Crítica: Diga Que Você Já me Esqueceu destila sarcasmo à família burguesa

Sarcasmo à família burguesa: os atores Larissa Ferrara e Juan Manuel Tellategui em cena da peça Diga Que Você Já me Esqueceu; ao fundo, o ator Daniel Morozetti – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Por Viviane A. Pistache*
Crítica convidada
“Diga Que Você Já me Esqueceu” ✪✪✪✪✪
Avaliação: Ótimo

Como bem disse Leon Tolstoi: Todas as famílias felizes são parecidas; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.

Essa é certamente uma das provocações centrais da peça “Diga Que Você Já me Esqueceu”, escrita e dirigida por Dan Rosseto; que cutuca com língua afiada a gênese de pelo menos duas instituições: a família e o casamento, exacerbando o quão falidas são desde o nascimento.

Flagrantemente inspirada em Nelson Rodrigues, a obra revisita imaginários sobre as armadilhas do amor, seja entre homens e mulheres, seja entre mãe e filhos, seja entre irmãos, seja entre amantes.

Numa rede de intrigas bem tecidas, a peça nos lembra que uma das funções das fábulas é oxigenar os pesadelos para que eles nunca envelheçam.

Obra é inspirada em Nelson Rodrigues: cena de abertura da peça Diga Que Você Já me Esqueceu, de Dan Rosseto – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Assim, evoca Eva, que precocemente entendeu as maldades do mundo, oferecendo a Adão o fruto proibido, abrindo-lhe a consciência do bem e do mal. E desse modo, ambos foram expulsos do infante reino da inocência e entraram para a penitência da vida adulta.

Busca inspiração também na Branca de Neve, que embora tenha sido escrita séculos depois, faz uma releitura do antigo testamento; já que no conto de fadas uma senhora velha e amarga é condenada a dar uma maça envenenada à mocinha para que ela entendesse que depende do amor de um homem, pois afinal de contas, nasceu de sua costela.

Assim, a maçã segue sendo este fruto que a mulher carrega entre as pernas para sua danação desde que o mundo é mundo, além de ser a fruta que os homens apreciam como melhor lhes convém.

Em “Diga Que Você Já me Esqueceu, os arquétipos de Eva e Branca de Neve se mesclam e expõem Adão como um vampiro que mal consegue respirar, cuja alma trevosa está longe de ser a de um príncipe que traz (falsas) esperanças do beijo que desperta a vida nas almas femininas.

O tabu do incesto: os atores Pablo Diego (Silvio) e Larissa Ferrara (Teresa) na peça Diga Que Você Já me Esqueceu – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Pelo contrário, a peça indica que Sílvio (magistralmente interpretado por Pablo Diego Garcia), o noivo-vampiro, é a voz rouca da morte e aquele que possui o poder da mira e do disparo. O universo masculino da peça é bem corporativo e se dissimula de vítima, tentando escamotear as fartas doses de violências destiladas contra suas companheiras.

Assim, cinicamente Adão ecoa a ideia de vulnerabilidade diante da suposta perversidade feminina: “Cuidado com a menina do véu negro” é verso cantado algumas vezes pelo noivo-vampiro, que não admite ver no espelho a face do terror que dissemina.

Macho atormentado: ao centro, o ator Pablo Diego Garcia (Silvio) em cena de Diga Que Você Já me Esqueceu – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Não por acaso, ele vive enclausurado em sua consciência pesada, que o chama para o porão, a cova e o inferno. O Adão-noivo-vampiro encarna os tormentos da masculinidade tóxica, que agoniza para respirar, mas que condena, mata e sobrevive.

A peça se aventura a tratar também de outros temas muito caros à sociedade, como o tabu do incesto entre a irmã Teresa (vivida pela atriz Larissa Ferrara, que encarna uma controversa Lolita) e o irmão Sílvio, o já citado noivo-vampiro; bem como o incesto entre a mãe Dona Querubina (o anjo da morte que voa alto em cena com a primorosa interpretação de Juan Manuel Tellategui), e seu amado filho vampiresco.

Mistura de mãe e morte: o ator Juan Manuel Tellategui (Dona Querubina) em cena da peça Diga Que Você Já me Esqueceu – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Por falar em mãe, a maternidade é des-romantizada e a tese do amor materno incondicional se desfaz como poeira no ar. A mãe também é morte, aquela que morre como mulher para dar a vida, mas que também resiste ao fardo social que lhe é imposto, como o de ser virtuosa e abnegada.

O que é pregado como obrigação de amor entre mãe e filha explode em ódio e competição, bem como desejo de morte recíproca. Nesse sentido, a peça provoca a reflexão sobre os fundamentos do disseminado mito da falta de colaboração entre as mulheres e a disputa pelo amor masculino, que supostamente começaria com a busca pelo afeto do pai e dos irmãos.

Na peça, a competição dentro do universo feminino se dá em muitas direções: entre mãe e filha, entre irmãs e entre cunhadas. Tal repetição nos convoca e perguntar até quando persistirá a cilada da busca do amor masculino como horizonte da existência feminina e eldorado supremo?

Relações lésbicas: as atrizes Marjorie Gerardi (Selma) e Ana Clara Rotta (Dalia) na peça Diga Que Você Já me Esqueceu – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

As personagens das primas-gêmeas Dália (vivida com garras por Ana Clara Rotta) e Selma (fabulosa na atuação de Marjorie Gerardi) trazem alguma luz no sentido da superação destes conflitos, pois ainda que sejam as damas de honra do malfadado casamento, abrem brechas para reflexões sobre a descriminalização das relações lésbicas e do aborto, tanto na lei dos homens, quanto na de Deus.

Além disso, Selma avança no sentido de trazer a potência do Não! Como o não querer estar numa relação heterossexual e o não querer que um homem a toque sem seu consentimento.

Potência do Não!: os atores Marjorie Gerardi (Selma) e Nalin Júnior (Nestor) em cena da peça Diga Que Você Já me Esqueceu – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Infelizmente, o jovem Nestor (interpretado por Nalin Junior), o virgem atormentado e seu noivo arranjado, parece ser surdo ou não querer entender o que significa um Não dito em alto e bom tom. A máxima “Não é não!” tem sido amplamente debatida para o fim das culturas de assédio e estupro, mas aparentemente os homens ainda terão que retirar muita sujeira histórica do machismo acumulado em seus ouvidos.

Outro tema caro à peça é o debate sobre a virgindade. Como é difícil situar a obra historicamente, ao que parece ela se passa numa sociedade onde o assunto é ainda um tabu, com mulheres buscando soluções para viver plenamente o prazer sexual, ainda que preocupadas em preservar a reputação, ao passo que o homem virgem aparece como um pitbull em cio, completamente descontrolado, mesmo com o uso de focinheira.

A peça ressuscita temores de nossas avós, mas com ironia: esses pesadelos de uma sociedade vitoriana foram realmente superados? Infelizmente essa pergunta se faz pertinente, sobretudo em tempos de crescimento da bancada da Bíblia que criminaliza o aborto, o amor entre mulheres e a liberdade sexual, questões que a peça tematiza bem.

Por fim, “Diga Que Você Já me Esqueceu” ainda toca no tema das diferenças de classe como interdito para o amor. No título da peça está uma embutida uma questão central para a trama: em sociedades com profundas desigualdades sociais, é possível o amor no contexto de assimetrias de classes?

Amor impossível ao som de Negue: os atores Carol Hubner (Lucia) e Daniel Morozetti (Pedro) na peça Diga Que Você Já me Esqueceu – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Lúcia (interpretada por Carol Hubner, que lhe confere distintas camadas que vão da amante dissimulada à cruel e resignada noiva infeliz), prestes a se casar com o Adão-Vampiro teria alguma chance de escolher amar o belo jovem Pedro (vivido pelo ator Daniel Morozetti), que é apenas um humilde filho do caseiro?

Com apelos para que o amante Pedro a esqueça, a noiva-fantasma que tem sangue nas mãos assina sua sentença de infelicidade conjugal. No entanto, o patrimônio continua assegurado entre famílias que sacrificam amor em detrimento de herança. O desfecho do personagem Pedro lança uma dúvida: sua trágica sina é por ser pobre? E se ele fosse negro, quais seriam as implicações adicionais?

O fato é que Pedro, o músico charmoso, tem atributos para o prazer, mas não para ser membro de um clã de posses. Assim, a obra embalada pelo imperativo “Negue”, de Maria Bethania, apresenta as bodas de espinhos que revelam os horrores de uma família, cujos segredos podres repousam num caixão que orna a sala de estar.

Puro deleite: cena da peça Diga Que Você Já me Esqueceu, de Dan Rosseto, em cartaz no Teatro Viradalata, em SP – Foto: Edson Lopes Jr. – Blog do Arcanjo/UOL

Por estes motivos, a peça “Diga Que Você Já me Esqueceu” é puro deleite, pois além do texto potente, que faz jus às provocações que fizeram a fama de Nelson Rodrigues, tem ainda uma pulsante trilha sonora (Dan Rosseto) e refinada iluminação (criação de Nicolas Manfredini e operação de Daniel Aluísio) que nos elevam a um denso clima de terror expressionista.

A peça que destila sarcasmo sobre a família burguesa fica em cartaz até o último final de semana de maio e é uma ótima opção para quem curte um drama cinco estrelas.

Crítica por Viviane A. Pistache
“Diga Que Você Já me Esqueceu” ✪✪✪✪✪
Avaliação: Ótimo
Quando: Sábado, 21h30, domingo, 19h. 110 min. Até 27/5/2018
Onde: Teatro Viradalata (r. Apinajés, 1387, Sumaré, SP, tel. 11 3868-2535)
Quanto: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

*Viviane A. Pistache é graduada em Psicologia pela UFMG e doutoranda em Psicologia pela USP. Preta das Minas Gerais, atualmente vive na Terra da Garoa se arriscando em contos, roteiros e crítica de teatro e de cinema.

 

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