Morre atriz Nair Silva de Covid-19 aos 70 anos, grande dubladora brasileira

Por Miguel Arcanjo Prado

Morreu a atriz e dubladora Nair Silva, grande nome do teatro, cinema e TV, aos 70 anos, vítima da Covid-19, na última segunda-feira (14), após 24 dias internada em Indaiatuba, interior de São Paulo, nos quais lutou bravamente contra a terrível doença. A notícia da morte foi dada pela família da artista nas redes sociais.

“É com uma dor inexplicável que venho comunicar que nossa guerreira lutou por 24 dias dentro do hospital contra o Covid, e infelizmente ela não conseguiu superar os danos causados por esse vírus! Nesse momento peço à Deus que possa recebe-la com muita festa, por que aqui na Terra ela cumpriu com seu papel de espalhar o amor e ajudar o próximo! Minha tia, minha segunda mãe te amarei eternamente e sentiremos muito sua falta!”, postou a sobrinha de Nair Silva, Magda Peres Oliveira, nas redes sociais.

Nair tinha mais de 50 anos de carreira e era muito querida e respeitada na classe artística. Sua voz marcou variados personagens de filmes e TV. Uma de suas mais emblemáticas dublagens foi da Rainha Arrames, do seriado Changeman. A atriz também participou da inauguração da TV Jornal, em Recife, na década de 1960, quando teve forte atuação em programas da TV pernambucana, como o Noite de Black-Tie, no qual atuava como humorista e cantora. Em São Paulo, além de dublar, onde começou na AIC, trabalhou com o diretor Antunes Filho e na extinta TV Tupi. “Não gosto de ouvir minha voz”, declarou em entrevista ao canal Através da Voz no ano passado.

Entre outras dublagens famosas de Nair Silva estão o Robô Mag em Flashman e vilãs como Gyoru em Jaspion, Mazurka em Goggle V, além da já citada Rainha Ahames em Changeman, na Álamo. “Até hoje sou conhecida pela Rainha Ahames”, costumava declarar. “Outro papel marcante que fiz foi O Ocaso de Uma Estrela, no qual dublei Diana Ross fazendo a vida da Billy Hollyday, eu me autodirigi, que é muito difícil, mas me marcou muito. Também dublei Diana Ross, em Além da Escuridão, que ela fez uma esquizofrênica, o papel mais difícil que fiz”, contou.

Recentemente, dublou Marianne, série da Netflix: “Tenho pavor de filme de terror, não consegui ver. Faço a pior mulher lá”, revelou. Nair também foi a narradora do animê Zillion, onde interpretou a Rainha Adamis. Ela ainda dublou desenhos animados da década de 1990, como O Fantástico Mundo de Bobby e Doug, nos quais deu voz a Martha e Theda, respectivas mães dos personagens principais.

Nair começou como cantora e foi alçada à atriz por Cassiano Gabus Mendes em uma adaptação de Clara dos Anjos, de Lima Barreto, na Tupi, indicada por Márcia Real. “Eu devo ser atriz à Laura Cardoso, com quem aprendi a fazer radioteatro e que me deu todas as dicas, e à Márcia Real, que me encaminhou para a televisão. Eu me apaixonei e não quis mais cantar. Virei atriz”, contou.

O ator Luiz Amorim, amigo de Nair Silva, lamentou a morte da amiga e colega de profissão. “Perdemos uma artista de primeira grandeza. Nair Silva foi uma atriz fantástica, trabalhou com Antunes Filho, trabalhou na Tupi, foi para Recife, onde foi recebida como grande artista, voltou para São Paulo e começou a dublar. Ela dublou grandes filmes de Hollywood, como Cleópatra, no qual deu a voz a Elizabeth Taylor no DVD do filme no Brasil. Ela também deu voz a Whoopi Goldberg. Nair Silva é uma estrela de máxima grandeza da dublagem brasileira, além de ser grande diretora e um ser humano de coração imenso”, declarou, emocionado, o artista, ao Blog do Arcanjo.

Ano passado, a atriz deu dicas a quem quer se dublador. “Primeira coisa, caráter, que ultimamente está faltando muito. Dignidade, companheirismo, humildade. Humildade então é primordial. Você tem de ser humilde. As pessoas não tem mais humildade, é eu, eu, eu. Não é eu, eu, eu, é nós, nós, nós. A dublagem é um conjunto. Isso é o que eu espero dos dubladores. Eu ensinei para muita gente. Tem de ter humildade, dignidade, caráter e respeitar seus colegas”.

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Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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