Marília Mendonça: O Brasil que não conhece o Brasil

Por IVY FARIAS*
Especial para o Blog do Arcanjo

Em 2007 meu então editor Mark Tawill se “revoltou” comigo. Minha ideia era fazer uma matéria pro Estadão sobre pessoas que não conheciam artistas famosos.

— Não faça esta matéria porque você também não conhece o goleiro do Santos.

Só que eu conhecia — daí a “revolta”. Mas ele tinha razão e não fizemos a matéria ao entender que tudo bem não conhecer.

O Brasil tem orgulho de sua ignorância. Vemos isso com a morte de grandes artistas, sucessos absolutos em seus segmentos, ilustres desconhecidos para os demais. Como acontece, pseudo intelectuais falam que não conheciam.

Digo isso pois, quando morreu Paulo Autran, a então namorada do meu irmão caçula falou que não o conhecia. Assim, sem orgulho ou vergonha: apenas admitia o desconhecimento sobre um dos maiores atores do país (talvez pela pouca idade).

Não há nada de errado em não conhecer, mas é vil usar argumentos pessoais para tanto. Foi isso o que a Folha de S. Paulo fez neste sábado: ao invés de informar quem era a ilustre desconhecida [só se for para o jornal, pois era a artista brasileira mais executada dos últimos anos], o jornal prefere afirmar que Marilia Mendonça nunca conheceu o fracasso, apesar de cantar mal e, ainda segundo a publicação, nem bonita era, pois, “gordinha”, brigava com a balança [reproduzindo palavras do colunista e historiador Gustavo Alonso em seu obituário para Marília Mendonça publicado na edição impressa da Folha de S.Paulo de sábado, 6 de novembro]

É nítido o recado: aqui, do nosso pedestal, desconhecemos esta moça e você, nobre leitor, também não tem que conhecê-la pois, além de brega/pobre, ela era feia, gorda e cantava mal. É uma justificativa para acalmar este país “intelectualizado” que diz ouvir Nelson Freire e se recusa a escutar Marilia Mendonça. Mas, enquanto o primeiro de cujus tocava piano em belas salas de teatros nas grandes cidades, a segunda empunhava um violão no meio da lama dos rodeios nos rincões do país.

O que é melhor para este jornal e para esta elite do atraso é lucrar com o desconhecimento e, por meio de um texto, fazer um mea culpa (“ela cantava mal”).

Só que, ao fazer isso, o Brasil se automutila. Eu não gostava da Marilia Mendonça e, inclusive, já a critiquei nas minhas lives. Mas eu morria de orgulho dela! Uma brasileira que quebrou recordes mundiais, que mostrou pro planeta o que a goiana tem! Uma cantora inteligente, que soube fazer do limão a sua limonada. Brava Marilia!

E isso o Brasil medíocre não entende: não gostar não precisa ser não conhecer. Eu também não gosto musicalmente da Anitta mas vibro com cada conquista dela. De São Gonçalo, ela hoje canta com a Madonna. Isso é lindo demais.

Tenho orgulho da Rayssa, nossa fadinha do skate. Da Rebecca. Da menina Alice. E da Maria Helena Pessoa de Queiroz, que vende álbuns para a Lauren St Domingo e o crème de la crème da moda internacional.

São brasileiras gigantes, indo cada vez mais longe. Cada uma na sua onda, todas levantam a bandeira do Brasil como o Senna fazia. Mas tem gente que não vê desta forma. Pior: pra justificar esta ausência de patriotismo — pra dizer o mínimo — fala mal com predicados extremamente preconceituosos como “lutava contra a balança”, como se demérito fosse.

Demérito é odiar o Brasil e repudiar as mulheres. Fazer isso enquanto o País, comovido, vela uma delas é repugnante.

O texto da Folha foi publicado quando o corpo da cantora estava em um caixão e centenas de pessoas choravam por isso. Nem vou entrar no mérito de que era uma jovem de 26 anos que deixou um bebê de um aninho, mãe e avó idosas. Nem dos estrondosos feitos dela. Vou apenas falar de Marília, uma brasileira, que nem durante o seu velório recebeu respeito.

Isso é desumano e, jornalisticamente, antiético e nada profissional.

Mas é o retrato fiel do Brasil que desconhece a si mesmo e odeia mulheres.

Ivy Farias é formada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Passou por Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Editora Abril, Editora Carta Capital, Editora Trip e de revistas customizadas como da Escola Paulista de Magistratura. Foi correspondente internacional em Nova York, Paris e Genebra. Autora de livros jurídicos, infantis é professora de oratória, escrita criativa e voluntária de ações para promoção da igualdade de gênero e direito dos animais.

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Um dos jornalistas culturais mais respeitados do Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo PodFoi eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se por três vezes. Recebeu a Medalha Mário de Andrade, maior honraria nas letras do Governo do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. É presidente do júri do Prêmio Arcanjo e integra o júri do Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Guia da Folha, e Canal Brasil de Curtas. Recebeu ainda o Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil e Prêmio Leda Maria Martins.
Foto: Edson Lopes Jr.
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