Entrevista de Quinta – Ator Gabriel Estrëla, que contou viver com o HIV, adianta como será musical Boa Sorte

O ator Gabriel Estrëla, que faz o musical Boa Sorte, que trata da temática de viver com HIV - Foto:  João P. Teles/Divulgação

O ator Gabriel Estrëla, que faz o musical Boa Sorte, que trata da temática de viver com HIV – Foto: João P. Teles/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto JOÃO P. TELES

Nas últimas semanas, o ator Gabriel Estrëla, de 23 anos, tem recebido uma quantidade enorme de carinho. Afinal, no último dia 13 de julho, coincidentemente o Dia Mundial do Rock, teve uma atitude de coragem: resolveu apertar enter em um texto no qual compartilhou com o mundo que convive com o vírus HIV há cinco anos.

A postura roqueira vai além da internet. Gabriel resolveu transformar sua história no Projeto Boa Sorte, cujo ponto crucial é a estreia do musical Boa Sorte, em Brasília, no mês de outubro.

Cria da cena musical no Distrito Federal, já atuou em textos emblemáticos como Rent e Hair e estuda artes cênicas na Universidade de Brasília. Ele ainda integrou montagens que fizeram sucesso na capital federal, como Os Saltimbancos e Flicts, e também Brasil afora, caso de Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – As Canções de Odair José, musical escrito e dirigido por Sérgio Maggio.

Gabriel nasceu em Goiânia, mas vive em Brasília desde os três anos.

O artista conversou, com exclusividade, com o site, nesta Entrevista de Quinta. Fala sobre o importante momento de sua vida, conta como tem sido a reação das pessoas à notícia do HIV, descreve o encontro com a cantora Vanessa da Mata e ainda revela quem é que está ao seu lado o tempo todo.

Leia com toda a calma do mundo.

Gabriel Estrëla no camarim: serão dois meses de ensaio de Boa Sorte - Foto: João P. Teles/Divulgação

Gabriel Estrëla no camarim: serão dois meses de ensaio de Boa Sorte – Foto: João P. Teles/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que passou por sua cabeça antes de apertar enter no texto e anunciar que você era portador do vírus HIV? Ficou com medo?
GABRIEL ESTRËLA — O Projeto vem de uma necessidade muito forte minha de compartilhar o que eu estava passando. A gente nunca sabe quando uma história nossa pode ajudar alguém. Então, tive medo, sim, medo de as pessoas serem frias, não reagirem, se manterem indiferentes a questão do HIV/Aids no presente. Mas não poderia deixar esse medo ser maior do que o Projeto, então apertei!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Outro artista que teve coragem como a sua foi Cazuza. Ele é uma referência para você?
GABRIEL ESTRËLA — Cazuza, Renato Russo, Freddie Mercury, e também Foucault e Caio Fernando de Abreu — todos eles foram referências. Fizeram, em seu tempo, o que puderam pela epidemia! Não podemos negar o peso do vírus na obra deles, independentemente do que falavam sobre o assunto. Lança a questão, entende? Quanto de vírus há nessa canção? Quanto desse pensamento é Foucault? Quanto dele é HIV? É difícil mensurar o impacto do vírus em nossas vidas e naquilo que produzimos. Mas precisamos entender que os tempos mudaram, a epidemia tem novas particularidades e, por isso não pode se basear apenas em exemplos das décadas de 80 e 90.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como será a estrutura do musical?
GABRIEL ESTRËLA — A ideia é que seja um musical intimista, um show acústico. A MPB traz muito esse clima, de barzinho, de violão, de voz no pé do ouvido. E é justamente essa proximidade que queremos gerar com a plateia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Já tem data de estreia e teatro?
GABRIEL ESTRËLA — A estreia está marcada para 22 de Outubro, em Brasília e ainda estamos fechando a casa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E os ensaios, onde e como serão?
GABRIEL ESTRËLA — Os ensaios serão feitos em uma escola pública e serão no mínimo frenéticos. Mal temos dois meses para montarmos tudo! É pouco, mas a nossa realidade é essa – ainda não há investimento, então, corremos contra o tempo!

Vanessa da Mata recebe Gabriel Estrëla em seu camarim - Foto: Gabriel Martins/Divulgação

Vanessa da Mata recebe Gabriel Estrëla em seu camarim – Foto: Adriana Morais/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você se inspirou na música da Vanessa da Mata, Boa Sorte, para fazer o musical. Soube que tiveram um encontro nos últimos dias. Como foi que a cantora lhe recebeu?
GABRIEL ESTRËLA — A Vanessa foi muito atenciosa ao me receber. Mesmo na correria de fim de show, me recebeu no camarim, ouviu o que eu tinha a dizer com muito carinho e levou pra casa o Projeto da peça! Tiramos foto com as Borboletas do projeto do Unaids: Zero Discriminação. É muito emocionante pra mim que ela esteja sabendo do meu trabalho – foi a música dela Boa Sorte, que eu ouvi na sala de espera do laboratório, que me deu o diagnóstico, antes mesmo de a médica fazê-lo e, por isso, é o ponto de partida da peça! Agradeço demais à produtora Adriana Morais que fez esse encontro ser possível! Ainda vou tentar encontrar também outros compositores que tem música na peça como o Moska e o Humberto Gessinger, que eu já admirava muito como ouvinte e que me ajudaram a traduzir cenas que eu não saberia descrever sem suas músicas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você pretende viajar pelo Brasil com a produção?
GABRIEL ESTRËLA — O Projeto Boa Sorte (de onde sai a peça Boa Sorte) acabou se tornando algo muito maior. Recentemente tenho trabalhado em contato com o UNAIDS e o Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e isso tem me aberto os olhos para o quanto a epidemia é complexa no Brasil. A vontade de viajar é muito [reforçando] grande e tenho recebido mensagens de vários lugares expressando interesse em nos receber. Mas é importante que tenhamos tempo para nos adaptar as realidades de cada região, fazer ajustes de linguagem, estudar… A peça encerra com um bate-papo e com certeza os temas que surgirão em Brasília não serão os mesmos que no Norte ou Sudeste, por exemplo.

Exemplo de coragem: depois que revelou viver com o HIV, Gabriel Estrëla tem recebido contato de outras pessoas que também convivem com o vírus - Foto: João P. Teles/Divulgação

Exemplo de coragem: depois que revelou viver com o HIV, Gabriel Estrëla tem recebido contato de outras pessoas que também convivem com o vírus – Foto: João P. Teles/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Depois que você anunciou o projeto Boa Sorte e também a contaminação, como tem sido a reação das pessoas?
GABRIEL ESTRËLA — Tem uma ironia linda nisso… Meu manifesto foi sobre as Pessoas Vivendo com HIV/Aids (PVHA) sentirem necessidade de se esconder. E agora é bom demais ver o quanto aos pouquinhos elas saem da toca. Vieram conversar comigo, contar algumas histórias (muitas infinitamente mais emocionantes que a minha) e isso é um passo muito importante. Eu só cheguei a contar para “o mundo” porque antes, aos pouquinhos, ia contando para as pessoas à minha volta. Contava sempre para profissionais de saúde, contava para amigos próximos, familiares… Sempre busquei falar a respeito, como se eu estivesse me treinando pra poder gritar eventualmente. Então, Miguel, queria aproveitar também o gancho pra colocar que algumas PVHA (Pessoas Vivendo com HIV/Aids) se sentem ofendidas com o termo “contaminação” – parece coisa de filme de zumbi [risos]; então a gente prefere falar sobre a infecção ou a sorologia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Muito bem colocado. São pessoas como você que vão nos ensinando a lidar melhor com este tema sem preconceito e com os termos adequados. Faz muito bem e a sociedade precisa de mais pessoas como você. Qual a principal mensagem que quer levar ao público com seu musical Boa Sorte?
GABRIEL ESTRËLA — Falar de “mensagem”, em arte, é sempre complicado porque ela sempre abre possibilidade para inúmeras leituras da obra. Mas o Projeto tem como intenção geral fazer mais pessoas sentirem a Sorte que eu senti. Se conseguirmos sensibilizar e informar pelo menos uma pessoa em cada plateia, pode ser que alguma Pessoa Vivendo com HIV/Aids tenha uma abertura maior para poder falar a respeito e isso é importantíssimo para o tratamento. Não ter que esconder consultas, exames, remédios pode facilitar demais a vida dessas pessoas. Poder contar com alguém em momentos de crise, poder aos pouquinhos rir da situação, encontrar graça, leveza… Por isso, por exemplo, procurei justamente a Jout Jout para fazer o vídeo. Queria que fosse leve, chega de fazer terrorismo com HIV – nós não somos terroristas! Somos pessoas… A gente chora hoje, ri amanhã. O vírus continua, e daí?

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quem mais lhe apoia neste momento?
GABRIEL ESTRËLA — A família talvez fique com ciúme de eu dizer isso (risos), mas com certeza é meu namorado, Gabriel Martins. Ele administra a página do Facebook junto comigo, faz as artes maravilhosas (tanto o design quanto o conteúdo – ele estuda à beça!!!) e ouve todas as minhas angústias. É de uma gentileza e uma doçura sem igual. Ele, soronegativo, tem uma sensibilidade para o HIV que eu, depois de cinco anos vivendo com o vírus, ainda não tenho.

Gabriel Estrëla quer "sensibilizar e informar pelo menos uma pessoa em cada plateia" - Foto: João P. Teles/Divulgação

Gabriel Estrëla quer “sensibilizar e informar pelo menos uma pessoa em cada plateia” – Foto: João P. Teles/Divulgação

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