Crítica | A Pane revela meandros da Justiça com direção elegante e elenco talentoso

Espetáculo A Pane faz últimas sessões no Teatro Faap e descortina bastidores da Justiça com inteligência – Foto: Ronaldo Gutierrez – Blog do Arcanjo

A Pane
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado

A Justiça é cega. A frase permite interpretações que balançam feito um pêndulo. Mas, talvez, a mais acertada delas, arrisca este crítico, talvez seja a de que a Justiça, enquanto sistema, é feita para privilegiar narrativas de poder.

E esse balançar de quem é culpado ou inocente depende muito dos desejos de quem interpreta o que é o certo e o errado. Para ter tal controle, o domínio das leis e do sistema é fundamental.

Todas estas questões filosóficas e éticas, que estão intrinsecamente ligadas ao conceito de Justiça, passam pela cabeça de espectadores inteligentes diante da peça A Pane, texto do suíço Friedrich Dürrenmatt, nome fundamental do teatro épico fortemente influenciado pelos descaminhos humanos que levaram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A obra ganha elegante encenação de Malú Bazán, diretora segura da cena e do que deseja passar a seu público, com texto sob tradução de Diego Viana, em produção da Baccan Produções com coprodução da Kavaná, programada por Claudia Hamra no Teatro Faap até este domingo, 12 de junho.

Aliás, ver uma das últimas sessões deste espetáculo pode ser uma interessante saída de fim de semana do Dia dos Namorados.

O prólogo do espetáculo é uma ode à boa e velha dramaturgia em tempos de teatro feito para o próprio umbigo de artistas narcisistas, numa espécie de conclamação à retomada de um palco realmente desejoso de comunicar algo que importe à humanidade, para além do estritamente pessoal. Algo que seja, de fato, universal. Em A Pane, isso acontece, com a peça esmiuçando de forma irônica os bastidores da Justiça.

No espelho que o palco propõe, é possível que o espectador se reconheça em determinados momentos e que também rechace o que vê, no que o teatro cumpre sua função mais nobre.

Em um país que vê sua Justiça chacoalhar nos últimos anos, nos quais o poder judiciário obteve protagonismo inquestionável na vida pública da Nação, este espetáculo faz ainda mais sentido, tornando-se ainda mais fundamental e até mesmo obrigatório.

Nesta tragicomédia repleta de ares fantásticos, o que em nossa América Latina é o nosso próprio realismo (o realismo fantástico ,ao qual somos mergulhados cotidianamente), o público vive a angústia de testemunhar a manipulação da verdade e da criação de uma fictícia Justiça ao bel prazer de quem está no poder, em um jogo repleto de cinismo.

Elenco talentoso

No elenco talentoso, Cesar Baccan dá vida ao perdido homem cotidiano, que ascendeu socialmente e que se depara com as artimanhas do velho poder. O ator imprime o ar atônito que seu personagem pede, manipulado por hábeis oratórias.

Um time de peso constrói estes personagens do antigo e quase eterno, velhos homens da Justiça já aposentados, mas que seguem sua brincadeira de Tribunal, agora sob forma de farsa, ou seria realidade?

Interpretam o quarteto da Velha Justiça atores renomados e com farto caminho de tablado, nomes que merecem ser vistos e aplaudidos, exalando vigor e satisfação de estarem em cena com ótimos personagens: Antonio Petrin, Heitor Goldflus, Owaldo Mendes — que brilha de forma especial, completamente à vontade no jogo teatral — e Roberto Ascar.

Completa o time Marcelo Ullmann, responsável pelo já dito e tão potente prólogo e que permanece à espreita da cena, inclusive em muitos momentos dando a letra da mesma, em uma bela homenagem da direção de Malú Bazán à figura do antigo ponto.

É preciso ressaltar a concepção cenográfica de Anne Cerutti em parceria com a diretora. Colocando os personagens em um grande tabuleiro de xadrez, reforçam a ideia do jogo da Justiça. Anne também assina os elegantes figurinos, que fazem com que o elenco brilhe ainda mais, acrescido do delicado visagismo de Dhiego Durso.

Wagner Pinto cria uma atmosfera ora soturna ora vivaz com sua luz, que vai inebriando o público juntamente do desenrolar da farsa jurídica.

A Pane mostra Malú Bazán como uma diretora segura e elegante, capaz de conduzir seu elenco com generosidade e apostando todas suas fichas no jogo teatral entre seus atores, sem, contudo, se descuidar do envelopar estético e do sentido político de uma obra de fino acabamento como esta.

Corra pra ver enquanto é tempo!

A Pane
✪✪✪✪

Crítica por Miguel Arcanjo Prado: Muito Bom
Temporada: de 06 de maio a 12 de junho de 2022.
Dias e horários: Sextas-feiras às 21h; sábados, às 20h; domingos, às 18h.
Onde: Teatro Faap – Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo
Classificação etária: 14 anos
Duração: 70 minutos
Ingressos: Sábados e domingos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada); Sextas: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).
Televendas: 11 3662-7233; 11 3662-7234
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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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