirolli, Otávio Ortega e Robson Catalunha.

A artista sofria também do Mal de Parkinson. Ela ficou conhecida do grande público pelo vídeo viral Tapa na Pantera. Em 2011, foi a grande homenageada do Prêmio Shell de Teatro. Em 2013, fez um projeto de residência artística na SP Escola de Teatro, trabalhando com jovens atores.

Nos últimos anos de vida, manteve uma relação de forte proximidade com o também ator Luciano Chirolli, que também esteve ao seu lado na peça Why the Horse?

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Luciano Chirolli e Maria Alice Vergueiro em Why the Horse? – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo

Classe artística lamenta morte de Maria Alice Vergueiro

A morte de Maria Alice Vergueiro comove a classe artística. Veja algumas manifestações:

“Maria foi o nosso oráculo. Seus ensinamentos sempre foram além da cena. Cabiam nas nossas vidas, sempre. Nos últimos anos foi figura central na minha vida e na trajetória da SP Escola de Teatro. O que poucos sabem é que Maria era pedagoga de formação e instituiu na Escola de Comunicações e Artes a cadeira de Pedagogia do Teatro. Esteve comigo em muitos momentos da estruturação pedagógica da SP. Seus últimos trabalhos surgiram dentro do Satyros ou da SP Escola de Teatro. Com ela, se encerra um ciclo…”
Ivam Cabral, ator

“Maria Alice foi uma fonte de inspiração para muita gente de teatro, um ícone de mulher livre e amante do teatro. Uma grande mestra. Nos últimos anos de sua vida, nos aproximamos muito e quase trabalhamos juntos, o que seria uma honra. Amor eterno a essa artista maravilhosa!”
Rodolfo García Vázquez, diretor

“Maria Alice Vergueiro foi a síntese do ato de coragem e rebeldia que é ser artista no Brasil.”
Miguel Arcanjo Prado, jornalista e crítico de artes da APCA

“Maria Alice Vergueiro nos ensinou muito. Ensinou até como sair de cena”
Robson Catalunha, ator

“Maria Alice Vergueiro foi um dos retratos mais importantes da minha trajetória. Sempre tive o sonho de fotografar Maria Alice Vergueiro. No dia do retrato, ela me disse: – Bob, posso te contar uma coisa? Sempre quis ser retratada por você. Achei que você nunca viria, porra! Salve, Maria Alice Vergueiro, a “velha dama indigna” do teatro brasileiro. Sentiremos uma saudade do tamanho da sua grandeza.”
Bob Sousa, fotógrafo e crítico de artes da APCA

“Um ano difícil para cultura. São muitas perdas. E perdas grandes como a Maria Alice Vergueiro. Muita gente conhece ela apenas de “Tapa na Pantera”, mas ela era múltipla, tem uma história incrível. Me sinto honrada em saber que pude registrar e presenciar uma das últimas apresentações dela no Teatro, em Why de Horse?. Que seu legado nunca seja esquecido.”
Annelize Tozetto, fotógrafa

A atriz e diretora Maria Alice Vergueiro em sua casa em retrato de Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo

Grande atriz do teatro

Dona de uma forte energia no palco e de personalidade irreverente, Maria Alice Monteiro de Campos Vergueiro nasceu em São Paulo, em 19 de janeiro de 1935.

Estreou profissionalmente como atriz em A Mandrágora, no Teatro de Arena, dirigida por Augusto Boal, em 1962. Ela ainda atuou como professora de artes até 1971, quando foi para o Teat(r)o Oficina dirigido por Zé Celso.

Em 1972 esteve na peça Gracias, Señor e, no ano seguinte, o filme O Rei da Vela. Com Luís Antônio Martinez Corrêa, participou de O Casamento do Pequeno Burguês, de Bertolt Brecht, em 1973, apresentada no Festival de Nancy, na França, segundo informa a Enciclopédia Itaú Cultural.

Depois, foi a Portugal, onde deu aulas na Fundação Calouste Gulbenkian e integrou a encenação de Galileu Galilei, encenada por José Celso Martinez Corrêa (1937) no exílio, em 1975.

Maria Alice Vergueiro em retrato de Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo

Teatro Ornitorrinco

Desligada da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ECA/USP, junta-se a dois de seus ex-alunos, Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset para fundar o Teatro do Ornitorrinco, cuja primeira produção é Os Mais Fortes, baseado em August Strindberg, em 1977.

A obra foi apresentada quase clandestinamente nos porões do Teatro Oficina, rendendo a Maria Alice seu primeiro Prêmio Molière como intérprete.

Seguem-se Ornitorrinco Canta Brecht e Weill, no mesmo ano; A Ópera do Malandro, de Chico Buarque, encenação de Luís Antônio Martinez Corrêa, em 1978; O Percevejo, em 1981; O Lírio do Inferno, um novo show de cabaré também levado a Portugal. Em 1985 interpreta com destaque O Gosto da Própria Carne, de Albert Innaurato, direção de Roberto Lage.

Em 1986 fez Katastrophé, reunião de quatro peças curtas de Samuel Beckett, com direção de Rubens Rusche, com ótimas críticas.

Com Gerald Thomas, se destacou em Eletra Com Creta, em 1986, sendo premiada pela APCA.

Em 1989, dedica-se a O Doente Imaginário, nova criação com o Ornitorrinco. Dirige e atua em Dom Pirlimplim com Belisa em seu Jardim (1992), de Federico García Lorca, apresentado em diversos festivais internacionais.

Em 1995 volta à direção com Quíntuplos, de Luis Rafael Sanches, e atua na Comédia dos Erros, novo sucesso do Ornitorrinco. Uma interpretação muito premiada surge em 1996, com No Alvo, de Thomas Bernhard (1931-1989). Dois anos depois está, mais uma vez com o Ornitorrinco, em O Avarento, de Molière (1622-1673), encenação de Cacá Rosset.

Na Bahia, fez Fausto, encenação de Carmen Paternostro (1948), espetáculo comemorativo dos 250 anos de Goethe (1749-1832), em 1999. Voltando à cena paulistana, em 2002, interpreta Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht, com direção de Sérgio Ferrara, outra obra bastante aclamada pela crítica.

Em 2011, teve atuação muito elogiada em As Três Velhas. Entre 2015 e 2017, fez sua última grande obra teatral: Why the Horse?, na qual encenou seu próprio velórios nos principais palcos do país.

No cinema, a atriz integrou o elenco de filmes como Maldita Coincidência (1979) e Romance (1988), de Sérgio Bianchi, Perfume de Gardênia (1992), de Guilherme de Almeida Prado; Urubus e Papagaios (1985), de José Joffily Filho. Na internet, fez um dos primeiros vídeos virais brasileiros, o Tapa na Pantera, sobre a maconha.

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