Acusado de racismo, clipe de Mallu Magalhães levanta polêmica; cantora pede desculpas

Mallu Magalhães no clipe de “Você Não Presta”: polêmica e acusações de racismo – Foto: Reprodução

Texto atualizado em 24/5/2017:

Por Miguel Arcanjo Prado

Lançado há poucos dias, o clipe de Mallu Magalhães “Você Não Presta”, com letra e música da própria cantora, segue provocando debate na internet, onde o trabalho é acusado por muita gente de reforçar o racismo na maioria de suas imagens. A cantora pediu desculpas a quem se ofendeu com o clipe [leia declaração completa ao fim deste texto].

No clipe, Mallu aparece vestida em contraposição a bailarinos negros, que dançam semidespidos e com os corpos brilhando, o que não ocorre com a cantora. Uma das locações do clipe é uma sala com parede sem reboco que remete aos barracos de favela.

Em outra cena, os bailarinos negros surgem como se estivessem aprisionados atrás de grades enquanto Mallu canta os versos: “Eu convido todo mundo para minha festa, só não convido você porque você não presta”.

Em outra cena, Mallu usa uma camiseta com a frase “Oscar 2002”, ano histórico em que atores negros ganharam juntos as estatuetas de melhor ator e de melhor atriz, dadas, respectivamente, a Denzel Washington e Halle Berry. O ano de 2002 também é o do lançamento do filme brasileiro “Cidade de Deus”, referência evidente para o clipe.

Cena do clipe “Você Não Presta” de Mallu Magalhães traz bailarinos negros atrás de grades – Foto: Reprodução

“Alimenta a ideia do negro como selvagem e exótico”, diz ativista

Para a arquiteta, escritora e ativista Stephanie Ribeiro, é preciso debater o “discurso estético que vai desde a escolha cenográfica até a oposição do corpo dela branco, magro, todo vestido, ao corpo de dançarinos com curvas, negros, semivestidos e com corpos brilhando”.

“Isso é uma construção estética intencional que alimenta a ideia do negro como selvagem e exótico, oposto à figura do branco como iluminado e angelical”, declarou Stephanie em sua página em uma rede social.

Em declaração sobre o clipe, dada antes da polêmica, Mallu Magalhães disse: “A escolha dessa música como primeiro single foi por uma necessidade e vontade de quebrar o vidro, do meu trabalho, da minha carreira e da minha imagem… colocar pra fora uma energia de atitude, uma onda tão urbana quanto selvagem. E, até um aspecto rock, que eu sempre tive, desde o inicio do meu trabalho”.

Muitos negros interpretaram essa “onda tão urbana quanto selvagem” que Mallu fala como sendo a presença dos corpos negros em seu clipe.

Cena do clipe “Você Não Presta”, de Mallu Magalhães – Foto: Reprodução

A arquiteta prossegue: “A construção estética desse clipe não é banal, ela é intencional para uma cantora que está na Europa”, fala Stephanie, lembrando que “a imagem que vende na Europa é essa do negro exotificado”.

“O que é produzido no Brasil e vende para fora é estética do filme ‘Cidade de Deus’, do Safári na Favela, da ‘mulata exportação’ traficada para sexo, do Carnaval com foco na nudez negra feminina”, aponta Stephanie.

Atualmente, Mallu Magalhães vive em Portugual. Seu próximo show no Brasil está marcado para 26 de agosto em São Paulo.

Mallu Magalhães pede desculpas a quem se ofendeu

Veja, abaixo, a declaração completa da cantora, enviada por sua assessoria ao Blog do Arcanjo do UOL nesta quarta (24):

“Fico muito triste em saber que o clipe da música ‘Você não presta’ possa ter ofendido alguém. É muito decepcionante para mim que isso tenha acontecido. Gostaria de pedir desculpas a essas pessoas. Meu trabalho e minha mensagem têm sempre finalidade e ideais construtivos, nunca, de maneira nenhuma, destrutivos ou agressivos.

A arte é um território muito aberto e passível de diferentes interpretações e, por mais que tentemos expressar com precisão uma ideia, acontece de alguns significados, às vezes, fugirem do nosso controle.

Sei que o racismo ainda é, infelizmente, um problema estrutural e muito presente. Eu também o vejo, o rejeito e o combato.

Li cada uma das críticas, dos posts e comentários, e o debate me fez refletir muito sobre o tema. Entendo as interpretações que derivaram do clipe, mas gostaria de deixar claro minhas reais intenções.

A ideia era ter um clipe com excelentes dançarinos que despertassem nas pessoas a vontade de dançar, de se expressar. Foram convidados pela produtora e pelo diretor os bailarinos Bruno Cadinha, Aires d´Alva, Filipa Amaro, Xenos Palma, Stella Carvalho e Manuela Cabitango. Com a última, inclusive, tive a alegria de fazer aulas para me preparar para o vídeo.

É realmente uma tristeza enorme ter decepcionado algumas pessoas, mas ao mesmo tempo agradeço a todos por terem se expressado. E reitero o meu pedido de desculpa. É uma oportunidade de aprender.

Espero que, após este esclarecimento, seja aliviado deste espaço de conversa qualquer sentimento de ofensa ou injustiça, ficando os fundamentos nos quais tanto acredito: a dança, a arte e o convite à música.

Mallu Magalhães

“Senzala”

Recentemente, outra famosa se envolveu em polêmica de racismo. Luciana Gimenez, apresentadora da Rede TV!, chamou de “senzala” a cozinha onde estavam seus empregados em um vídeo publicado por ela mesma.

Sobre o caso, o Coletivo Sistema Negro afirmou: “Senzala não é brincadeira. Senzala é violência, é dor, é o território específico da desumanização que por quatro séculos nós negros sofremos nesse país. Senzala é o lugar do abandono, da invisibilidade”.

Siga Miguel Arcanjo Prado no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Please follow and like us: