Sandra Pêra canta Belchior para rejuvenescer em segundo disco solo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Pelo jeito Belchior está mesmo com tudo. Além do já anunciado disco-tributo de Ana Cañas, o cantor e compositor cearense ganha um outro álbum dedicado à sua potente obra, dessa vez gravado por uma das cantoras mais importante da música pop nacional: a eterna frenética Sandra Pêra, também atriz respeitada de nossos palcos.

Sandra Pêra em Belchior é o segundo álbum solo da artista, o primeiro foi o LP de 1982, que saiu após o fim das Frenéticas. O disco novo é lançado pela Biscoito Fino e conta com participações ilustres, como a de Ney Matogrosso em Velha Roupa Colorida. A direção musical é de José Milton e Amora Pêra, filha de Sandra com o cantor e compositor Gonzaguinha.

Foi ouvindo Fagner cantar Jacuripe que Sandra resolveu gravar a obra de Belchior. “Naquele momento eu não tinha ideia de que o Belchior estava sendo redescoberto”, confessa.

“Quando estávamos em estúdio, Amora me perguntou se eu tinha ouvido a versão do Emicida para Sujeito de Sorte. Só fui ouvir no final do ano, quando assisti o filme Amarelo, coisa linda! Levei um susto, porque tivemos a mesma ideia. Além da versão que abre o disco, fiz uma segunda com vários convidados cantando, como a população cantando junto esse grito de esperança, algo assim”, explica, ao Blog do Arcanjo.

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Medo de avião

Sandra aproveita o papo para contar uma história vivida com Belchior. Em 1977, num voo para Fortaleza com as Frenéticas, o artista cearense sentou-se na poltrona ao lado. “Lembro que era meu aniversário, conversamos e eu contei que morria de medo de avião. As tantas rolou uma turbulência forte e ele me disse: ‘Fiz Medo de Avião pra você’, o que eu levei como brincadeira, claro, porque a música já existia. Um ano depois ele nos convidou para participar da gravação da música Corpos Terrestres, do disco Todos os Sentidos, falando em latim”, lembra.

E segue o fio da memória. Anos depois, Sandra foi surpreendida durante um programa de Silvia Poppovic, com a afirmação de que Belchior havia feito Medo de Avião para ela, episódio que se repetiria em muitas outras ocasiões. “Eu sempre desmentia. Ele contava isso para algumas pessoas. Talvez tenha sabido do meu medo e dessa história fez a música, não em minha homenagem, mas vai saber?”, deixa no ar.

Velha Roupa Colorida

Além de Ney Matogrosso, o disco ainda tem Zeca Baleiro, Chicas e Juliana Linhares. “Meus convidados, além da admiração, tem uma proximidade. Morei com o Ney no começo das Frenéticas, eu, a Regina Chaves e a Lidoka. Tudo a ver cantar com ele Velha Roupa Colorida e por sugestão do Ney, fizemos um final suave, diferente do que o arranjo sugere.

“Com Zeca Baleiro trabalhei em um grande espetáculo do Ivaldo Bertazzo, Mãe Gentil, um projeto de dança com crianças da periferia de São Paulo e da Maré, no Rio. Ele prontamente aceitou o convite e escolheu Na Hora do Almoço pra cantar comigo. Ter as Chicas no disco é motivo de alegria profissional e materna. Sou louca por elas: além da Amora Pêra, Paula Leal e Isadora Medella são um pouco minhas filhas, também. Fizeram um arranjo vocal muito bacana para a faixa Pequeno Mapa do Tempo e arrasam nos vocais de Todo Sujo de Baton”, conta.

Na faixa Galos, Noites e Quintais, Sandra Pêra faz dueto com Juliana Linhares. “Foi uma sugestão da Amora. Juliana é do grupo Pietá, é atriz e cantora do Rio Grande do Norte e está no Rio de Janeiro há algum tempo. É uma jovem voz nordestina, cheia de beleza e poder. Sem falar dos músicos incríveis”. 

Para A Palo Seco, primeiro single do álbum, o pianista e arranjador Cristóvão Bastos criou um arranjo que reforça a conexão da obra de Belchior com sonoridades da América Latina. “De repente surgiu na minha frente esse arranjo maravilhoso, com o bandoneon do Walter Rios, que é de uma delicadeza, de uma precisão incríveis”, elogia.

Cristóvão Bastos, Eduardo Souto Neto, Camila Dias, João Lyra, Jessé Sadoc se revezam nos arranjos (também no piano, violão e trompete).  Sandra Pêra destaca ainda a parceria com os produtores. “Foi importantíssimo pra mim trabalhar com José Milton e Amora Pêra nesse disco. Ele com seu vasto conhecimento e delicadeza e ela com sua fome de saber e já com muitas certezas. Me senti totalmente segura e amparada, trabalhando com rigor e leveza ao lado dessa dupla de produtores. Olha, por mim, não sairia do estúdio nunca mais, ficaria ali cantando, cantando…..”

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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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