Negros e LGBTs se destacam na Bienal Sesc de Dança em Campinas

Espetáculo “Do Desejo de Horizontes”, de Burkina Faso, na África, abriu a 10ª Bienal Sesc de Dança em Campinas e será apresentado nesta semana no Sesc Vila Mariana, em São Paulo – Foto: Laurent Philippe/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Campinas (SP)*

Se durante muito tempo os festivais de dança contemporânea apresentavam mais do mesmo para o seleto grupo de sempre, com boa parte de artistas e obras que dialogavam com seus próprios umbigos, a 10ª edição da Bienal Sesc de Dança em Campinas, interior de São Paulo, muda este cenário.

Com seis atrações internacionais e 61 brasileiras, das quais oito são estreias nacionais e três mundiais, o evento movimenta os palcos campineiros desde o último dia 14 e vai até 24 de setembro, apostando na diversidade, inclusive a sexual, de gênero e étnica, colocando novos corpos em evidência.

“Gaymada” no gramado do Sesc Campinas: jogo propõe respeito à diversidade sexual e de gênero – Foto: Fernando Bisan/Divulgação

Gaymada contra o preconceito

Um dos espetáculos que exemplifica a nova fase, mais condizente com as recentes reivindicações sociais das ditas minorias, é a “Gaymada”, do coletivo mineiro Toda Deseo, sucesso e polêmica do último Festival de Teatro de Curitiba, quando um agressor homofóbico tacou uma pedra nos artistas.

A sessão do divertido e também politizado jogo — uma versão LGBT da velha queimada — em prol do respeito à diversidade sexual e de gênero, trouxe brilho e frescor, e até mesmo dança tal qual o grosso da população conhece, à Bienal neste sábado (16), no gramado do Sesc Campinas.

Os belo-horizontinos fizeram uma espécie de aulão antes de o jogo começar, colocando todo mundo para mexer o corpo em uma proposta coreográfica pop. O público embarcou na “Gaymada” — inclusive os intelectuais de plantão —, entrando na brincadeira com Rafael Lucas Bacelar, Ronny Stevens, Thales Brener Ventura, David Maurity, Ju Abreu e Idylla Silmarovi.

No intervalo, a exuberante drag queen Nickary Aycker — que se alterna com a diva mineira Cristal Lopez nas apresentações da “Gaymada” — levantou o público com uma dublagem intensa de “O Amor e o Poder”, hit cantora Rosana. Depois, bateu cabelo.

Frequentadora do Sesc Campinas, a assistente comercial Vanessa Vilela viu a “Gaymada” com sua filha, Lara, de três anos, e o marido, o técnico Ednei Santos. E aprovou: “Vim de curiosa e estou achando o máximo. Trouxe minha filha para que ela veja desde pequena a diversidade e cresça respeitando todos sem preconceito. Afinal, todo mundo é igual, né? Estou achando o povo muito bonito e respeitador, todo mundo se ama. Até meu marido, que é meio na dele, está achando muito legal”, contou ao Blog do Arcanjo do UOL, enquanto via a partida queer.

Wagner Schwartz, da equipe de curadores da 10ª Bienal Sesc de Dança: “Aqui, pode” – Foto: Annelize Tozetto/Clix/Festival de Teatro de Curitiba/Divulgação

“Aqui pode”, diz curador

Wagner Schwartz, premiado performer, coreógrafo e integrante da equipe de curadores da 10ª Bienal Sesc de Dança, lembrou da importância de a “Gaymada” acontecer justamente no dia seguinte à censura judicial à peça “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, no Sesc Jundiaí (SP) e na mesma semana do polêmico cancelamento da exposição “Queermuseu” no Santander Cultural de Porto Alegre após manifestações de parte conservadora da sociedade.

“Fazer a ‘Gaymada’ neste momento significa que aqui, na Bienal Sesc de Dança, pode. Aqui existe um grupo de pessoas interessadas por isso. A curadoria quer que exista a possibilidade de convivência com o que intitularam de ‘diferença’”, afirmou.

Schwartz enxerga com temor a volta da censura. “Eu tenho muito medo, porque os artistas que eu sigo e me formaram passaram por tudo isso na ditadura e conseguiram transformar esse cenário, e hoje estamos voltando a conversar sobre tudo isso. Tenho medo de que exemplos como estes voltem a acontecer”.

O curador lembrou que diante do novo conservadorismo, a arte está retomando temas importantes, como o respeito à diversidade e a liberdade de expressão. “A gente precisa a voltar a falar disso, mesmo que pode se achar que é um tema antigo, mas não é, a gente está sentido isso na pele”, afirmou ao Blog do Arcanjo do UOL.

O país africano Burkina Faso foi representado na 10ª Bienal Sesc de Dança – Foto: Laurent Philippe/Divulgação

Refugiados africanos

Se a liberdade e diversidade sexual é bem-vinda na Bienal, os negros também começam a ser lembrados. Claudia Garcia, da equipe de curadoria do festival, destaca o espetáculo de abertura, “Do Desejo de Horizontes”, do pouco conhecido país africano Burkina Faso, que marcou “a primeira vez no Brasil da obra coreográfica de Salia Sanou”, grande especialista em danças africanas.

A curadora lembra que a montagem, que poderá ser vista pelos paulistanos nesta terça (19) e quarta (20), 21h, no Sesc Vila Mariana, é “fruto de um longo trabalho do coreógrafo em campos de refugiados do Burundi e Burkina Faso”.

“A montagem reafirma o compromisso da Bienal Sesc de Dança 2017 com temas sociais e políticos do mundo contemporâneo, e com a difusão da diversidade das criações e representações simbólicas da dança”, declara Garcia.

A cantora Luedji Luna foi destaque na programação musical da 10ª Bienal Sesc de Dança – Foto: Nti Uirá Fotografia

Música e diversidade

A programação ainda conta com ações formativas e shows noturnos no Ponto de Encontro do Sesc Campinas. Um dos destaques musicais foi a participação da potente cantora baiana Luedji Luna no show do africano Yannick Delas. Quando ela deixou o palco, o público implorou por sua volta.

Há na Bienal representantes dos vizinhos Uruguai, que enviou a superprodução “Big Bang”, do grupo Gen Danza, e da Argentina, que mandou “Tudo Junto”, de Juan Onofri Barbato, com o performer Lucas Yair Araujo e o músico Santiago Torricelli, espetáculo apresentado no Terminal Rodoviário de Campinas.

Também estão na Bienal dançarinos europeus vindos da Itália e da Bélgica, além do já citado Burkina Faso, representando a África, e o Japão, como representante asiático.

Do Brasil, as regiões Sudeste e Sul, as mais ricas do país, são as mais representadas, com trabalhos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. Há dois Estados representantes do Nordeste: Bahia e Piauí. As regiões Norte e Centro-Oeste ficaram de fora da programação.

O caminho em prol da diversidade e representatividade na dança contemporânea começou, fruto da pressão de grupos ditos minoritários por representatividade. Agora, é preciso que tais avanços sejam intensificados, mantidos e conscientizados por curadores, programadores, artistas, instituições e a sociedade como um todo.

*O colunista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite da 10ª Bienal Sesc de Dança.

Bailarinos uruguaios dançam “Big Bang”, um dos destaques internacionais da 10ª Bienal Sesc de Dança, em Campinas (SP) – Foto: Roberto Assem/Dviulgação

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