CineOP celebra o cinema libertário de Helena Solberg nos 88 anos da cineasta pioneira

Enviado especial a Ouro Preto a convite da Universo Produção
O crepúsculo de junho desce sobre os casarios coloniais de Ouro Preto, tingindo de âmbar as ladeiras de pedra. No Centro de Artes e Convenções, o burburinho da 21ª CineOP carrega uma eletricidade singular. Sob o lema “Um país existe nas imagens que preserva”, o festival suspende o tempo para reverenciar a memória. No centro do palco, uma mulher de 88 anos condensa, no olhar perspicaz, mais de meio século de insurreição estética. Helena Solberg, a homenageada que recebe o Troféu Vila Rica na Mostra de Cinema de Ouro Preto, observa a plateia não como quem contempla um monumento estático do passado, mas como alguém que ainda interroga o presente com insaciável curiosidade.

O ano era 1966. Longe do esplendor das mostras contemporâneas, o cinema moderno brasileiro era um território majoritariamente masculinizado, onde as mulheres raramente empunhavam a câmera. Helena, contudo, subverteu essa cartografia ao conceber “A Entrevista”, obra basilar que inaugurou o cinema feminista nacional. Naquele inverno da ditadura militar, o fazer cinematográfico exigia uma espécie de clandestinidade doméstica.
A cineasta carioca recorda que os depoimentos de jovens burguesas sobre casamento, virgindade e expectativas sufocantes precisavam ser colhidos em quartos fechados, sob sussurros e portas trancadas. Havia uma tensão palpável no ar, o medo da repreensão familiar pairando como fumaça. Diante da recusa das entrevistadas em expor a identidade, a diretora utilizou a própria cunhada para encenar o ritual de preparação de uma noiva, unindo a palavra anônima à imagem encenada, o que foi uma audácia de linguagem que fraturou o documentarismo tradicional.

Esse percurso de experimentações estendeu-se para além das fronteiras nacionais. Nos anos 1970, exilada voluntariamente nos Estados Unidos com a família, Helena fundou o International Women’s Film Project em Washington. Ali, a autoria individual cedeu espaço a um fazer coletivo e militante. Surgiu a chamada Trilogia da Mulher (“The Emerging Woman”, “The Double Day” e “Simplesmente Jenny”), obras que costuraram as dores e as conquistas das mulheres do século XIX até a efervescência daquela década. Não se tratava apenas de registrar o mundo, mas de forjar um “contracinema” que rasgasse o véu da submissão imposta pela mídia e pela tradição.
Em Ouro Preto, Helena reflete sobre a transição do rolo de película para a vertigem do digital. Há uma ironia fina em sua fala ao contrastar o rigor econômico do passado com a fartura contemporânea. Antigamente, o custo proibitivo do negativo exigia um foco cirúrgico. Hoje, filma-se sem cessar. O digital democratizou o acesso, mas, segundo ela, trouxe o risco da dispersão: “Deixa os montadores enlouquecidos porque tem coisa demais e foco de menos”, pontua com sabedoria. Para a cineasta, o extravio criativo faz parte do processo, desde que o realizador mantenha as janelas da alma abertas para ser transformado pelo próprio objeto de estudo.

A solidez de sua carreira revela-se camaleônica. Nos anos 1980, sua lente capturou as chagas das ditaduras latino-americanas. Na década seguinte, ao regressar ao Brasil, reinventou-se com “Carmen Miranda: Bananas Is My Business” (1995), amarrando memórias afetivas da própria infância a uma investigação rigorosa sobre o mito Carmen Miranda e a identidade nacional, filme exibido ao ar livre no Cine-Praça montado na Praça Tiradentes em Ouro Preto. Longe de se acomodar na nostalgia, Helena retornou ao combate feminista em 2017 com “Meu Corpo, Minha Vida”, abordando as trágicas linhas do aborto clandestino no Brasil, e reafirmou seu pacto ético em 2022 com “Uma Carta para Beatrice”.
A exibição de sua filmografia na 21ª CineOP – 2026 não é um mero acerto de contas com a história; é a constatação de que a identidade de uma nação pulsa nas sombras e luzes que Helena Solberg ousou projetar. Enquanto os aplausos ecoam em sua homenagem em Ouro Preto, fica nítido que seu cinema nunca foi um espelho passivo da realidade, mas um cinzel que esculpiu novos horizontes para as subjetividades reprimidas, transformando a tela em um permanente território de libertação.

Veja a cobertura completa da CineOP por Miguel Arcanjo
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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