‘Nunca soube dar menos que tudo’, diz Wander B. nos 20 anos de carreira

Por Miguel Arcanjo Prado

O ator, diretor, performer e dramaturgo Wander B. completa 20 anos de trajetória artística com a peça O Inferno É Um Espelho da Borda Laranja, que estreia nesta quarta, 13, na SP Escola de Teatro Digital, com seis sessões em temporada às quartas e quintas, às 20h. Os ingressos já podem ser retirados na Sympla. A obra mostra uma pessoa insone que encontra seu inferno particular.

Eles e define como “um corpo artístico em movimento”, que transita por teatro, cinema, performance art, música e literatura. “Tudo se funde e se confunde ao longo de uma história de arte que começa ainda na infância, mas se assume como projeto de vida quando, em dezembro de 2001, avisto uns panos cafonas em uma loja de departamentos, crio um parangolé improvisado, e decido fazer sua primeira performance”, lembra.

Aquele ato público deu início à carreira artística de Wander B., que começou “nas ruas, nas praças e nos coretos de Barra Bonita, no interior de São Paulo”, sua cidade natal, e, segundo o multiartista, “segue pulsando hoje, duas décadas depois, em qualquer canto onde se possa aventar as pulsações vibrantes do desejo de liberdade — que é tamanho!”.

Wander B. conversou com exclusividade com o Blog do Arcanjo sobre sua obra comemorativa das duas décadas de carreira e ainda promete lançar dois livros ainda neste ano. Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Do que trata O Inferno É um Espelho da Borda Laranja? Quais são as principais referências que buscou na construção da obra?
Wander B. –
A situação que está posta em O Inferno É Um Espelho da Borda Laranja é esta: uma pessoa que não dorme dentro de uma noite sem fim. É a partir dessa situação que os temas começam a emergir: questões de muita intimidade, questões do eu, se misturam com questões políticas e sociais. “O tempo pinga gotas de ansiolítico embaixo da língua do mundo: um mundo inteiro dopado com segundos que já não fazem efeito em mim”, diz a personagem em um momento de identificação do seu corpo com o corpo do planeta. É uma frase que sintetiza essa amálgama entre o público e o privado diante do vazio, diante desse espelho que é um inferno. As maiores referências para a dramaturgia são Beckett, Sartre e Clarice Lispector, que visitam esse tipo de universo onde o nada é o caminho para se discutir tudo. Já a atuação e a encenação bebem de uma linhagem do teatro brasileiro que considero a minha grande escola, estou falando de Antônio Abujamra, a quem evoco repetidas vezes na peça, e Denise Stoklos, minha mestra no Teatro Essencial – ouso dizer que essa é, sim, uma peça do Teatro Essencial: do mesmo modo que existe um jeito de pensar o fazer teatral a partir de Brecht, existe um jeito de pensar o fazer teatral a partir de Denise: essa é a minha busca!

Miguel Arcanjo Prado – Você comemora 20 anos de carreira com este projeto? Como é completar duas décadas de dedicação às artes?
Wander B. –
Existem artistas que amo de paixão que não contam seus anos de carreira: acham isso bobagem pura! Eu me divirto com essa ideia de não dar a mínima pro tempo de carreira, mas não consigo fazer o mesmo, não posso me dar a esse luxo [risos]. Saber e tornar público o tanto de tempo que estou na arte é necessário e significante dentro da minha história. Eu, daqui, não ligo pro meu aniversário, não ligo pra datas festivas do calendário, sinto tédio diante do natal e do ano novo… Mas o meu tempo de carreira, isso eu gosto de pontuar sempre: cada ano a mais significa que estou de pé dentro do ringue que escolhi pra mim. Cada pessoa sabe de suas batalhas, eu conheço bem as minhas: eu sei quais as lutas eu escolhi lutar até agora. Essa luta, a minha luta na arte, não é uma luta de se vencer por nocaute – eu não sou de vencer por nocaute, quando eu venço é por pontos: e pra quem vence por pontos cada segundo em pé dentro do ringue é muito importante. Quantos segundos cabem em 20 anos? Esse é o tamanho da minha força, da minha alegria, do meu entusiasmo, da minha resistência (essa palavra antiga e gasta…).

Miguel Arcanjo Prado – Como lida com este momento tão delicado para os artistas por conta da pandemia?
Wander B. –
Lido com muita delicadeza comigo, com colegas e com as pessoas que trabalham comigo. O que estamos vivendo não é pouca coisa: é um vírus letal dentro de um cenário político caótico – não só no Brasil: vejamos os EUA! E de repente, nós, artistas de palco, ficamos sem trabalho e precisando de soluções para nos mantermos, para fazermos as nossas artes e pagarmos as nossas contas – essa é uma questão: precisamos pagar as nossas contas! É por isso que precisamos ser muito cautelosos com as nossas falas: eu estou conseguindo atravessar essa fase trabalhando muito, me reinventando, nunca produzi tanto como nesse período de isolamento. Literatura, cinema, música, teatro: fiz de tudo um muito.

Miguel Arcanjo Prado – Como foi produzir tanto neste período?
Wander B. –
Mas me sinto na obrigação de dizer que isso não é simples: não é simples pra quem é de teatro se adaptar ao universo digital. Eu consegui fazer essa travessia e encontrar muito prazer no teatro digital, entender as suas belezas, a capacidade que ele tem de ultrapassar fronteiras: isso é lindo! Mas é preciso respeitar quem não fez o trânsito: são muitas as formas de se fazer teatro e algumas são mais difíceis de funcionarem numa plataforma como o Zoom do que outras. Um grupo como o Satyros, extremamente performativo e sempre conectado às tecnologias mais avançadas, certamente teria mais facilidade pra jogar o novo jogo: assim que explodiu a pandemia, eu disse a Rodolfo [García Vázquez] que o Satyros sairia na frente, estaria na vanguarda porque já existia no grupo esse espírito high tech. O tipo de teatro que eu faço também transita legal pro digital porque é, essencialmente, um corpo sozinho em cena com coisas pra dizer. Isso é possível em qualquer lugar: um corpo sozinho em cena com coisas pra dizer pode se dar na praça, na rua, na escola, no palco italiano, no coreto… Sendo assim, pode ser também no Zoom! Mas e os outros teatros? E o teatro dialógico, como fica nessa? E quem trabalha com o realismo, como fica nessa? Acredito que nós precisamos respeitar as linguagens artísticas de nossos colegas e criar uma rede de apoio pra quem não conseguiu se adaptar: o processo de adaptação é muito mais complicado para algumas formas de expressão teatral e temos que respeitar muito isso. 

Miguel Arcanjo Prado – Por que as pessoas deveriam assistir sua peça?
Wander B. – Eu nunca soube dar menos do que tudo. Não consigo dar uma justificativa melhor do que essa. Esse é o maior convite que eu posso fazer a uma pessoa: você que está lendo essa matéria, se decidir me ver ao longo dessa temporada, ao ligar o seu celular ou o seu laptop para assistir O Inferno É Um Espelho da Borda Laranja, do outro lado você encontrará um artista disposto a se dar por inteiro. Nada menos do que isso.  

Miguel Arcanjo Prado – Como foi a colaboração de Elenice Zerneri na dramaturgia da peça?
Wander B. –
A colaboração de Elenice não está diretamente ligada ao texto da peça, a dramaturgia. O trabalho de Elenice como dramaturgista foi e continua sendo um olhar de fora, que não é olhar de direção, mas que pensa no conjunto da obra. Elenice olha para o todo e fica em diálogo permanente comigo a fim de que possamos chegar no máximo que essa peça pode oferecer. A peça segue em construção a cada ensaio, a cada abertura, e Elenice está sempre assistindo os meus ensaios e trazendo referências para que eu possa resolver as demandas que vão surgindo no caminho. Esse trabalho envolve uma pesquisa intensa, uma busca por materiais que dialogam com o meu trabalho e podem me ajudar a tomar decisões estéticas de toda ordem. Essa pesquisa eu não faço sozinho, Elenice está comigo nessa investigação, nessa busca pelo que pode potencializar a peça. 

Miguel Arcanjo Prado – Qual é o teatro que faz sua cabeça?
Wander B. –
Eu amo o teatro em suas mais variadas expressões, amo sobretudo as salas de ensaio, todas elas: não existe nenhuma arte mais intensa que o teatro! Mas o teatro que eu gosto de fazer está extremamente vinculado ao Teatro Essencial de Denise Stoklos. Se eu fosse dizer qual é o meu teatro, qual é a filosofia que me guia na hora de criar, eu diria que é esse teatro que abre mão de tudo que não é essencial para que a peça aconteça. Isso é só enfeite? Então tira. Simples assim. Quero um teatro “onde apenas o vivo, a energia vital, a força de sobrevivência do humano se estabelecem como base”, como diz a própria Denise no Manifesto do Teatro Essencial. 

Retire seu ingresso para ver Wander B.

Fotos: Autorretrato e Jazz Chimera/Divulgação

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Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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