Sou a primeira na história, diz atriz trans premiada em Tiradentes

Julia Katharine com o Prêmio Helena Ignez: primeira trans premiada na história da Mostra de Cinema de Tiradentes – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Tiradentes (MG)*

A atriz Julia Katharine fez história neste fim de semana. Ela foi a primeira mulher transexual a receber um prêmio na Mostra de Cinema de Tiradentes, um dos mais importantes festivais cinematográficos brasileiros e que realizou sua 21ª edição neste mês.

Aos 40 anos, a atriz paulistana ganhou o Prêmio Helena Ignez, dedicado ao trabalho de mulheres em nosso cinema, que lhe foi entregue pelas mãos da própria cineasta e atriz Helena Ignez na cerimônia de encerramento da 21ª Mostra, neste sábado (27).

O prêmio foi dado à atriz por ter protagonizado e co-roteirizado, junto do diretor Gustavo Vinagre, o longa “Lembro Mais dos Corvos”, exibido com sucesso no festival. O discurso de Julia, que reforçou a importância da representatividade trans, foi bastante aplaudido. Nesta segunda (29), celebra-se o Dia Nacional da Visibilidade Trans.

“Ter ganhado o Prêmio Helena Ignez na Mostra de Tiradentes foi muito importante porque marca uma mudança na história do festival. Sou a primeira mulher transexual atriz que ganha este prêmio. É um prêmio novo, que está no seu segundo ano, mas nos 21 anos de história da Mostra nenhuma mulher transexual havia ganhado prêmio algum”, lembra Julia Katharine, em entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo do UOL.

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Julia Katharine, atriz do filme “Lembro Mais dos Corvos”, de Gustavo Vinagre: primeira trans premiada na história da Mostra de Cinema de Tiradentes – Foto: Beto Staino/Universo Produção/Divulgação

Representatividade trans

“Ganhar este prêmio é um marco e representa muito para nossa luta em relação à representatividade trans”, afirma. A premiação de Julia Katharine vem num momento de muita luta da comunidade trans e travesti por representatividade nas artes, sobretudo após o lançamento do Manifesto Transfake pelo Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans).

No documento público, pedem que diretores e produtores escalem artistas trans e travestis quando estes personagens existirem, pondo o fim ao que chamam de “transfake”, quando papéis trans são representados por atores cis [pessoas que se identificam pelo sexo de seu nascimento], como ocorreu com nomes como Carolina Ferraz, Bruno Gagliasso e Cauã Reymond, por exemplo.

Julia Katharine recebe o Troféu Helena Ignez em Tiradentes das mãos da própria Helena Ignez – Foto: Beto Staino/Universo Produção/Divulgação

“Mulheres trans e travestis podem trabalhar onde quiserem”

Para Julia Katharine, muita coisa já está mudando. E sua premiação é um indício disso. “E é só o começo de um grande movimento. Nós, atrizes trans e travestis, temos que enfim lutar pelos nossos espaços nos festivais no Brasil e lá fora. Lá fora não posso te dizer, mas não acredito que seja muito diferente daqui”, fala Julia.

“Fiquei muito lisonjeada com a premiação. Eu me senti realmente muito querida e muito bem recebida por todos da Mostra. Foi um momento significativo para mim. Tenho 40 anos de idade e nunca imaginei que fosse chegar a um festival de cinema como esse, ser tão bem recebida e, no fim, premiada. Também consegui no discurso deixar algo para as pessoas pensarem, sobre a importância de mulheres trans e travestis poderem trabalhar no cinema ou onde elas quiserem”, afirma a atriz.

Julia Katharine, atriz do filme “Lembro Mais dos Corvos”, de Gustavo Vinagre: primeira trans premiada na história da Mostra de Cinema de Tiradentes – Foto: Beto Staino/Universo Produção/Divulgação

União feminina

Para Julia, é importante a união das mulheres, sejam elas cis, trans ou travestis. “Tanto a mulher cis quanto a mulher trans são mulheres. Claro que a gente sofre uma discriminação mais violenta que a cis, mas elas também sofrem. Ser mulher nesse país é muito doloroso, muito complicado. Temos de nos unir”, pede.

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Julia Katharine afirma sair de Tiradentes com a missão cumprida. “Eu queria muito poder representar as mulheres trans e travestis neste festival e eu acredito que eu consegui. No debate sobre o filme, eu citei o nome de Renata Carvalho e Leona Jhovs, atrizes que conheço e admiro muito, mulheres trans”, conta.

E revela que seu próximo filme também será um marco. “Acabei de fazer um filme com a Maria Clara Escobar, ‘Desterro’, no qual interpreto uma mulher cis, mãe de um menino de dez anos. Este foi o maior presente que recebi ano passado: a forma como a Maria Clara me tratou e me legitima como mulher em seu filme”, conclui.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes.

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