Coronavírus prejudica vida dos trabalhadores da cultura na Amazônia: veja depoimentos

Teatro Amazonas. Manaus/AM. 20/09/19. Foto: Rafael Zart/Ascom/Cidadania

A Amazônia Legal (AML) é constituída por nove estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Tocantins, Rondônia, Roraima e parcialmente pelo estado do Maranhão que juntos ocupam 60% do território brasileiro. Apesar disso, grande parte dos incentivos à economia e à cultura se concentram nos dois maiores estados do norte que são Amazonas e Pará. E é exatamente neste ponto que reside a complexidade pré-pandemia de covid-19. Com colaboração da jornalista e produtora cultural Wanessa Leal, o Blog do Arcanjo mostra a seguir depoimentos de importantes nomes da economia criativa na região que nos dão um panorama de como está a situação na cultura na Amazônia nesta pandemia do coronavírus.

AMAZONAS

Wanessa Leal- Jornalista, Produtora Cultural, Professora, 27 anos, Manaus- Amazonas.

“Os impactos no setor cultural devido à crise de pandemia de covid-19 são diversos e também muito particulares em cada região dos nove estados que compõe a Amazônia Legal. Tenho participado de discussões em grupos específicos que pautam a música e a cultura de forma geral,  em suas mais diversas expressões e segmentos artísticos, e o que tenho percebido é que apesar de haver algumas iniciativas por parte do Governo e respectivas Secretarias de Cultura e Economia Criativa, e no âmbito municipal, nas secretarias ou fundações de cultura e eventos,elas não têm sido suficientes. E isso tem a ver não só com a crise que estamos passando agora, mas também com a forma como o Governo Federal encara a cultura no Brasil como também com a ausência de políticas culturais que compreendam as demandas de cada uma das regiões do nosso país.

A Amazônia é um lugar que muitos falam mas pouco conhecem, E o Amazonas e o Pará, os dois maiores estados da Amazônia legal, apesar de geograficamente próximos, possuem muitas particularidades, que por sua vez denunciam a necessidade de políticas públicas para a cultura e seus setores, e que contribuam para o desenvolvimento do Estado em uma gestão participativa com artistas, produtores e toda a sociedade, pois tudo ainda é muito verticalizado.

Segundo últimos dados divulgados pelo IBGE, no Amazonas, pelo menos 37 mil pessoas trabalham empregadas no setor cultural. Grande parte destes trabalhadores são autônomos e neste momento em que estamos atravessando no país, eles encontram-se impossibilitados de exercerem a sua profissão com condições plenas, como os demais setores da sociedade, salvo as devidas exceções, e alguns deles, nem possuem apoio dos governos do estado ou do município. Em Manaus, até agora, o prefeito da cidade não se pronunciou sobre medidas de ação protetiva ao setor cultural e o Governo do estado, representado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa, apesar de ter lançado um edital chamado “Fica na Rede Maninho”, cujo o objetivo é contemplar atividades artísticas de conteúdo virtual, em caráter emergencial, e ter começado a encaminhar algumas atividades de mapeamento de artistas no Amazonas, não tem uma estratégia ainda bem definida nem uma  comunicação muito eficiente e os recursos são limitados.

Por conta de todas essas limitações e dificuldades, aqui em Manaus e outros municípios do interior do estado, artistas, produtores culturais, empreendedores, com o apoio de alguns jornalistas que estão buscando dar visibilidade às demandas mais urgentes das diferentes classes artísticas,, seguem se articulando nesta pandemia,  em grupos de apoio e coletivos que se propõe a colaborar com estes trabalhadores para que se reduzam os impactos da crise da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus.

O que mais nos preocupa são as incertezas que não possibilitam estimativas de  conseguir suprir necessidades básicas como comida, itens de higiene pessoal, aluguel e por isso, estamos pedindo socorro também à sociedade para que possamos sobreviver a tudo isso, pois ser artista, por si só, independente da pandemia ou não, não é nada fácil.

Sem muitas alternativas, porém resistindo com a sua arte, como nos outros estados do país, cada um de nós temos buscado fazer a nossa parte ficando em casa, seguindo à risca, as recomendações do ministério da saúde, sobre o isolamento social voluntário, e para gerarmos algum tipo de engajamento e renda imediata, enquanto os auxílios para trabalhadores autônomos não são liberados, continuamos fazendo lives, shows online com proposta de cachê solidário etc.

Nesta semana, uma notícia foi recebida por nós com muito pesar, o Governo do Amazonas confirmou a segunda morte no estado por conta do novo coronavírus e para nossa absoluta tristeza, a vítima foi um músico de 43 anos que morreu na noite desta segunda (30) por complicações no quadro de Covid-19.

São tempos muito difíceis onde o que está em jogo para todos é a saúde de cada um e como irão sobreviver a tudo isso, e  apesar estarmos lutando, tememos o que ainda tem porvir e por isso necessitamos muito do apoio de toda a sociedade, e de modo particular, da assistência do Governo do estado e do Município, no  cumprimento do  seu papel que é pensar em políticas culturais para estes tempos de crise na economia pelo novo coronavírus, de preferência sem tantas burocracias e restrições de pensamento, conforme sugerimos em carta destinada à eles e que está aberta para leitura na plataforma de petição online Avaaz.Org desde a primeira ação do Movimento Mobiliza Cultura Amazonas. A saúde é prioridade, mas a cultura também é muito  importante para a sociedade”.

Michelle Andrews, Produtora cultural,35 anos, Manaus/Amazonas.

“Uma das maiores dificuldades no Estado do Amazonas é a comunicação entre artistas da capital com interior e vice-versa, pelo que eu tenho percebido, o banco de dados existentes da Secretaria de Cultura do Amazonas não é suficiente ou está muito desatualizado.Um banco de dados dos artistas do Amazonas seria fundamental para identificarmos as necessidades da cultura em diverso níveis principalmente em tempos de Covide 19.  Estamos em uma região onde os serviços de comunicação (telefônica e de internet) são precárias além de dinâmicas e tempos específico.Isso tudo se dar pela falta de um política pública pré-pandemia de editais, conselhos e leis de fomento à cultura. “

Bel Martine, Cantora e compositora, 30 anos, natural de Manaus- Amazonas.

“Como autônoma, sempre dependi da renda diária dos shows para custear minhas despesas. Com o isolamento social necessário tenho me apoiado em movimentos culturais como o Mobiliza Cultura Amazonas para manter a saúde mental e buscar alternativas para diminuir os impactos econômicos. Estou recorrendo também às redes sociais e toda solidariedade dos fãs, realizando rifas com shows posteriores a quarentena e também lives onde o fã pode doar um cachê consciente,Sigo aguardando respostas de suporte à classe artística da Secretaria Municipal de Cultura.”

PARÁ

Sonia Nascimento, Cantora, Compositora e Museóloga, 52 anos, Belém- Pará.

” Atualmente não tenho realizado  shows por estar iniciando um mestrado na UFPA, mas com fechamento das casas noturnas, bares, centros  culturais, museus, parques e teatros, é natural que o cenário cultural ficou péssimo, mas os artistas se reinventam. Porém posso falar com um pouco mais de conhecimento sobre a música e os museus. Na música, estão sendo realizados  festivais virtuais através de lives, que não sei se estão sendo remuneradas pelos organizadores, mas é uma forma também de levar novos seguidores a conhecerem seus respectivos trabalhos nas plataformas digitais. Eu mesma tenho feito playlists com artistas paraenses e compartilhado nas minhas redes sociais. Espero que renda alguma coisa para todo mundo.

Por outro lado, a Secretaria de Cultura do Estado do Pará- SECULT, lançou o festival “Te aquieta em casa” que já premiou 120 artistas na primeira etapa com uma remuneração de R$ 1500,00 e promete mais duas etapas com 130 selecionados em cada, é um festival de conteúdos digitais das variadas linguagens e expressões artísticas, é  uma maneira interessante do Estado apoiar os artistas que estão em quarentena. Os museus e parques também foram fechados logo nos primeiros momentos de reclusão.”

RORAIMA

Andressa Nascimento, nome artístico “Euterpe”, Cantora, compositora e empreendedora cultural, Boa Vista- Roraima.

“Em Roraima a crise provocada pelo Coronavírus deixou os trabalhadores da Cultura em uma situação desoladora. Com shows cancelados, músicos da noite, artistas e produtores, que em sua grande maioria tem na música a sua principal e única fonte de renda, se reinventam em lives colaborativas nas redes sociais para tentar garantir junto ao seu público o sustento de suas famílias e honrar seus compromissos.

Até o momento, foi divulgada nas redes sociais da Secult/RR a notícia da criação de um edital para produção de conteúdos artísticos para os próximos dias, porém ainda sem data certa. Em meio a pandemia, os trabalhadores da Cultura em Roraima se apegam uns aos outros, em redes de apoio que estão se formando para tentar amenizar a situação.

A falta de políticas culturais consistentes,refletem nesse período crítico a vulnerabilidade e desprestígio em que se encontram os artistas em Roraima. Se faz necessária a atuação urgente do poder público, com ações imediatas, remuneradas e efetivas para atender as necessidades da classe artística local.

Enquanto escrevia esse depoimento, recebi a notícia de que o deputado estadual Gabriel Picanço protocolou hoje um projeto de Lei na Assembleia Legislativa de Roraima, que autoriza o Governo Estadual conceder uma “bolsa auxílio” para proteger Microempreendedores Individuais e profissionais autônomos da música. Enquanto isso, aguardamos que essas medidas sejam implementadas o mais rápido possível.

AMAPÁ

Heluana Quintas,, 36 anos, artista e produtora cultural, de Macapá-AP.

“No Amapá, a Secult-AP anunciou a abertura de um edital para contratação de apresentações  a serem veiculadas pela internet. A iniciativa foi alvo de denúncia no Ministério Público Federal e o edital não foi lançado, mas a secretaria manteve o calendário de abertura dos demais editais. Sem condições para desenvolverem suas atividades, os trabalhadores do setor cultural que vivem exclusivamente da renda de suas produções, atravessam um momento muito difícil sem palcos, sem galerias, sem movimento nos semáforos e sem atividade noturna. A expectativa é que a Secult consiga fazer o lançamento do edital para apresentações via internet, além do recebimento da Renda Básica Emergencial, que inclui estes trabalhadores entre aqueles que receberão o auxílio de R$600,00 pelo período de seis meses.”

ACRE

Kelvin Illitch Santos,  músico, compositor e servidor público, 22 anos, Rio Branco- Acre.

“Eu faço parte da cena artística daqui no sentido mais independente, sou artista compositor e faço parte do MAIAS – Movimento Artístico Independente Acreano Subversivo – que se propõe em realizar eventos gratuitos e abertos para todos os públicos e artistas.

Com o advento desta pandemia ficamos desarticulados, e estamos nos propondo pelas redes sociais (Facebook, Instagram e Whatsapp) a divulgar o material da galera que tá produzindo sua arte em casa, e dar as possíveis informações sobre o desdobramento do vírus e as articulações no nosso estado e no Brasil. Percebo que a monetização desses shows-lives, está sendo feito via vakinha e depósito bancário; e quem vende miçangas tá tentando reservar as peças para entregar no pós pandemia. Não sei se devo, mas cito a Gift Talentos, plataforma de contratação de atrações musicais, que tem feito shows-lives com alguns músicos da noite; Slam das Minas, que tem publicado material em vídeo (poesia, música, dança, etc) das artistas em seu Instagram; Ateliê Aquiri, que tem vendido sob reservas suas miçangas também via Instagram; Antônio Santo Cristo, que vem fazendo shows-lives sem monetização; E creio que existem outras pessoas, fora do meu radar, que estão se articulando de maneira independente. Eu não sei se na área da cultura aqui no estado do Acre nesta quarentena pandêmica está havendo alguma articulação dos artistas junto ao governo, mas os artistas que podem, estão usando plataformas online para mostrar seu trabalho, este sendo para venda ou somente exibição artística.”

A jornalista e produtora Wanessa Leal recomenda a leitura da matéria abaixo, produzida pela jornalista do Portal Amazonas Patrícia Borges sobre a situação como estão as tratativas sobre políticas públicas para o setor cultura em tempos de Covid-19 no Amazonas e que contempla informações do movimento Mobiliza Cultura Amazonas.

Trabalhadores da cultura no Amazonas cobram políticas públicas para artistas, produtores e técnicos durante a pandemia do novo coronavírus

O Mobiliza Cultura Amazonas é um movimento coletivo de agentes culturais, engajados na fiscalização, elaboração e implementação de políticas públicas para o setor

O Mobiliza Cultura Amazonas existe desde 2012 como um movimento apartidário interessado em unir artistas e trabalhadores da cultura para debater políticas públicas para o desenvolvimento do setor cultural no estado do Amazonas como um todo, considerando as particularidades de cada município.

Artistas, produtores e agitadores culturais se mobilizam para pensar, problematizar, propor, fiscalizar e exigir que as instituições públicas cumpram a missão de fomentar arte e cultura, trabalhando em conjunto com a classe artística do estado para proporcionar à sociedade experiências culturais como instrumento de transformação.

O grupo organiza proposições de debates e atividades, além da criação de uma rede online que monitora pautas culturais para o grupo se fazer presente, como o Seminário de Cultura e Políticas Culturais promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

Entre as ações de destaque do movimento, em 2019 houve uma carta manifesto protocolada na sede do Governo. Uma parte do grupo se reuniu com a Secretária Sigrid Cetraro, que na ocasião substituiu o Secretário Marcos Apolo, acompanhada por alguns outros funcionários da Secretaria. Após esse momento, a Secretaria não foi mais extinta, apesar da fusão com a pasta de Economia Criativa.

Durante esse período pandêmico, o grupo recebe a adesão de mais membros com interesse em pautar ações emergenciais de apoio aos trabalhadores do setor cultural, primeiro a parar as atividades como medida prevenção de proliferação do coronavírus.

É o momento de o grupo contribuir para que as medidas da Secretaria de Cultura e Economia Criativa e da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) sejam exitosas e contemplativas para todos trabalham com arte e cultura em Manaus e em todos os municípios do Amazonas.

Tendo visto os severos impactos da pandemia ao setor cultural, o movimento cobrou das instituições culturais um pronunciamento formal e institucional dos representantes das pastas de cultura em relação à situação.

Não houve pronunciamento, mas realizou-se uma reunião com o secretário de Cultura e Economia Criativa, Marcos Apolo Muniz, na qual foram levantadas sugestões de ações menos burocráticas de apoio à classe artística. A reunião foi um encontro informal online (por vídeo chamada) sugerida pelo titular da pasta e que o movimento aceitou participar, mesmo considerando que o ideal seria o pronunciamento da secretaria para toda a sociedade de forma ampla, aberta e democrática.

Carta proposta para Política Cultural no Amazonas em tempos de Covid-19

No dia 26 de março o Mobiliza Cultura Amazonas publicou uma carta direcionada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa e à Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult), da qual participam pessoas da sociedade civil, movimentos, coletivos, ativistas culturais que se posicionam de forma presente e participativa. A carta já conta com mais de 200 assinaturas.

Leia a carta na íntegra: https://bit.ly/AssineACartadoMobilizaCultura

Em 28 de março, A Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa informou via redes sociais, que recebeu a carta do Mobiliza Cultura Amazonas no dia 26 de março, após a realização de uma videoconferência com o grupo, para levantar as principais demandas no período de isolamento social.

Na publicação, a pasta esclareceu que uma comissão técnica foi criada para avaliar as propostas apresentadas e ressaltou que, apesar da classe requerer respostas imediatas, é necessário retorno responsável, com soluções cabíveis ao momento. O movimento ainda não recebeu resposta da Manauscult.

O grupo ressalta que não tem objetivo, em hipótese alguma de desrespeitar, agredir, perseguir e, muito menos, desqualificar o trabalho de nenhum trabalhador das instituições culturais, seja a Secretaria de Cultura e Economia Criativa ou Manauscult. O grupo se coloca à disposição para somar, provocar, problematizar e se mobilizar para potencializar ações e medidas protetivas ao setor cultural.

Ações do Mobiliza Cultura Amazonas

Debates e oficinas já estão programados para transmissão on-line promovida pelo movimento. No dia 2 de abril, a programação foi aberta com uma oficina de montagem de proposta e portfólio para editais com a facilitadora Carol Calderaro.

O Mobiliza Cultura Amazonas está em fase de pré-produção de um festival multicultural virtual que será realizado de forma colaborativa entre membros do movimento, sociedade civil, artistas e produtores em geral.

Marcado para os dias 11 e 12 de abril, o Festival Multicultural Mobiliza Cultura Amazonas será realizado de forma colaborativa entre membros do movimento, sociedade civil, artistas e produtores em geral.

A proposta é conectar o máximo de pessoas que trabalhe com e/ou contemple música, dança, teatro, literatura, artes visuais, audiovisual.

A programação do festival, que envolve apresentações artísticas, debates e oficinas virtuais, será divulgada em breve e a participação do público será por contribuição voluntária.

Redes sociais @MobilizaCulturaAmazonas

Contato: [email protected]

Patrícia Borges

@blocodacobragrande

@agenoragostinhoeleo

@amusicadascachoeiras

A jornalista e produtora cultural na Amazônia Wanessa Leal – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Colaborou Wanessa Leal, jornalista e produtora cultural com especialização em gestão e produção cultural pela Universidade do Estado do Amazonas.

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1 Resultado

  1. abril 9, 2020

    […] Bibi Ferreira, Teatro-D, Teatro Maria Della Costa, Teatro J. Safra e Teatro Commune.Leia também:Veja depoimentos de produtores culturais da Amazônia na pandemia do coronavírusComo profissionais da cultura vão sobreviver à pandemia do coronavírus?Cultura gera renda e […]

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