Taís Araújo sobre peça Mudando de Pele: “Foi o trabalho de processo mais lindo da minha vida”

Reportagem de FLORA CARNEIRO
Após o sucesso no Rio de Janeiro, a atriz Taís Araujo chega a São Paulo com a peça “Mudando de Pele”, que estreia nesta quarta, 3 de junho, e segue em temporada até 5 de julho com as sessões esgotadas no Teatro do Sesc 14 Bis, na Bela Vista. O espetáculo marca o retorno da atriz aos palcos e é o seu primeiro solo, mas um “solo coletivo”, após 30 anos de carreira e cerca de 20 obras na televisão. Com texto da autora inglesa Amanda Wilkin e direção de Yara de Novaes, Mayah, a personagem de Taís, conduz a história acompanhada pelas musicistas Dani Nega e Layla. Em entrevista exclusiva à repórter Flora Carneiro para o Blog do Arcanjo, Taís falou sobre a importância do projeto, suas escolhas e a satisfação com o processo criativo. Leia com toda a calma do mundo.
Blog do Arcanjo – De todos os textos que você leu e recebeu, o que em Mudando de Pele fez você pensar: “é essa a história que eu quero contar agora”?
Taís Araújo – É uma história universal, contemporânea e com a qual as pessoas se identificam. Além disso, eu acredito realmente que a gente muda de pele muitas vezes durante a vida.
Blog do Arcanjo – Como foi a escolha da Yara de Novaes para dirigir a peça? O que te fez ver nela a pessoa ideal para te ajudar a contar essa história?
Taís Araújo – A Yara já tinha me preparado para fazer a Raquel de Vale Tudo. Antes de começar a novela, eu já estava com esse texto na mão. Adorei o processo com ela e achei que precisava mesmo de uma mestra, para além de uma diretora. Ela é uma atriz fabulosa, diretora incrível e tem uma visão sobre o Brasil na qual eu acredito. Ela entende quem ela é no país e diz: “Eu sou uma mulher branca, fruto do projeto eugenista que deu certo no Brasil”. A avó dela é uma mulher negra retinta. Gosto de quem tem esse olhar mais cru, não romantizado, que entende quem se é dentro deste país. Além de ser uma artista muito talentosa, tem um olhar político que conjuga com o meu.

Blog do Arcanjo – Sobre a preparação para a Raquel, você já comentou que ela é uma das grandes personagens da sua vida, muito por causa das escolhas de atuação feitas com a Yara no início. Como foi construir a densidade e a complexidade dessa personagem?
Taís Araújo – Nós escolhemos fazer uma personagem que tinha uma coisa mais crua. Eu queria que fosse muito reconhecível, daquelas pessoas que você vê e diz: “Conheço essa mulher, é a mulher que está no corre da vida”. E conseguimos isso no processo de sala de ensaio. A Yara foi um disparador no início, mas depois não teve tempo de acompanhar por conta do trabalho. Então eu trabalhei com outros preparadores, como a Cristina Moura, que também dirige a peça.
Blog do Arcanjo – Voltando à peça, você falou sobre a necessidade de retornar aos palcos agora. Como é esse retorno através de um projeto tão seu, com texto e direção escolhidos por você? Qual é a potência disso?
Taís Araújo – Eu sabia que tinha que voltar para o teatro rápido. Meu plano era voltar com No Topo da Montanha [peça que ela e Lázaro Ramos, seu marido, faziam juntos] assim que acabasse Vale Tudo, mas não pude porque o Lázaro tinha outros compromissos profissionais, e não faz sentido fazer essa peça sem ele. Precisava escolher outro texto, e a ideia de fazer um solo foi justamente para não depender de outro ator para voltar. O teatro me faz bem demais, me desafia e me torna uma atriz melhor. Quando faço uma peça, saio mais fortalecida para fazer novela. Essa necessidade vem de exercer a minha própria curadoria. É um texto que eu escolhi, com as pessoas que escolhi, com uma idealização totalmente minha. Isso tem um valor gigantesco sob a ótica artística: é a minha visão do que quero mostrar ao público.
Quando faço uma peça, saio mais fortalecida para fazer novela.
Taís Araújo

Blog do Arcanjo – Você já comentou que gosta de se sentir útil através da arte, principalmente quando faz meninas negras se sentirem possíveis. Como Mudando de Pele conversa com isso pra você?
Taís Araújo – Olha, o Mudando de Pele não traz respostas prontas, mas gera uma identificação enorme, e não apenas com pessoas negras. Hoje mesmo, descendo do avião, uma jovem branca me abordou dizendo que viu a peça e está passando exatamente pela situação da primeira cena. Isso mostra como o assunto é universal, embora seja visto sob a perspectiva de uma mulher negra, já que a Amanda Wilkin, é negra. Se a peça fizesse parte de uma trilogia, ela seria o segundo capítulo; ela indica o caminho, não a resposta.
Blog do Arcanjo – Qual foi a última vez em que você precisou mudar de pele por sentir que não cabia mais em determinado lugar?
Taís Araújo – Muitas. Eu sou muito amiga da Arlete Salles, era muito próxima da Aracy Balabanian. Adoro trocar experiências com mulheres de outras gerações, tanto as mais velhas quanto as mais jovens. Aprendo demais com elas.
Blog do Arcanjo – Na peça, a protagonista é atravessada por uma mulher de 90 anos e outra de 20. Na sua vida pessoal, quais mulheres de diferentes gerações te transformaram
Taís Araújo – Eu mudo o tempo inteiro. Quando mudo de opinião, e eu mudo bastante, já sinto que estou em outro lugar. Mudar de pele é justamente isso: estar em outro momento da vida, abrir a cabeça, mudar pensamentos, abrir mão de convicções e saber desistir. Não tenho receio de mudar de ideia ou recalcular rotas. Fazemos isso no nosso dia a dia.

Blog do Arcanjo – Mudando de Pele começou como um solo e acabou se transformando nesse ‘solo coletivo’. Como foi construir esse processo criativo junto dessas outras mulheres?
Taís Araújo – Foi o trabalho de processo mais lindo, respeitoso e amoroso da minha vida, com uma qualidade de bem-estar gigantesca. Desde o início, a Yara disse que queria música ao vivo e trouxe a Dani Nega para fazer a direção musical e estar em cena conosco nos beats. A Dani trouxe a Laila para tocar kora, um instrumento ancestral lindo. Foi um processo muito horizontal e colaborativo, com muita gente participando da criação sob a liderança da Yara. Faltando uma semana para a estreia, comentei: “Yara, não tenho condições de chamar isso de solo”. Ela respondeu: “Mas o gênero é solo, porque é a Mayah quem conduz toda a história”. Eu argumentei: “Mas a construção foi coletiva. Vamos chamar de “solo coletivo”. Ela foi pesquisar, descobriu que o termo já existia e a gente decidiu chamar assim, porque fazia sentido.
Mudando de Pele
Estreia: 03 de junho, Quarta, 20h.
Temporada: De 4 de junho a 5 de julho de 2026. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h.
Horário especial para Copa do Mundo: Dias 13/6, 19/6 e 5/7, 15h.
Sessões com tradução em libras: 25, 26 e 27/6, às 20h; 28/6, às 18h.
Sessões com audiodescrição: 27/6, às 20h; 28/6, às 18h.
Ingressos: R$ 80 / R$ 40 / R$ 24
Vendas online em centralrelacionamento.sescsp.org.br ou pelo aplicativo Credencial Sesc a partir de 26/5, 17h.
Vendas presenciais nas bilheterias das unidades do Sesc São Paulo, a partir de 27/5, às 17h.
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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