Luca é jornada de menino gay em busca de aceitação? | Por Leandro Fazolla

Por LEANDRO FAZOLLA
@leofazolla


Desde que iniciou sua parceria com a Disney, os estúdios Pixar brindaram o público com grandes animações. Se em 1995, Toy Story chamou a atenção como o primeiro filme da história do cinema a ter sido compilado inteiramente por ferramentas de computação gráfica, na última década, a Pixar mostrou que essa complexidade poderia ir muito além da arte em si e começou a ofertar aos espectadores enredos que, mirando principalmente o público infantojuvenil, tratam de temas densos como psique e depressão (Divertidamente), novas constituições familiares (Os Incríveis 2), luto (Viva, a Vida É uma Festa) e até mesmo vida após a morte (no recente Soul).

Ainda que invariavelmente o estúdio também entregue animações mais simples, esta trajetória faz com que os espectadores já assistam seus longas predispostos a destrinchar suas primeiras camadas em busca de algo mais profundo. E é exatamente este mergulho que tem feito com que parte do público considere o novo lançamento do estúdio, Luca, como um filme que trata de questões LGBTQIA+.

O filme narra a história do personagem título, um monstro marinho entre a infância e a adolescência. Como todos de sua espécie, quando está seco, Luca se transforma e aparenta ser um humano comum. Os humanos, porém, têm medo dos monstros marinhos, alimentam histórias sobre sua espécie (em sua maioria, “fakenews”) e estão dispostos a caçar qualquer um que coloque os pés – ou as barbatanas – na vila.

Junto ao recém conhecido Alberto, outro monstrinho como ele, Luca resolve desvendar o mundo humano, a despeito dos perigos que isto possa representar. Que fique claro que não há nada explícito no filme que possa denotar qualquer relação amorosa entre os personagens.

Há, sim, ciúme entre eles e demonstrações de carinho como abraços e outros toques que podem causar estranheza, uma vez que manifestações de afeto entre dois meninos são amplamente reprimidas por nosso cis-tema de masculinidade frágil e tóxica. Esses momentos são principalmente trazidos pela direção, que enfatiza olhares e abraços entre eles no enquadramento das cenas.

Mas o roteiro em si é o maior responsável pelas interpretações que têm sido feitas, uma vez que em suas jornadas, os monstrinhos vivenciam conflitos comuns a jovens LGBTQIA+. Se Luca opta por fugir de casa porque seus pais querem superprotegê-lo e afastá-lo da “má influência” de Alberto; este, por sua vez, teve que aprender a se virar sozinho após a rejeição do próprio pai.

Aparentemente opostos, rejeição e superproteção são temas facilmente encontrados em famílias que não sabem lidar com a sexualidade de seus filhos. Frases emblemáticas também chamam atenção, como “você me fez sair da torre”, em que a torre em que Alberto vive solitário poderia facilmente ser vista como uma metáfora para o “armário” ou, ainda, o diálogo final entre a mãe e a avó de Luca.

Enquanto a primeira segue querendo superproteger o filho, a avó do menino monstro (que durante todo o filme se mostra muito mais aberta do que seus pais) rebate: “algumas pessoas não irão aceitá-lo. Mas outras vão. E parece que ele sabe encontrar as pessoas boas”. A tudo isso soma-se a escolha por lançar o filme (diretamente na plataforma de streaming Disney+) em junho, mês no qual se celebra internacionalmente o orgulho LGBTQIA+.

Já há algum tempo, as produções voltadas para o público infanto-juvenil têm buscado diferentes formas de tocar nas temáticas de gênero e sexualidade, como pôde ser visto no espetáculo paulista O Príncipe Desencantado, sobre um príncipe empurrado a buscar uma princesa para se casar, quando, na verdade, encontra em um plebeu seu grande amor; ou nos livros Maya – Bebê Arco-Íris, de Xuxa Meneghel, e Meus Dois Pais, de Walcyr Carrasco.

Em movimento análogo, a Disney vem de maneira sutil inserindo personagens LGBTQIA+ em suas tramas, como é o caso do Lefou do live-action de A Bela e a Fera, o Artie de Cruella e até mesmo o protagonista do curta metragem Out, produção recente da Pixar que trata do medo de um jovem gay de sair do armário para seus pais.

Apesar desse movimento, seria ingênuo crer que o estúdio tocaria de maneira escancarada em tema ainda visto como delicado para um público mais amplo como o atingido pelos longas de animação da Pixar. Assim, apesar de Luca poder ser facilmente interpretado como a jornada de um menino gay em busca de aceitação, quem quiser nadar no raso pode, sim, encarar essa história como a jornada de um menino monstro em busca de aceitação.

Ambas as possibilidades entregam um filme delicado, de enredo bem construído e divertido, que promete agradar crianças e adultos e tocar no tema do preconceito de forma mais ampla, o que por si só já é de grande importância.

Obras de arte são abertas e permitem as mais diversas interpretações, algumas inclusive inimagináveis por parte de seus próprios autores. Para o espectador que quiser um mergulho mais profundo nas possibilidades do longa, é bom saber que pode encontrar ali um lugar para crianças e adolescentes que começam a questionar as próprias diferenças.

De uma forma que talvez só eles possam compreender, é um alento ver a si e alguns de seus próprios conflitos representados. E o mais importante, com direito a um final feliz. Já os adultos que, como eu, encontraram no filme a história que não viram na infância, estes são capazes de jurar que a própria imaginação completa os últimos segundos do longa. Quando a chuva passa e a câmera começa a apontar para o sol saindo por entre as nuvens, não há ninguém que me convença que não se forma ali um arco-íris.

Leandro Fazolla – Foto: Higor Nery – Blog do Arcanjo

*Leandro Fazolla é ator, produtor cultural e crítico de arte. Doutorando em Artes Cênicas (Unirio), mestre em Arte e Cultura contemporânea (UERJ), pós-graduado em História do Teatro Brasileiro e Ocidental (CAL) e bacharel em História da Arte (UERJ). Morador da Baixada Fluminense, região periférica do Rio de Janeiro. Cofundador da Cia Cerne e realizador do projeto Cadernos Cênicos, em seu canal no YouTube.
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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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