Com diálogo e turbulências, FIT-BH uniu teatro e performance

Picnic Dionisíaco marcou 13º FIT-BH - Foto: Glenio Campregher

Picnic Dionisíaco marcou 13º FIT-BH – Foto: Glenio Campregher

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Belo Horizonte (MG)*

Depois de 70 atrações em dez dias chegou ao fim neste domingo (29) a 13ª edição do FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte) com o “Último Ato”, no Viaduto Santa Tereza, cartão postal mineiro, ocupado por teatro e performances.

Esta edição teve público ávido por espetáculos e atividades formativas, mas também registrou turbulências com a classe artística local e até mesmo na curadoria. Entretanto, momentos sublimes ficarão na memória, como a peça francesa “Les Girafes”, que impactou a multidão com suas girafas vermelhas, misturando-se a um protesto de apoio à presidente afastada Dilma Rousseff com artistas, públicos e manifestantes formando um só grupo.

Girafas vermelhas gigantes impactaram FIT-BH - Foto: Alexandre Guzanshe

Girafas vermelhas gigantes impactaram FIT-BH – Foto: Alexandre Guzanshe

Imprevistos também marcaram o 13º FIT-BH, como o acidente com a atriz francesa Caroline Forestier, que despencou do cenário e teve ferimentos leves, assim como duas espectadoras. Outro susto foi com a atriz transexual escocesa Jo Clifford, sucesso no festival e que desmaiou durante a última sessão da peça “The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven” no Museu Mineiro — após ficar internada, a atriz já teve alta.

Entre as peças, além de “The Gospel…”, outras quatro merecem destaque: “Real”, do Grupo Espanca!, com um olhar ferino para a violência no Brasil atual; “Mi Hijo Sólo Camina un Poco Más Lento”, montagem argentina com atores talentosos sobre uma família em conflito; “Calor na Bacurinha”, do grupo mineiro Bacurinhas, com um discurso feminista potente e politizado; e as ucranianas da Dakh Daughters Band, com seu show musical virtuoso e performativo.

Gaymada divertiu o público no Parque Municipal de BH - Foto: Daniel Protzner

Gaymada divertiu o público no Parque Municipal de BH – Foto: Daniel Protzner

Atividades paralelas performativas como a “Gaymada”, um jogo de queimada “fechativo” em prol do respeito à diversidade sexual, e o “Picnic Dionisíaco”, com frutas e festa, também atraíram um público empolgado. Houve também seminários, debates e lançamento de livros. O Quintal do FIT, ponto de encontro após as peças, ferveu mais na reta final do festival, quando os canhotos dos ingressos das peças passaram a valer como entrada. Houve  concentração dos espetáculos na região central de BH — em edições passadas o festival já foi a bairros mais afastados do centro, conquistando novos públicos.

O palhaço chileno Tuga nos braços do povo - Foto: Glenio Campregher

O palhaço chileno Tuga nos braços do povo – Foto: Glenio Campregher

“Diálogo, escuta e diversidade”

Jefferson da Fonseca Coutinho, diretor de artes cênicas e música da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, diz que o “FIT-BH é uma plataforma de diálogo, escuta, diversidade, construção”. “É muito simbólico, neste momento em que o país vive uma desconstrução, que os olhos da cultura nacional estejam voltados para Belo Horizonte. O FIT-BH, que tem 22 anos e 13 edições, encontrou novos e velhos parceiros”, afirma. Durante o evento, foi lançada a parceria do FIT-BH com a MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo) e o CIT-Ecum (Centro Internacional de Teatro Ecum), dirigidos por Guilherme Marques, mineiro radicado em São Paulo. “Eu fui formado no FIT-BH e sempre vou lutar por este festival”, diz Marques.

Para o diretor Marcelo Castillo, do grupo La Cochera, de Córdoba, Argentina, que acompanhou de perto a programação do FIT-BH pela terceira vez, o evento “é um ponto de encontro do teatro latino-americano”. “Belo Horizonte tem muita vida cultural e um teatro alucinante, com grupos reconhecidos internacionalmente, como o Grupo Galpão, que marcou uma forma de se fazer teatro na América Latina”, fala.

"Mi Hijo Camina", da Argentina: aula de atuação - Foto: Daniel Protzner

“Mi Hijo Camina”, da Argentina: aula de atuação – Foto: Daniel Protzner

O festival foi espaço de aprendizado para muitos, como a relações públicas Ana Cecília Assis, que trabalhou como produtora no evento: “O FIT-BH é o encontro de várias culturas, não só do povo do teatro, mas também de muitos que não tem acesso a bens culturais. Trabalhar como produtora me fez entender melhor como funciona a cultura em Belo Horizonte e como as pessoas ocupam este espaço”.

Para Coutinho, Belo Horizonte tem vocação para o espaço público, “não só como lugar de passagem como também de ocupação”. Por isso, pesquisadores entrevistaram o público para levantar indicadores sociais, culturais e econômicos sobre o evento, que foi realizado com dificuldade financeira.

Ucranianas da Dakh Daughters Band: virtuosismo - Foto: Daniel Protzner

Ucranianas da Dakh Daughters Band: virtuosismo – Foto: Daniel Protzner

“Neste ano, que tivemos corte de recursos. Foi um FIT da parceria, da conversa. Muitos grupos internacionais se esforçaram em seus países, trazendo novos parceiros para viabilizar essa vinda a Belo Horizonte”, releva. Na visão de Coutinho, a cidade abraçou o FIT-BH: “A vocação de Belo Horizonte é para a cultura e o encontro, é muito importante que a sociedade e o poder público percebam isso. Se está complicado na esfera nacional a compreensão do que é cultura, eu acho que isso pode alimentar, fortalecer e empoderar as cidades. Acho que para ser universal a gente tem de cantar nossa aldeia, parafraseando Tolstói. Belo Horizonte está aprendendo a cantar sua aldeia”, define.

Turbulências e conflitos

Apesar de participar do evento, a classe artística de Belo Horizonte também questionou o FIT-BH nestes últimos dias. Assis Benevenuto, ator da peça “Real”, do grupo mineiro Espanca!, dramaturgo da peça “Rosa Choque” e editor da Javali, que lançou livros sobre teatro no evento, aponta alguns motivos para esta inquietação. “Neste ano para as peças locais não houve uma curadoria pública. Isso mostra um afastamento da Fundação Municipal de Cultura em relação aos grupos da cidade. Os grupos não sabiam se estavam sendo vistos, e muitas peças com temáticas importantes ficaram de fora”, lamenta.

Assis Benevenuto no colo de Alexandre de Sena em Real - Foto: Kika Antunes/Divulgação

Assis Benevenuto no colo de Alexandre de Sena em Real – Foto: Kika Antunes/Divulgação

Dois curadores, Eduardo Moreira e Diego Bagagal, deixaram a equipe do FIT-BH por não concordarem com a direção. A curadoria ainda teve Walmir José e Dayse Belico, que fez a coordenação executiva do festival. As peças locais foram escolhidas por Carloman Bonfim, Luiz Hippert e Sérgio Abritta.

Benevenuto fala: “O FIT é muito importante, mas a minha experiência é de um esfriamento nas relações. O FIT sempre é e vai ser importante, mas vi vários artistas questionando grupos e peças que vieram participar, sobretudo em relações a questões éticas e étnicas”.

No começo do mês, uma carta de repúdio da comunidade negra foi divulgada, criticando o fato de o FIT-BH de não contemplar nenhuma montagem que tratasse da temática negra em sua programação. Outro manifesto, lido ao fim de alguns espetáculos, acusou o FIT-BH de “antidemocrático”, por não abrir edital público para as peças locais, e de “racista”, pela ausência do teatro negro na programação. A direção do festival promoveu encontro com os artistas negros e se disse aberta ao diálogo. Quanto à acusação de o FIT-BH não ser democrático, Coutinho afirmou que “é leviana” e disse que os órgãos de representação artística na cidade foram procurados e ouvidos pelo festival.

Calor na Bacurinha, uma das sensações do FIT-BH - Foto: Guto Muniz

Calor na Bacurinha, uma das sensações do FIT-BH – Foto: Guto Muniz

“A classe artística de Belo Horizonte está cada vez mais politizada e agregada. Por isso estamos mesmo com o pé na porta para que as coisas aconteçam de outra forma mais democrática”, define Benevenuto. Carlos Rocha, o Carlão, um dos fundadores do FIT-BH e diretor de muitas de suas edições, reitera que é fundamental o cuidado com a cena local. “Precisamos repensar novas políticas de apoio aos grupos de Belo Horizonte, a potência do festival está no trabalho dos grupos”, declara.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT-BH.

Leia a cobertura completa do FIT-BH no Blog do Arcanjo no UOL

Público lota cartão postal mineiro na despedida do FIT-BH - Foto: Alexandre Guzanshe

Público lota cartão postal mineiro na despedida do FIT-BH – Foto: Alexandre Guzanshe

Please follow and like us:
Crítica | Anitta maceta sons do Brasil no álbum À Procura da Anitta Perfeita e supera críticas com hits do verão Brasil e Argentina se beijam na Copa do Mundo do Qatar 2022 Após críticas, Nômade Festival coloca negros com Erykah Badu Festival de Curitiba anuncia novidades em 2023 II Expo Internacional Consciência Negra SP