Crítica: Peça com Dan Stulbach critica polícia e Estado corruptos

Dan Stulbach e Maíra Chasseraux em cena da peça - Foto: João Caldas

Dan Stulbach e Maíra Chasseraux em cena da peça – Foto: João Caldas

Por Miguel Arcanjo Prado

Os espectadores que chegam para assistir ao espetáculo “Morte Acidental de um Anarquista” logo são recebidos pelo elenco – com exceção de Dan Stulbach, que permanece no palco – com música vibrante, criando um clima de trupe e cumplicidade.

O enredo do texto escrito pelo italiano Dario Fo logo é apresentado por Stulbach e Henrique Stroeter ao público, que é estimulado a contribuir com elementos que mais tarde serão inseridos na dramaturgia.

Não há a tentativa de gerar a ilusão do drama, mas sim de fazer um teatro épico, revelando o processo teatral e, teoricamente, expondo o ponto de vista dos artistas sobre a história, com a quebra a quarta parede, aquela imaginária que separa público dos artistas.

Com as indicações dadas, inclusive a da pauta musical (executada ao vivo por Rodrigo Geribello), a peça dirigida por Hugo Coelho aposta no virtuosismo dos atores em cima do palco, com direito a improvisos e clima de jogo teatral — em alguns momentos Dan Stulbach chega a lembrar Paulo Autran.

Além de Stulbach e Stroeter, Maíra Chasseraux, Riba Carlovich, Marcelo Castro e Rodrigo Bella Dona compõem o elenco que conta a história de um louco que vai parar na delegacia e finge ser um importante juiz. Neste interim, uma jornalista investiga a morte de um anarquista, um “suicídio” que teria sido um assassinato de responsabilidade dos policiais.

Com denúncia de um Estado corrupto, a plateia logo faz associações com o Brasil atual, mergulhado em uma crise política sem fim. Assim, o espetáculo consegue ter, de certa forma, um viés crítico, mas sem deixar de todo o lugar de entretenimento. Tudo depende do ponto de vista de quem assiste.

A primeira versão da peça no Brasil, com Antonio Fagundes e direção de Antonio Abujamra, em 1980, ganhou forte conotação política na época, sendo associada ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura civil-militar.

Desta vez, contudo, a obra deixa nas mãos do público fazer as leituras de acordo com as referências de cada um. Tal falta de posicionamento é o ponto mais frágil da encenação, sobretudo em um lugar no qual estudantes e pobres são comumente torturados por policiais em pleno século 21 com a conivência das autoridades públicas.

“Morte Acidental de um Anarquista” * * *
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 21h30, sábado, 20h e 22h30, domingo, 20h. 90 min. Até 18/12/2016
Onde: Teatro Folha – av. Higienópolis, 618, Shopping Pátio Higienópolis, São Paulo – tel. 11 3823-2323
Quanto: R$ 40 a R$ 70
Classificação etária: 12 anos

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