Crítica: Calor na Bacurinha é protesto feminista sem vergonha nem culpa

Calor na Bacurinha é sensação no FIT-BH - Foto: Guto Muniz

Calor na Bacurinha é sensação no FIT-BH – Foto: Guto Muniz

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Belo Horizonte (MG)*

A sociedade brasileira tem visto uma maior conscientização das mulheres sobre a opressão que sofrem num mundo onde o poder ainda é masculino. A peça “Calor na Bacurinha”, do grupo belo-horizontino Bacurinhas, é um dos exemplos do empoderamento feminino recente tão necessário, mas ainda combatido por muitos que não querem uma sociedade de igualdade e respeito entre os gêneros.

A obra é um dos sucessos de público e de repercussão nesta 13ª edição do FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte). Na montagem, o elenco, majoritariamente feminino — há apenas um homem que invoca a transexualidade —, está completamente desnudo, com corpos purpurinados.

Leia a cobertura completa do FIT-BH no Blog do Arcanjo no UOL

Ana Cecília Silva Corgosinho, Ana Reis, Anaís Della Croce, Fernanda Rodrigues, Idylla Silmarove, Ju Abreu, Maíra Baldaia, Michelle Sá e Rafael Lucas Barcelar apresentam-se livres de amarras morais (ou cristãs) para carnavalizar seus corpos e as relações de gênero em um palco estimulado por uma trilha sonora potente e repleta de paródias debochadas e politizadas.

Calor na Bacurinha: mulheres sem redes nem amarras - Foto: Guto Muniz

Calor na Bacurinha: mulheres sem redes nem amarras – Foto: Guto Muniz

A direção de Marina Viana transforma muitas vezes a cena em um show de cabaré, sem contudo perder a potência do discurso político que a obra tem. A diretora joga junto com seu elenco, e ao fim entra em cena para despir-se também.

A peça ainda abarca a ebulição política dos dias atuais. A presidente afastada Dilma Rousseff (PT) é celebrada na peça, e seu impeachment é comparado a um ato machista pelas artistas, que lembram, no palco, que o ministério do presidente internino Michel Temer (PMDB) “não tem mulher nem preto”, sendo aplaudidas em cena aberta pelo público.

O empoderamento feminino abre espaço também para falar de preconceito racial, problematizando a mulher negra e as perseguições sociais que esta sofre. Mas engana-se quem pensa que a peça possa ser apenas um lamento discursivo chato e modorrento.

Muito pelo contrário, “Calor na Bacurinha” é uma encenação viva, lasciva e que conquista o público para dentro daquele ambiente de mulheres livres. O contexto da sociedade mineira, tão patriarcal e tradicionalista, faz a peça ser ainda mais interessante, provocativa e potente.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT-BH.

“Calor na Bacurinha” * * * *
Avaliação: Muito bom

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