★★★★ Crítica: Karaíba constrói reflexão sobre genocídio indígena e importância dos povos originários no Brasil

Karaíba é destaque no Festival de Curitiba com representatividade indígena © Annelize Tozetto Agência Daniel Sorrentino @dansorrel Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo 2023

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

ENVIADO ESPECIAL AO FESTIVAL DE CURITIBA*

★★★★ Karaíba
Avaliação: Muito Bom

Com Carolina Fayad

Produção teatral feita majoritariamente por uma equipe indígena, Karaíba fez duas sessões lotadas e fortemente aplaudidas no 31º Festival de Curitiba, no Teatro Sesc da Esquina, que comoveram os espectadores com a situação dos povos originários do Brasil.

A peça é uma adaptação do livro infanto-juvenil O Karaíba: Uma História do Pré-Brasil, do autor indígena Daniel Munduruku, que apresenta um novo ponto de vista, o do seu povo, para a narrativa histórica brasileira, na qual houve um genocídio terrível desta população, jamais reparado ou sequer devidamente contado nos livros de história.

Afinal, o que aprendemos desde pequenos é a narrativa do assassino e escravizador, o homem branco oriundo da Europa.

A peça idealizada por Juliana Gonçalves se passa antes de as caravelas chegarem em terras hoje chamadas de brasileiras, explicitando ao público quem realmente é o dono por direito deste território expropriado. E que estes donos eram diversos em suas inúmeras culturas, tribos e línguas.

Com os métodos do teatro épico-dialético brechtiano, com seus recursos musicais e, em alguns momentos excessivamente didáticos, a direção de Rafael Bacelar busca construir uma narrativa de resistência e de sobrevivência dos povos originários, ao contar a premonição de Karaíba.

Em seu sonho, o indígena vê sua terra sendo invadida por monstros que destruiriam toda a sua terra.

Logo, quem está na plateia percebe que os monstros da história são os invasores europeus, chamados de “descobridores” nos livros de História. Homens brancos que, no ato de colonizar, destruíram vidas e culturas pré-existentes para impor sua forma de enxergar o mundo e escravizar aqueles que não eram de sua etnia.

Karaíba emocionou o Festival de Curitiba com adaptação do livro de Daniel Muduruku © Annelize Tozetto Agência Daniel Sorrentino @dansorrel Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo 2023

Em consonância com a pluralidade deste ano no Festival de Curitiba, a representatividade indígena na peça é grande: das 27 pessoas que participam no palco e nos bastidores, 17 descendem de povos originários, algo infelizmente ainda raro no teatro brasileiro.

O elenco se construiu na Aldeia Maracanã, um território de resistência, universidade e movimento social indígena no Rio de Janeiro.Todos demonstram alta dose de entrega e de presença cênica no espetáculo: Danilo Canindé, Jéssyca Meyreles, Ludimila D’Angelis e Yumo Apurinã.

Este crítico só observa que um maior cuidado da direção com a prosódia dos talentosos artistas daria ainda mais nuances ao texto, o que o potencializaria ainda mais.

A direção consegue construir cenas de grande beleza estética, como a da narrativa das águas, na qual a iluminação de Lilian da Terra exerce papel fundamental, mas, nesta peça, o que mais importa realmente é a narrativa e a representatividade indígena cênica.

Ao evocar a ancestralidade dos povos originários e mostrar seu apagamento cotidiano nos últimos 523 anos de Brasil, o espetáculo Karaíba concede voz e palco a este povo tão suprimido do relato nacional e que até hoje sofre com violência, expropriação e genocídio.

Que trabalhos necessários como esse ajudem nosso país a modificar esta revoltante e cansativamente repetitiva realidade.

★★★★ Karaíba
Avaliação: Muito Bom

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Colaborou Carolina Fayad

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.

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Jornalista cultural influente e respeitado no Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo Pod. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra o júri de Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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