Falta de indicadores confiáveis preocupa profissionais do teatro

Multidão assiste a "Romeu e Julieta" do Grupo Galpão em BH em 2012 - Foto: Guto Muniz

Multidão assiste a “Romeu e Julieta” do Grupo Galpão em BH em 2012 – Foto: Guto Muniz

Por Miguel Arcanjo Prado

O teatro brasileiro é intenso e múltiplo, com espetáculos dos mais variados, indo da cena alternativa, muitas vezes feita sem apoio algum, às superproduções de orçamento milionário e repletas de patrocinadores. Porém, a falta de indicadores locais e nacionais consolidados sobre o setor preocupa os profissionais das artes cênicas.

No mundo dominado por números, falta ao teatro, por exemplo, índices mensais e anuais sobre público, faturamento em bilheteria e geração de empregos no setor, que sejam aferidos e divulgados de uma forma confiável, como acontece, por exemplo, no cinema.

De olho neste problema, no último mês, durante do 13º FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte), que teve público de 80 mil pessoas, a Rede de Festivais de Teatro do Brasil divulgou uma carta aberta, na qual, entre outros tópicos, pede ajuda do poder público para a “implantação do sistema de indicadores” nos festivais nacionais e internacionais de teatro realizados no país.

Para Guilherme Marques, que representa a entidade e é diretor da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), a criação de indicadores “é urgente, necessária e fundamental” para dar mais força aos festivais teatrais e retirá-los de uma “situação de fragilidade”.

Diretor do Festival de Teatro de Curitiba, o maior do Brasil e que na edição deste ano levou 180 mil pessoas ao teatro, Leandro Knopfholz lembra que os profissionais das artes cênicas são “sobreviventes e resistentes”,  e que enfrentam a crise econômica com coragem. Para ele, indicadores nacionais confiáveis dariam força ao setor.

Guilherme Marques, da MITsp, e Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba - Fotos: Sergio Castro e Daniel Sorrentino

Guilherme Marques (esq.), da MITsp, e Leandro Knopfholz, de Curitiba – Fotos: Sergio Castro/Daniel Sorrentino

Alexandre Mate, pesquisador do teatro e professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), lembra que São Paulo é o maior polo teatral do Brasil, com “produção intensa, múltipla, diversa e extremamente complexa, do ponto de vista quantitativo e qualitativo”, destacando o trabalho feito pelo teatro de grupo na cidade.

Mesmo com uma cena tão pungente, Mate lembra que as únicas fontes confiáveis sobre a produção teatral paulistana são os próprios grupos. “Nenhuma entidade de ‘classe’ (categoria), de ensino, cultural cuida ou preocupa-se com os números”, diz. “Não existem fontes confiáveis porque não há fontes que têm tal tipo de preocupação”, reforça o estudioso.

Ele lembra que algumas dissertações ou teses tentam suprir essa falta de informação, citando como exemplo o livro de José Cetra Filho “O Teatro Paulistano de 1964 a 2014 – Memórias de um Espectador”, publicado pela Editora Giostri. “Sem dúvida, seria fundamental que os dados referentes às informações quantitativas pudessem existir”, afirm, citando como exemplo pesquisas “de perfis de público, mentalidades, obras mais procuradas, por gêneros, artistas espaços”, entre outras questões.

O diretor Zé Henrique de Paula e o pesquisador Alexandre Mate - Fotos: Bob Sousa

O diretor Zé Henrique de Paula (esq.) e o pesquisador Alexandre Mate – Fotos: Bob Sousa

No comando do Teatro do Núcleo Experimental em São Paulo, Zé Henrique de Paula, que ganhou o último Prêmio APCA de melhor diretor por “Urinal, o Musical”, também lamenta a falta de levantamento de dados sobre o setor disponíveis para consulta pública, lembrando o levantamento feito pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro de São Paulo como um dos poucos do setor. “Isso representa apenas um fragmento da produção teatral paulistana”, lembra.

Paula cita dados que seriam importantes: “Se tivéssemos esses dados relativos à quantidade de público, alcance de ferramentas de divulgação direta e indireta, participação da atividade econômica no mercado, quem sabe não seria muito mais fácil dialogar com departamentos de marketing e captadores?”. E lembra: “O marketing das grandes empresas é bastante pautado por números e dados bem objetivos – a atividade teatral, carecendo dessas informações, pode estar perdendo um flanco de captação de recursos dos mais importantes”.

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