“Perpetua o racismo”: Alunos de arquitetura se recusam a projetar quarto de empregada

Brasil escravocrata e racista ilustrado por Debret no século 19: alunos de arquitetura da UFMG se recusam a fazer disciplina chamada “Casa Grande”, que ensina a projetar residências de alto padrão com quartos para empregados – Foto: Reprodução

Por Miguel Arcanjo Prado

Estudantes da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) publicaram nesta quinta (27), na página do Diretório Acadêmico da instituição, uma nota coletiva de repúdio à disciplina “Casa Grande”, que propõe a elaboração de uma residência de alto luxo com oito dependências para empregados.

Segundo os alunos, o problema já começa no nome da disciplina: “Viemos expressar nossa indignação quanto ao racismo e desrespeito contidos no nome e no programa da disciplina de projetos flexibilizados (Pflex) ‘Casa Grande’ ofertada pelo professor Otávio Curtiss”.

“Segregação escravista”

Os estudantes lembram que “a casa grande e a senzala, em hierarquia, sempre se delinearam como pilares da ordem escravocrata no Brasil […] controlada pelo senhor do engenho, que tentava exercer poder sobre a vida de seus escravos, empregados e moradores”.

E reforçam: “Após 129 anos da abolição da escravidão no Brasil, no entanto, a estrutura escravocrata ainda segue presente no cotidiano brasileiro […], o quarto de empregada, por exemplo, tem como origem a segregação escravista”, apontam.

Ainda de acordo com os alunos, tal disciplina representa o “racismo institucional presente na Escola de Arquitetura”.

“Disciplina perpetua o racismo”

Para os estudantes, a tal disciplina “reforça os padrões sociais que vão ao encontro das estruturas do Brasil Colônia e fogem da realidade da maioria dos indivíduos que compõem a população brasileira, utilizando a proposta da disciplina para justificar a produção de uma arquitetura racista”, lembrando ainda que parte dos estudantes são “pretos, pobres e advindos de escolas públicas”.

“Mais uma vez, os setores reacionários da universidade estão pouco preparados para receber a diversidade sociocultural do novo perfil de seus estudantes, reforçando suas estruturas racistas e como elas representam uma forma de dominação na sociedade atual. Dessa forma, ressaltamos nossa inflexibilidade em aceitar uma disciplina que perpetue o racismo”, dizem os alunos da UFMG.

Em entrevista ao jornal Estado de Minas, o professor Otávio Curtiss se manifestou por e-mail: “Não tenho interesse em entrar nessa questão. Os alunos não são obrigados a cursar essa disciplina para obterem o grau de arquitetos”, escreveu. A Escola de Arquitetura e Design da UFMG ainda não se manifestou sobre o caso nem a universidade.

Vida imita a arte

O caso da vida real lembra o texto da peça “Ida”, escrita por Renata Martins e produzida pelo grupo paulistano Coletivo Negro, com atuação de Aysha Nascimento e Verônica Santos, com direção de Flávio Rodrigues.

Na obra, uma jovem arquiteta negra se vê em conflito por ter de projetar um quarto de empregada. Leia a crítica.

Nada mudou? “Senhora de Algumas Posses”, pintado por Debret em 1823 – Foto: Reprodução

Veja, abaixo, a nota completa dos estudantes da Escola de Arquitetura e Design da UFMG:

“NOTA COLETIVA DE REPÚDIO À DISCIPLINA CASA GRANDE

Belo Horizonte, Julho de 2017

À comunidade,

Nós, estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo, representados pelo Diretório Acadêmico da Escola de Arquitetura da UFMG, viemos expressar nossa indignação quanto ao racismo e desrespeito contidos no nome e no programa da disciplina de projetos flexibilizados (Pflex) “Casa Grande” ofertada pelo professor Otávio Curtiss.

Historicamente, a casa grande e a senzala, em hierarquia, sempre se delinearam como pilares da ordem escravocrata no Brasil, estruturada em uma produção latifundiária completamente controlada pelo senhor do engenho, que tentava exercer poder sobre a vida de seus escravos, empregados e moradores. Após 129 anos da abolição da escravidão no Brasil, no entanto, a estrutura escravocrata ainda segue presente no cotidiano brasileiro. Como discutido em diversas disciplinas na EAD-UFMG, o quarto de empregada, por exemplo, tem como origem a segregação escravista. Ele surge como uma solução para separar empregados e patrões que permaneceram vivendo juntos após a abolição, em 1888. Com o crescimento das cidades e a verticalização urbana, as novas soluções de moradia mantiveram soluções arquitetônicas que perpetuam a separação entre patrões e empregados.

Ao propor um projeto localizado em um condomínio de alto padrão de Nova Lima com a organização de uma zona íntima de 5 suítes com banheiro completo e rouparia e, paralelamente, uma zona de serviço composta de cozinha, lavanderia, despensa, depósito, quartos e banheiros para 8 empregados, o professor Otávio Curtiss incentiva os discentes a projetarem uma casa grande que incorpora a senzala e reforça os moldes de dominação em pleno século XXI. O programa da disciplina, agravado pelo nome, explicitamente fere e desrespeita estudantes que, em diferentes níveis, conseguem subverter a ordem escravista ainda existente no Brasil.

Sendo assim, questionamos a quem contempla a construção da grade curricular e a arquitetura fomentada pela universidade na formação dos alunos do curso voltada para uma classe elitista, a qual parte dos graduandos da escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, pretos, pobres e advindos de escolas públicas, não pertencem. Com essa proposta, o professor Otávio Curtiss reforça os padrões sociais que vão ao encontro das estruturas do Brasil Colônia e fogem da realidade da maioria dos indivíduos que compõem a população brasileira, utilizando a proposta da disciplina para justificar a produção de uma arquitetura racista.

Questionamos também a posição do Departamento de Projetos em permitir a oferta da disciplina uma vez que está explícita as problemáticas do termo e do conteúdo propostos. O racismo institucional presente na Escola de Arquitetura vai de encontro a todos os esforços de inclusão expressados pela UFMG. Mais uma vez, os setores reacionários da universidade estão pouco preparados para receber a diversidade sociocultural do novo perfil de seus estudantes, reforçando suas estruturas racistas e como elas representam uma forma de dominação na sociedade atual.

Dessa forma, ressaltamos nossa inflexibilidade em aceitar uma disciplina que perpetue o racismo. Exigimos um parecer do Departamento de Projetos em relação à pretensão do professor Otávio Curtiss e à proposta da disciplina, bem como seu cancelamento.

Diretório Acadêmico da Escola de Arquitetura e Design da UFMG”

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