“Gosto de teatro ácido”, diz Mauro Baptista Vedia, de “A Festa de Abigaiu”

O cineasta e diretor de teatro Mauro Baptista Vedia - Foto: Heloisa Bortz

O cineasta e diretor de teatro Mauro Baptista Vedia – Foto: Heloisa Bortz

Por Miguel Arcanjo Prado

Um grande sucesso dos palcos paulistanos celebra dez anos de montagem: “A Festa de Abigaiu” está de volta ao cartaz, desta vez no Teatro Jaraguá, em São Paulo.

A obra escrita pelo dramaturgo inglês Mike Leigh conta o encontro de cinco amigos da classe média britânica em uma casa londrina em 1977. A obra marcou a estreia como diretor de teatro do cineasta uruguaio Mauro Baptista Vedia, nascido em Montevidéu e naturalizado brasileiro, diretor do filme “Jardim Europa” e doutor pela Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo).

Estreada em 2007, a peça logo conquistou público e crítica, mesmo “sem atores famosos no elenco ou patrocínio”, como lembra o diretor. Estão em cena Ana Andreatta, Eduardo Estrela, Ester Laccava, Fernanda Couto e Kiko Vianello.

Nesta conversa com o Blog do Arcanjo do UOL, Baptista Vedia fala sobre a volta do espetáculo tão importante em sua carreira, revela futuros projetos e ainda confessa qual teatro faz sua cabeça. Leia com toda a calma do mundo.

"A Festa de Abigaiu" está de volta ao cartaz - Foto: João Caldas

“A Festa de Abigaiu” está de volta ao cartaz – Foto: João Caldas

Miguel Arcanjo Prado – Como foi retomar esta peça quase dez anos depois da estreia?
Mauro Baptista Vedia –
Foi muito legal, retomar velhas parcerias, atores amigos, colaboradores deste projeto e de outros que fiz, como Ester Laccava e Maite Chasseraux, no meu longa “Jardim Europa”, Eduardo Estrela, na minha segunda peça, “Êxtase”, Kiko Vianello, que atuou na terceira peça de Mike Leigh que dirigi, Ana Andreatta, idem, Fernanda Couto, atriz do meu telefilme “A Performance”.

Miguel Arcanjo Prado – O que mudou e o que permanece igual?
Mauro Baptista Vedia – Tirei duas pequenas cenas que nunca me deixaram contente, e coloquei outras duas que tinha cortado na primeira estreia, duas cenas muito legais, uma em que as mulheres da peça falam das estrelas de cinema e casamento e sexo, e outra na qual o personagem Lawrence agride de forma sutil e política o casal de uma condição social inferior.

Miguel Arcanjo Prado – Por que você acha que esta peça faz tanto sucesso?
Mauro Baptista Vedia – O texto, agudo, muito original e contemporâneo, que remete muito a um tipo de cinema realista e de crítica social com humor negro. As personagens, banais, comuns e extraordinárias ao mesmo tempo, o elenco, excelente, com cada ator numa simbiose. A linguagem, que lembra muito cinema e sitcons contemporâneos, a trilha que escolhi, pop, dos anos 1970, e bem familiar e ingênua, os tempos da peça, muito particulares e precisos.

Miguel Arcanjo Prado – Como você definiria estes personagens que habitam a peça?
Mauro Baptista Vedia – Personagens do cotidiano, banais, muito realistas, muito bem ancorados socialmente na sua classe social e no seu trabalho.

Miguel Arcanjo Prado – Qual é o maior trunfo do texto de Mike Leigh?
Mauro Baptista Vedia –
A construção das personagens, a pesquisa profunda e ao mesmo tempo pouco metafórica, bem concreta e materialista, sobre as personagens. A trama, que parece tão natural que não parece trama, mas ao mesmo tempo tem uma costura impecável das pequenas coisas do cotidiano.

"A Festa de Abigaium mostra um exposivo encontro, repleto de crítica social e de costumes - Foto: João Caldas

“A Festa de Abigaiu”: um explosivo encontro, repleto de crítica social e de costumes – Foto: João Caldas

Miguel Arcanjo Prado – O fato de você também ser cineasta muda seu olhar como diretor de teatro?
Mauro Baptista Vedia –
Sim, eu não tenho formação específica no teatro. “A festa de Abigaiu” é a primeira peça que dirigi, sem eu nunca ter trabalhado antes no teatro, sem ter tido nenhum tipo de experiência, nem como ator nem como técnico.

Miguel Arcanjo Prado – Você tem novos projetos em vista no teatro? E no cinema?
Mauro Baptista Vedia –
Tenho. No cinema estou trabalhando num roteiro, vou para a quinta versão, chamado “Uma Banda”. Conta a história de um escritor e pianista que dá uma festa, bem informal, numa noite de chuva torrencial na Barra Funda [bairro paulistano]. No elenco, estarão Alexandre Nero, como o protagonista, Alessandra Negrini, como sua namorada, e Milhem Cortaz, o amigo maluco do protagonista. Além disso, estou filmando um documentário sobre a volta de “A Festa de Abigaiu”, chamado “Em busca de Abigaiu”, um doc em primeira pessoa. No teatro, uma peça de Marcelo Mirisola e Nilo Oliveira, com Ester Laccava e eu como ator.

Miguel Arcanjo Prado – Qual tipo de teatro você gosta de fazer?
Mauro Baptista Vedia –
Um teatro ácido, que misture gêneros, reúna inteligência e diversão, razão e emoção. Um teatro de performances e tempos bem calculados. Um teatro que utilize o humor, negro, inteligente, como via de crítica social.

Miguel Arcanjo Prado – Qual conselho você daria a um jovem diretor iniciante?
Mauro Baptista Vedia –
Veja muitos filmes, veja muitas peças, leia muito, tente viajar e ver todo tipo de teatro e de cinema.

“A Festa de Abigaiu”
Quando: Sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h. 100 min. Até 27/11/2016
Onde: Teatro Jaraguá – Rua Martins Fontes, 71, Bela Vista, São Paulo, tel. 11 3255-4380
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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