Evita Open Air apresenta icônica 1ª dama da Argentina à juventude: ‘Ela foi julgada pelo machismo’, diz Myra Ruiz

A estrela Myra Ruiz e o astro Cleto Baccic como Evita e Peron no musical Evita Open Air no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Fotos ANNELIZE TOZETTO
@annelizetozetto

Evita Perón faz parte do imaginário não só da Argentina como de toda a América Latina, da qual ela foi a mais emblemática e poderosa mulher do século 20, com sua figura influenciando a política argentina até os dias atuais.

Maria Eva Duarte de Perón (1919-1952), atriz de origem humilde que chegou ao posto de primeira-dama mais aclamada da Argentina, ao lado do presidente Juan Domingos Perón (1895-1974), tem sua história contatada no primeiro grande musical a céu aberto do Brasil: Evita Open Air.

Evita Open Air recebe fortes aplausos do público no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

A superprodução tem estrutura de 8.500 metros quadrados no Parque Villa-Lobos, em São Paulo, onde cerca de 30 artistas sobem ao palco para hipnotizar a plateia de 1.600 pessoas no espetáculo dirigido pelo canadense John Stefaniuk e sob produção da Atelier de Cultura, sob comando de Carlos Cavalcanti, Cleto Baccic e Vinícius Munhoz. A obra fica em cartaz nos meses de julho e agosto, de quinta a domingo.

O público vive uma verdadeira experiência na mini-Argentina em que o espaço se transformou, com direito a uma ampla praça gastronômica onde é possível se deliciar com “bocaditos argentinos” como alfajor, papas fritas, empanadas e choripanes, além de degustar uma taça de vinho argentino antes ou depois do espetáculo.

Atriz que foi alçada ao topo da constelação de estrelas do teatro musical após seu alto desempenho como protagonista em Wicked (2016), Myra Ruiz dá vida à emblemática protagonista de Evita Open Air, mostrando exuberância e domínio do canto, da dança e da atuação, os três pilares do teatro musical.

Cleto Baccic e Myra Ruiz em Evita Open Air como Evita Perón e Juan Perón – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Em conversa exclusiva com o Blog do Arcanjo nos bastidores do espetáculo, entre a sessão vespertina e a noturna de domingo, a atriz demonstra consciência da importância que a personagem tem não só na história como em sua carreira de atriz.

“Ser Evita é uma honra muito grande. Ela foi uma mulher pioneira, que viveu em um mundo dominado por homens. Evita passou por muitas coisas na vida que um homem não passaria. Ela foi muito atacada por julgamentos e pelo machismo, que dominava na imprensa e na sociedade. Eu me identifico demais com ela, porque eu também, como mulher, ainda passo pelas mesmas coisas, sabe?”, pontua a atriz.

Myra recebe o bastão de outras grandes mulheres que já viveram a icônica personagem argentina, que morreu com apenas 33 anos, vítima de um trágico e precoce câncer. “Evita foi interpretada por grandes mulheres, como Madonna no cinema. Mas quis tirar o peso da Evita personagem, da megaestrutura, das músicas difíceis… Tudo isso sumiu e este trabalho se tornou muito mais sobre eu me conectar à história de uma mulher com a qual me identifico”, explica.

A estrela Myra Ruiz e o astro Cleto Baccic como Evita e Peron no musical Evita Open Air no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

É com essa visão que Myra Ruiz não se deixa intimidar pela gigante engrenagem ao seu redor, e busca manter viva a energia humana que move sua personagem, com a qual busca conexão real a cada instante. “Não estou imitando a Evita, não tenho traços e tudo mais semelhantes a ela. É sobre a minha relação com ela, minha real conexão com essa mulher. E sinto que, a partir desta verdade, o público se conecta também”.

Para esta construção verossímil, Myra contou com o apoio de seu diretor, o canadense John Stefaniuk. “Em nenhum momento ele falou para a gente aumentar os movimentos ou fazer tudo grande. Em nenhum momento sacrifiquei o interno para fazer movimentos que serão vistos à distância. Ele sempre focou em vir de dentro para fora, em manter a delicadeza da Evita. Apesar de ser uma megaestrutura, tornou-se um espaço aconchegante, é uma experiência imersiva para o público e para nós, artistas”.

Evita Open Air: Myra Ruiz é um deslumbre como a primeira-dama que marcou história da Argentina – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Por defender melhores direitos para as classes trabalhadoras no governo de Perón, Evita foi muito atacada pela imprensa argentina, que tinha discurso alinhado à elite de Buenos Aires, demonizando sua figura, espalhando que ela seria uma atriz sem talento e oportunista. Hábil oradora, Evita discursava para o povo, que mesmo diante dos fortes ataques e manipulações midiáticas, permaneceu a seu lado até o fim. Seu funeral, que abre o espetáculo, foi uma das maiores comoções públicas já vistas na história.

“Se Evita era santa ou não, não me cabe, como atriz, julgar. Eu só tenho que me conectar com ela”, reforça Myra Ruiz. “Olha, desde jovem, que fui vendo movimentos como o Mee Too, fui me descobrindo como mulher e que isso significa em nossa sociedade. E percebo a importância das que foram grandes e abriram caminhos. Então, quando olho para Evita, sei que não estou sozinha. Um homem não passaria pelas situações e ataques que Evita sofreu. E ver essa história e olhar para o lado mostra que não estamos mais sozinhas. Para mim, é inspirador poder reportar a história dessa mulher e ver tudo que ela viveu e deixou como legado”.

Myra Ruiz, Cleto Baccic e o coro em cena do musical Evita Open Air no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

E a Evita de Myra Ruiz cresce ainda mais porque tem dois colegas de cena altamente sintonizados com a história da personagem e conectados à atriz.

Cleto Baccic, produtor associado do espetáculo e ator que faz o par romântico e político de Evita, o presidente Juan Domingos Perón, afirma que esta sintonia começou logo no começo do processo criativo. “Desde a leitura de mesa, Myra e eu rapidamente defendemos nossos personagens, como um casal, marido e mulher, para além de toda aquela conjuntura política polarizada, como está até os dias de hoje, né?”, fala o ator.

Ele lembra que o casal Perón é cultuado até hoje na Argentina. “Tenho uma amiga psicoterapeuta, Cristine Peron, que se casou com um argentino e quando vai lá, e eles vêem o sobrenome dela no passaporte, ficam muito emocionados e sempre a tratam com carinho por conta deste sobrenome”.

A estrela Myra Ruiz e o astro Cleto Baccic como Evita e Peron no musical Evita Open Air no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Cleto lembra que o preparo foi árduo. “Fizemos muita pesquisa em conjunto, porque você vai para casa sofrer, né? Porque eu sou do tipo ator que sofre muito ao longo do processo. E este foi um processo muito intenso, em que fugimos do estereótipo. Claro que tem o arquétipo do estadista, mas busquei mostrar a fragilidade deste homem e, sobretudo, seu amor genuíno por Evita”, pontua o artista.

Cleto Baccic lembra que estar debaixo de sol e lua traz novas energias à montagem. “Estamos em um espetáculo a céu aberto, conectados com tudo, com o universo. A sessão da tarde, com o pôr do sol atrás do público, é uma coisa incrível, que me emociona profundamente”, confidencia.

A estrela Myra Ruiz e o astro Fernando Marianno como Evita e Che no musical Evita Open Air no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Fernando Marianno, que vive o narrador inspirado na figura do argentino Che Guevara, lembra que ficou próximo de Myra Ruiz quando fizeram o musical Mamma Mia (2010-2011). “Viajamos juntos na época com o elenco para Buenos Aires, em uma viagem inesquecível, e, uma década depois, a gente se reencontra na Argentina de Evita Open Air, nessas loucuras da vida”, conta o ator.

“A Myra é uma estrela. Ela me emociona de todas as maneiras. E não só como atriz, mas como ser humano. A gente está conseguindo trocar muito neste trabalho. A troca genuína é o primordial de tudo, porque se não tem troca real, não há jogo, não há espetáculo. E a Myra Ruiz faz isso de uma forma intensa e verdadeira, e o público sente”, elogia Fernando Marianno.

Fernando Marianno como Che em cena com o coro de Evita Open Air – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

“É uma ópera rock feita para uma soprano, um tenor e um barítono. Ver essas quase duas horas de espetáculo é realmente uma coisa impactante, que arrepia a alma da gente. Eu só tenho de elogiar esse trio de protagonistas”, elogia Carlos Cavalcanti, presidente da produtora Atelier de Cultura, responsável por Evita Open Air.

Evita (Myra Ruiz) e Perón (Cleto Baccic) no musical Evita Open Air – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

 “A Myra Ruiz é uma das melhores Evita da história. Ela canta muito, é um negócio arrepiante. O Baccic faz o contrapeso, é um Perón impecável, um presidente de um país. E ele é muito acolhedor nas cenas amorosas com a Evita, estão fazendo uma troca incrível”, define. “O Fernando Marianno é uma grande revelação como Che. Ele ‘jantou’ o processo de audição, no qual surpreendeu a todos nós e conquistou o personagem com muito talento. Ele está dono da situação”, elogia Carlos Cavalcanti.

“É um palco enorme e há algo excitante e emocionante em estar ao ar livre. Esta é uma Evita para a geração atual. Para esses jovens que já não têm uma noção clara de quem ela foi ou o que significou para as pessoas no seu tempo. Em Evita Open Air, Evita conversa com o feminismo do futuro, com o talento de Myra Ruiz e todo time de artistas trazendo a personagem para perto do público, que pode decidir por ele mesmo se ela foi ou não uma santa”, conclui o diretor John Stefaniuk.

Mãe dos descamisados: Myra Ruiz é a primeira-dama da Argentina Evita Perón no musical Evita Open Air no Parque Villa-Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

História do musical Evita

Estreado na Broadway em 1976, o musical Evita ganhou sua primeira versão no Brasil em 1983, com a cantora Claudya como Evita, Mauro Mendonça como Perón e Carlos Augusto Strazzer como Che Guevara, em montagem que rendeu um cultuado LP. Em 2011, houve outra versão assinada por Jorge Takla, com Paula Capovilla, como Evita, Daniel Boaventura, como Perón, e Fred Silveira, como Che Guevara. A nova versão Evita Open Air estreou em Londres em 2019 e chega ao Brasil em 2022 sob direção do canadense John Stefaniuk com Myra Ruiz como Evita, Cleto Baccic como Perón e Fernando Marianno como Che Guevara.

Evita em 1983, com Claudya e Mauro Mendonça, e em 2011 com Daniel Boaventura, Paula Capovilla e Fred Silveira – Foto: Divulgação Arquivo Blog do Arcanjo
Cena do musical Evita Open Air no Parque Villa Lobos – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

Evita Open Air
Onde: Parque Villa-Lobos – Entrada pelo portão Cândido Portinari (Av. Queiroz Filho, 1365 – Alto de Pinheiros, São Paulo – SP) Obs.: A localização da megaestrutura já está disponível nos principais aplicativos de deslocamento como Waze, Google Maps, Uber e 99 digitando “Evita Open Air” na busca
Quando: Quinta-feira, às 20h00, sexta-feira às 20h00, sábado, às 15h00 e às 19h30 e domingo, às 15h00 e às 19h30, até o fim de agosto
Quanto: R$50,00 a R$300,00. À venda pelo site oficial – Bilheteria física: Instituto Artium – Rua Piauí, 874 – Higienópolis (de quarta a sexta entre 12h e 18h. sábados e domingos entre 10h e 18h)

Retire seu ingresso para Evita Open Air!

Leia mais sobre Evita Open Air

Cena do musical Evita Open Air com Belle Rodrigues, a pequena Evita, e Fernando Marianno, o Che – Foto: Annelize Tozetto – Blog do Arcanjo

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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