‘O Brasil é um país neurótico e psicótico’, diz Lufe Steffen, referência em cinema LGBT+ | Entrevista do Arcanjo na CineOP

O cineasta Lufe Steffen, do filme São Paulo em Hi-Fi na 17ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção/Divulgação – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

ENVIADO ESPECIAL A OURO PRETO – Referência no cinema LGBT+, o cineasta Lufe Steffen participou da 17ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto com seu aclamado filme São Paulo em Hi-Fi, que registra a história da noite gay em São Paulo nas décadas de 1970 e 1980. Às vésperas do Dia Internacional do Orgulho LGBT+, celebrado nesta terça, 28 de junho, o longa foi apresentado com sucesso no último sábado, 25, na cidade histórica mineira. “O festival fala de memória e preservação, e fomos convidados justamente pelo filme fazer isso, preservar a memória e a cultura LGBT+”, diz o diretor em entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo. A CineOP exibiu gratuitamente 151 filmes de oito países de 22 a 27 de junho de 2022.

O artista ainda participou de um debate no domingo, 26, que falou da importância da preservação de uma memória audiovisual de grupos como LGBTQIA+, indígenas e negros. “Quando pesquisamos, percebemos que as coisas são muito sucateadas no Brasil. Para pesquisa e preservação da memória é preciso de recursos”, fala.

Lufe conta que a primeira versão de São Paulo em Hi-Fi foi finalizada em 2013. Depois, montou novamente o filme, com mais imagens de arquivos, para a versão lançada em 2016 e que foi apresentada na CineOP. “Fico honrado de o filme ser valorizado reconhecido como material importante de memória, estou bem feliz em trazer São Paulo em Hi-Fi para o festival e ter toda essa acolhida”, celebra.

Lufe Steffen com a icônica drag Silvetty Montilla no lançamento do filme São Paulo em Hi-Fi em 2016 no CineSesc – Foto: Arquivo Blog do Arcanjo

O cineasta havia produzido antes o filme A Volta da Pauliceia Desvairada, um registro da noite LGBT+ paulistana de dez anos atrás. “Naquele momento, 2012, o filme funcionava como um flash, um retrato do que estava acontecendo. Agora, passou a ser visto com um outro olhar, dez anos depois já se tornou um filme histórico”, conta.

Lufe ainda produziu em 2017 a websérie Memórias da Diversidade Sexual, em parceria com o Museu da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, “que atualmente também está numa fase um tanto quanto complicada, parece que o negócio está difícil”, ressalta. Os vídeos estão disponíveis no YouTube.

“Coletamos depoimentos de pessoas LGBT+ de 60 anos para cima antes que essas pessoas partam, porque é justamente isso que a gente quer: as memórias, as lembranças de quem viveu,  porque depois que a pessoa morre não é mais possível ter um material assim. A gente, por exemplo, entrevistou Miss Biá, que veio a falecer em 2020 no auge da pandemia”, revela.

Cena do filme São Paulo em Hi-Fi: documentário mostra glamour da noite gay em SP nas décadas de 1970 e 1980 – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

O cineasta ainda é autor do livro O Cinema que Ousa Dizer Seu Nome (Giostri Editora), justamente sobre o recorte audiovisual LGBTQIA+. “É uma coletânea de entrevistas que eu fiz com diretores de cinema brasileiros que fazem filmes sobre LGBTs. E esse livro deu origem à série Cinema Diversidade, que originalmente foi exibida no canal Prime Box Brasil”, conta.

Lufe diz que deseja criar novos trabalhos na temática: “ainda não sei exatamente o quê”. Contudo, adianta que está “aguardando recursos” para transformar o décimo episódio da série, com cineastas veteranos de filmes LGBTs do século 20, no longa Cinema Intruso.

Sobre sua alta verve documentarista, confidencia: “Gosto de pesquisar acervos domésticos, familiares, jornais, revistas. Eu sempre tive essa coisa meio arqueológica”.

O cineasta Lufe Steffen, do filme São Paulo em Hi-Fi na 17ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção/Divulgação – Blog do Arcanjo

Parada LGBT+

Lufe Steffen foi a quase todas as Paradas LGBT+ de São Paulo, “menos na “primeira, na segunda e esta última de 2022”. E pontua: “De 1999 a 2019, fui em todas as Paradas”.

Para o cineasta, é preciso que o evento, que bateu recorde de 4 milhões de pessoas neste ano, seja diverso. “As pessoas criticam a Parada, falam que é um Carnaval na rua, que as pessoas são loucas, drogadas, põem o peito para fora… Nada disso para mim é importante, porque acho que essas coisas fazem parte de um evento de afirmação. Não é para ser um evento sisudo e apenas político. Claro que tem a política também. Sempre tem as pessoas que se manifestam cartazes mais politizados, tem faixa… Mas o Carnaval faz parte, as pessoas precisam disso”, afirma.

E ele faria um documentário sobre a história da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo? “Eu não sei se eu faria, porque é um evento muito macro para dar conta. Muita gente já fez e está fazendo, né, tem curta… Acho que seria muito, eu não saberia como fazer sem ter um recorte… Só se fosse drags na Parada, alguma coisa assim, porque a Parada em si é tão gigantesca que você teria de fazer uma série em 20 episódios para dar conta de tudo, porque, senão, imagina quanta coisa iria ficar de fora?”, questiona.

26ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo

Para Lufe Steffen, um filme sobre a Parada precisaria “ao mesmo tempo que fosse uma homenagem à Parada, também fosse crítico a ela”. E explica: “Porque nada é perfeito. Acho que a Parada tem que existir, mas isso não quer dizer que a gente não tem que continuar criticando construtivamente, para que se torne um evento sempre melhor e mais abrangente, mais inclusivo”.

E segue seu pensamento: “Para fazer algo superficial, eu prefiro deixar para quem tem mais tesão de fazer isso. A não ser que fizesse uma coisa completamente pessoal, tipo minhas aventuras na Parada, mas não sei se isso é relevante. Então, eu não faria, mas acho bom que alguém faça, porque tem mais é que documentar mesmo, porque o país com toda essa intolerância e lgbtfobia tem a maior Parada LGBT+ do mundo. É paradoxal, igual ao fato de ser o país que mais mata pessoas trans e também mais busca vídeos com travestis em sites de sexo. O Brasil mata o que ama, mata o que odeia, até porque amor e ódio estão ali juntinhos. O Brasil é um país neurótico e psicótico”, define.

O cineasta Lufe Steffen, do filme São Paulo em Hi-Fi na 17ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção/Divulgação – Blog do Arcanjo

*O Blog do Arcanjo viajou a convite da CineOP. Colaborou David Godoi.

Veja cobertura completa do Blog do Arcanjo na CineOP

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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