Brasileiro ‘exótico’ na peça argentina Fuck Me, Fred Raposo é destaque no Mirada 2022 e em Buenos Aires

Destaque na peça argentina Fuck Me, Fred Raposo é artista brasieliro em Buenos Aires, onde já trabalhou em séries da Amazon e Netflix – Foto: Instagram @raposo.fred – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Destaque na peça Fuck Me, de Marina Otero, Fred Raposo fala sobre ser artista brasileiro em Buenos Aires

ENVIADO ESPECIAL A SANTOS*

O ator, bailarino e clown cearense Fred Raposo é um dos destaques do espetáculo argentino Fuck Me, da bailarina, coreógrafa e diretora Marina Otero, um dos melhores espetáculos da programação do Mirada 2022, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc em Santos, litoral paulista.

Apresentada como autoficcção, a obra conta a história da diretora: uma bailarina que maltratou seu corpo em fortes coreografias e agora sofre fortes dores na coluna. Incapacitada, ela precisa criar um novo espetáculo com a ajuda de seis intérpretes, entre internações e cirurgias que lhe tiram a liberdade de movimentar-se em cena como gostaria. Neste contexto, Fred Otero é o bailarino brasileiro do grupo, apontado em cena como “exótico” e de “bom corpo”.

Vivendo há 12 anos em Buenos Aires, o artista conversou com exclusividade com o Blog do Arcanjo no Sesc Santos, na saída da aplaudida estreia de Fuck Me no Brasil.

Fred falou sobre o desafio de ser artista em terra estrangeira, os estereótipos e limitações que precisa enfrentar como um brasileiro vivendo na Argentina e ainda celebra poder circular o mundo com a peça, o que considera uma situação de privilégio dentro da classe artística.

Em uma conversa sincera, ele ainda aborda os preconceitos e estereótipos, sobretudo em relação a sotaques, lembrando que há um discurso sobre diversidade nas artes que muitas vezes não é colocado em prática nos castings da vida.

Leia com toda a calma do mundo.

Fred Raposo em Fuck Me, obra argentina que circula o mundo – Foto: Reprodução Instagram @raposo.fred – Blog do Arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Como é participar do Mirada 2022?
Fred Raposo –
É muito emocionante, porque depois que fui morar na Argentina é a primeira vez que atuo no meu país, falando meu idioma. Estar aqui é muito especial para mim.

Miguel Arcanjo Prado – Como você foi parar na Argentina?
Fred Raposo –
Na época em que comecei a estudar teatro em Fortaleza, quando pensei em ir para São Paulo, vi que o que gastaria em um mês em São Paulo me serviria para estudar 1 ano em Buenos Aires. Então, foi por questões econômicas que eu fui estudar em Buenos Aires.

Miguel Arcanjo Prado – E acabou ficando por lá?
Fred Raposo –
Foi isso mesmo, eu me formei primeiro como palhaço, depois como ator de teatro físico e, por fim, como bailarino. Vivo em Buenos Aires desde 2010, há 12 anos.

Miguel Arcanjo Prado – Como entrou para o elenco de Fuck Me?
Fred Raposo –
A Marina Otero, a diretora e autora, era muito amiga de uma pessoa que morava na minha casa. Então, ela fez um casting fechado, e eu acabei entrando.

Miguel Arcanjo Prado – Você tem 12 anos de Argentina. Como a sociedade e a classe artística argentina vê os artitas brasileiros?
Fred Raposo –
A verdade é que o meu tipo de trabalho é bastante limitado por causa do idioma. Eles têm um amor muito grande pela forma que o argentino fala o espanhol. Como tenho sotaque de um brasileiro, eu nunca pude trabalhar como ator que não fosse com personagem brasileiro. Em todas as peças que eu fiz, de algum modo, eu era brasileiro. Ou seja, eu nunca pude sair da minha identidade brasileira.

Miguel Arcanjo Prado – Como lida com isso?
Fred Raposo –
Eu já entendi que eu jamais vou fazer um papel de um argentino na Argentina. Essa limitação de algum modo é bastante frustrante como ator.

“Éxotico de bom corpo”: Fred Raposo na plateia de Fuck Me – Foto: Reprodução Instagram @raposo.fred – Blog do Arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Em Fuck Me há um texto que diz que você é o “exótico” e de “bom corpo” no elenco. E é também o bailarino que a personagem quer levar para a cama, o que é um esterótipo típico que os estrangeiros usam para os brasileiros. Como é isso para você?
Fred Raposo –
Esse exótico me serve também para trabalhar como brasileiro, ou seja, ao mesmo tempo que tem o lado negativo, também tem o lado de ser um cara que é um atrativo para alguma peça que me necessite.

Miguel Arcanjo Prado – Você falou dessa coisa do sotaque, que aqui também tem com artistas estrangeiros, o que considero uma besteira, afinal Buenos Aires e São Paulo são lugares cosmopolitas, feitos por imigrantes do mundo todo. Então, considero pobre associar um personagem apenas a uma nacionalidade. E teatro seria para ir além de um sotaque, não? Não está na hora de parar com esse preconceito com atores estrangeiros?
Fred Raposo –
Eu acho meio impossível, isso seria um ideia muito positiva, mas quando eu tento fazer um trabalho aqui no Brasil, eles também falam muito do meu sotaque do Nordeste. Quando eu fiz publicidade, e se faz muita publicidade brasileira na Argentina, sempre tive problemas, porque eles reclamavam do meu sotaque nordestino. Lá na Argentina, também há outros sotaques diferentes do portenho, que é o sotaque da cidade de Buenos Aires, e muitos atores que são de outras partes da Argentina também enfrentam esse mesmo problema. Ou seja, eu acho que tem alguma coisa dentro desse mainstream onde existe uma ideia de um “sotaque neutro”, que já escutei muito falar, tanto na Argentina quanto no Brasil, que seria um sotaque mais paulista ou carioca.

Miguel Arcanjo Prado – Esse sotaque “neutro” nada mais é que impor que artistas de outras regiões ou países repitam um sotaque das regiões mais ricas. O nome disso é colonização.
Fred Raposo –
Isso de impor um modo de falar realmente é algo que impede a pluralidade que o teatro e as artes dizem estar batalhando. Teoricamente, as pessoas das artes dizem lutar pela diversidade, mas na hora de um casting, você não fica com o personoagem por causa do seu sotaque. Não é uma contradição?

Teoricamente, as pessoas das artes dizem lutar pela diversidade, mas na hora de um casting, você não fica com o personoagem por causa do seu sotaque. Não é uma contradição?

Fred Raposo
ator e bailarino brasileiro radicado em Buenos Aires
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Buenos Aires, Argentina – Photo by Lucía Montenegro on Pexels.com – Blog do Arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Como é sua vida em Buenos Aires?
Fred Raposo –
A minha vida agora é uma vida que eu já estou bastante privilegiado. Estou em uma companhia que sai de turnê a cada mês e, por causa da turnê com a peça Fuck Me, eu não posso tomar outros trabalhos. Então, a minha vida é um parênteses entre turnê e turnê e a preparação para as turnês.

Miguel Arcanjo Prado – Que tipo de preparo?
Fred Raposo –
Eu invisto meu tempo para preparar o meu corpo, me cuidar, principalmente com RPG, acupuntura, fisioterapia, treinar dança. É isso, preparar para a próxima turnê, e a próxima a próxima e a próxima.

Miguel Arcanjo Prado – Qual é a sua Buenos Aires e o que recomenda a brasileiros que vão para lá?
Fred Raposo –
Se o brasileiro quer ver teatro, ele tem que ir para o bairro do Abasto, onde tem muitos teatros independentes. Se ele quer comer carne, tem que ir para Palermo. Se quer conhecer um pouco da vida cultural, San Telmo. Eu, como ator e teatrero que sou, recomendaria muito um brasileiro que lhe interessa o teatro procurar os teatros que estão pela zona do Abasto. Moro entre Palermo e Abasto, no meio termo.

Miguel Arcanjo Prado – O que você diria para um brasileiro que quer viver na Argentina, quais são os aspectos positivos e os negativos?
Fred Raposo –
O primeiro aspecto positivo é que, se você vem do Brasil com reais, você tem uma boa vantagem econômica no cambio. O aspecto negativo é que é um país que vive uma cultura inflacionária extremamente alta. Buenos Aires é uma cidade muito segura e muito cultural, mas a Argentina é um país extremamente instável com a questão econômica e inflacionária.

Miguel Arcanjo Prado – Você já fez trabalhos em televisão e cinema na Argentina?
Fred Raposo –
Sim, já eu fiz cinema independente com o Marco Berger, que trabalha muito questão da homossexualidade em seus filmes. Fiz com ele o filme Un Rubio [Um Loiro]. Fiz Netflix a série Monzón – Punhos Assassinos, e Amazon Prime, a série do Maradona, sempre atuando de brasileiro. Na série Maradona, fiz um taxista brasileiro. E em Monzón fui um pai de santo brasileiro.

Miguel Arcanjo Prado – Tem muito brasileiro em Buenos Aires?
Fred Raposo –
Tem mais gente estudando medicina. Com arte é muito pouco.

Miguel Arcanjo Prado – Voltando a Fuck Me, o espetáculo exige muito de vocês, com coreografias extenuantes e perigosas, que levam ao limite o corpo. Qual o tipo de preparo que fazem para não se machucarem igual à protagonista da história?
Fred Raposo –
Um pouco do preparo foi a Marina Otero quem cuidou muito da gente, onde as coreografias que ela fazia e que de algum modo se machucava, a gente durante o processo de ensaio trabalhou muito e se dedicou muitos dias para ver como tirar os mesmos movimentos sem se machucar. E a gente faz um aquecimento muito forte antes de entrar em cada peça. Fazemos um alongamento; depois, a nossa assistente direção é professora de yoga e faz um classe conosco. Ou seja, estamos muito bem cuidados nesse aspecto. Quando temos turnês longas, a companhia paga massagistas, osteopatia, acupuntura… É parte do nosso trabalho estar com o corpo apto e a companhia também cuida da gente.

Miguel Arcanjo Prado – E é verdade a história de Fuck Me?
Fred Raposo –
É a representação. Tem muita verdade, mas também tem muita representação.

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viaja a convite do Sesc São Paulo e Mirada 2022.

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Um dos mais influentes e respeitados jornalistas e críticos culturais do Brasil, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Foi eleito entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha, Prêmios ANCEC e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil.
Foto: Edson Lopes Jr.
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