Moraes Musical Moreira demonstra força do teatro musical baiano ao contar história do ícone

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial a Salvador da Bahia*
É emblemático que Moraes Musical Moreira nasça em plano Campo Grande, praça emblemática para o Carnaval de Salvador, onde fica o histórico palco do Teatro Castro Alves, na Bahia. Afinal, o lugar tem tudo a ver com a vida e obra do gênio homenageado Moraes Moreira (1947-2020), integrante dos Novos Baianos e o primeiro cantor de trio elétrico da história.
A Cidade da Bahia aplaudiu fortemente o espetáculo da Maré Producções Culturais, produzido por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura e patrocínio da BB Seguros, com direito a presenças ilustres na plateia, como de Paulinho Boca de Cantor, amigo íntimo de Moraes Moreira e companheiro de Novos Baianos, e Armandinho, o icônico músico criador da guitarra elétrica do Carnaval baiano, que assim que acabou a peça, subiu ao palco e bradou: “Viva Moraes Moreira!”, sendo ovacionado por uma plateia que incluía nomes como o roteirista Elísio Lopes Jr., o coreógrafo José Carlos Arandiba, o Zebrinha, a cantora Márcia Castro e o jornalista Marrom.

Ao fim do espetáculo, Paulinho Boca de Cantor estava emocionado e lembrou a forte amizade que teve com Moreira. “Que bom participar dessa história! Que bom ter sido amigo na música, na vida desse cara! A gente era tão junto que às vezes a minha mulher dizia para mim: ‘O seu namorado tá lhe ligando'”, contou em pleno palco, ao lado do elenco, provando riso da plateia lotada. “Ele me ligava dez vezes por dia. Tínhamos uma ligação muito forte. E é até hoje! Porque ninguém vai embora quando deixa essas canções maravilhosas no coração da gente! Viva Moraes Moreira! Sempre Moraes Moreira! Viva Moraes!”, excladou, sendo fortemente aplaudido.

Também no palco após os fortes aplausos, a diretora do espetáculo, Ana Paula Bouzas, celebrou a força do teatro baiano ao contar suas próprias histórias. “Que bom ter todos vocês aqui. O teatro baiano e os artistas baianos que vivem nesse palco merecem que vocês estejam com a gente. Porque tudo faz sentido quando a gente se encontra. Muito obrigada”, pontuou, agradecendo a plateia da mais importante sala teatral baiana.

Moraes Musical Moreira marca o início da celebração à memória e à obra de um dos maiores gênios da música popular brasileira. O projeto antecipa as homenagens aos 80 anos que o cantor e compositor completaria em 2027, propondo um mergulho visceral em sua trajetória desde a infância interiorana em Ituaçu, no sertão da Bahia, até o epicentro criativo dos Novos Baianos e a consagração como o primeiro cantor de trio elétrico da história, além de compositor de hits de outros artistas, como Festa do Interior, canção eternizada por Gal Costa.

Bahia produz teatro musical de qualidade
Mais do que uma biografia encenada, Moraes Musical Moreira é fruto da inquietação cultural e política que busca ampliar a rota de produção do teatro musical brasileiro para além do eixo Rio-São Paulo, colocando a produção de teatro musical nordestino no mapa cultural nacional e reforpando que a Bahia produz teatro musical de qualidade.
Sob o comando da produtora e idealizadora Fernanda Bezerra, da Maré Produções Culturais, a montagem firma a capital baiana como um centro gestor e incubador de grandes espetáculos de apelo nacional, a exemplo do sucesso de público e de crítica de Torto Arado – O Musical, também produzido pela Maré e vencedor, entre outros, do Prêmio Arcanjo de Cultura como Melhor Musical Brasileiro e que segue em turnê nacional.
A gênese de Moraes Musical Moreira está intrinsecamente conectada ao sucesso arrebatador da adaptação teatral de Torto Arado, baseada no best-seller do escritor baiano Itamar Vieira Junior e obra que já alcançou mais de 80 mil espectadores. Foi durante o percurso de Torto Arado que Fernanda Bezerra enxergou a urgência de dar continuidade à exaltação das narrativas genuinamente nordestinas.
Em entrevista exclusiva ao jornalista Miguel Arcanjo Prado nos bastidores da estreia de Moraes Musical Moreira, Fernanda Bezerra explicou como começou o projeto.
“O Moraes Musical Moreira surgiu a partir de uma vontade de começar a celebrar os 80 anos do Moraes Moreira, que é um dos principais cantores brasileiros. A Maré Produções, muito a partir do movimento do Torto Arado – O Musical, está querendo contar histórias mais nossas, mais nordestinas, com personagens nordestinos”, falou. “A gente fez agora Torto Arado, que a gente vai seguir adaptando a trilogia do Itamar Vieira Junior para o formato do teatro musical, e agora a gente homenageia o Moraes Moreira, que celebraria 80 anos em 2027.”

Estreia estratégica em Salvador traz o axé da Bahia
A decisão estratégica de estrear Moraes Musical Moreira na capital baiana não foi meramente geográfica, mas um ato de reverência ao ecossistema cultural da Bahia, berço artístico histórico do Brasil. Segundo Fernanda Bezerra, a energia do público baiano é o combustível indispensável para qualquer voo de longa duração.
“Queremos sempre começar por Salvador. Porque a gente tem que começar com o axé daqui para depois ir para o Brasil”, enfatizou a idealizadora e produtora com entusiasmo.
Capturar a amplitude de Moraes Moreira exigiu percorrer caminhos que vão do frevo de trio à literatura de cordel, passando pelo rock psicodélico, pelo samba de roda e pelo lirismo das festas juninas. Afinal, Moraes não se limitou a um único gênero; ele redefiniu a própria sonoridade do Carnaval baiano ao integrar sua voz às guitarras baianas do trio criado por Dodô e Osmar.

Para construir essa narrativa sem perder a autenticidade, a produção encontrou na poesia refinada de Fabio Espírito Santo o nome ideal para a dramaturgia. Ele conheceu Moraes Moreira em 2012, quando foi à casa do artista no Rio de Janeiro, para pesquisar mais sobre sua vida para um projeto teatral que não acabou vingando naquela época, mas que lhe deu oportunidade de ler rascunhos do livro que Moreira fazia sobre a própria vida. “Fiquei fascinado porque tinha, ali, no jeito de contar, algo que parecia fantasia, mas não era”.
Quis o destino que em 2025 Bezerra convidasse Espírito Santo para escrever Moraes Musical Moreira. “Foram meses ouvindo suas músicas, conhecendo a sua diversa e refinada discografia que exala brasilidade por todos os poros”. Foi assim que ele conheceu não só o músico, como também o cronista, o cordelista, o poeta. “A dramaturgia do msuical está repleta de Moraes”, confirma o dramaturgo, que apostou na diversidade de sua obra e escolheu a Musa Música como elemento condutor do fio narrativo. “Construí o espetáculo como um cordel trieletrizado, onde o eixo é a pluralidade musical de Moraes Moreira”, define.
Ana Paula Bouzas assina a direção sensível e brasileira que o espetáculo necessitava. “Ouvir Moares Moreira era ser corpo em festa”, poetiza. Em sua visão, o arista sempre revelou “o revolucionário poder do prazer”. Para encontrar esse estado, a criadora buscou a força “do coletivo, seus suores, humores, dores e amores”. E lembra: “Moreaes é um artista da rua, que vem do povo, criou para a massa, fez com sua gente”, espírito presente no espetáculo.
Fernanda Bezerra lembra que figuras próximas a Moreira deram sua bênção à produção. “Temos na estreia a família do Luís Galvão, e o Paulinho Boca, que foram integrantes dos Novos Baianos. E a família do Moraes Moreira deu apoio, não interferiu no processo criativo, isso foi bem bacana, porque a gente teve liberdade para criar. E é isso: a gente tem algumas cenas mostrando essa passagem dos Novos Baianos, mas Moraes Moreira é muita coisa, né? Moraes Moreira é São João, é Carnaval, é festa popular, então ele tem uma diversidade muito grande”, define Fernanda Bezerra.

Elenco unido para viver a música de Moraes Moreira
No palco, a responsabilidade de dar vida a Moraes Moreira cabe aos atores Rodrigo Sestrem e Cris Meirelles, com caracterização fidedigna e vozes impecáveis, além de Júlia Tizumba na pele da Musa Música. Eles se unem ao restante do elenco formado por Diana Ramos, Kadu Veiga, Luisa Muricy, Marcos Lopes, Mano Leone, Nana Nevez, Ofámirô, Rapha Gouveia, Sabiá e Saulo Ilogoni, formando um time coeso que vivencia no palco a música de Moraes Moreira, com destaque para a dança malemolente.
Outro pilar crucial de Moraes Musical Moreira é a valorização da prata da casa. Embora tenha realizado uma audição de alcance nacional para selecionar os talentos do espetáculo, a produção fez questão de descentralizar o eixo tradicional Rio-São Paulo, trazendo a banca e o processo seletivo para Salvador.

Da Bahia para o Brasil
Fernanda Bezerra detalha como o elenco foi articulado, unindo nomes consagrados por convite a jovens talentos revelados nas audições soteropolitanas.
“A gente fez uma audição nacional, e é bem bacana isso porque a gente tá trazendo artistas para virem fazer as audições aqui em Salvador. Tirando a Júlia Tizumba e o Cris Meirelles, que são mineiros, todos os outros do elenco são baianos. A gente está priorizando isso, artistas daqui pra gente levar para o Brasil.”
Esta visão fortalece um movimento mais amplo de profissionalização e permanência da cena teatral baiana, transformando Salvador em um polo gerador de espetáculos competitivos e de altíssimo nível técnico. Sobre esse momento efusivo do teatro na Bahia, Fernanda pontua que as sementes começam a germinar.
“Eu acho que a gente plantou sementes importantes”, diz Bezerra, citando artistas como Ofà Lówò, que era do elenco de Torto Arado e está em Gil – Andar com Fé, dirigido por Miguel Falabella e que estreia neste mês em São Paulo, e também Edu Coutinho, que interpretou Caetano Veloso em Gal, O Musical e está na assistência de direção de Moraes Musical Moreira.
“Temos na Bahia uma potência muito grande, e eu acho que esse movimento que a gente tá fazendo também, de puxar estreias e processos criativos para serem incubados aqui, está gerando isso. Porque aqui o artista vem, trabalha, se capacita e depois circula”, explica.
A produtora ainda celebra o interesse cada vez maior não só da classe artística e do público, como também pela imprensa especializada no teatro musical feito na Bahia. “A gente fica muito feliz em receber parceiros da imprensa como você, Miguel Arcanjo, ou a Maria Fortuna, de O Globo, que também está vindo cobrir. Porque é importante a gente ter esses veículos olhando para essas outras produções, sabe? E estarem dispostos a vir cobrir aqui na Bahia. Por isso, faço questão de agradecer vocês”, diz.
Moraes Musical Moreira cumpre a temporada de estreia no Teatro Castro Alves com apresentações de sexta a domingo até o fim de agosto com ingressos a partir de R$ 25 e uma sessão especial a preços popularíssimos (R$ 1,00) no dia 30 de agosto, o espetáculo inicia sua circulação pelo Brasil (compre seu ingresso). Fernanda Bezerra traça o percurso: “A gente faz Recife, Brasília e Rio de Janeiro. A priori a gente tem essas quatro cidades, mas a gente quer incluir São Paulo ainda no circuito, na verdade, São Paulo e Fortaleza, a gente está fazendo esse estudo” adianta.
Em Pernambuco, a montagem ocupará o Teatro Luiz Mendonça, em Recife, de 4 a 6 de setembro. Em seguida, aportará na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília, de 24 a 26 de setembro. A apoteose da temporada 2026 acontecerá no histórico Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio de Janeiro, onde o musical ficará em cartaz durante todo o mês de novembro (de 5 a 29/11).
Com a força da cultura brasileira e abrangência nacional a partir da gênese baiana, Moraes Musical Moreira reafirma que a memória dos grandes mestres da nossa cultura vive e se renova no talento exuberante das novas gerações de artistas que sobem ao palco para cantar a Bahia para o mundo.
*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a Salvador a convite da Maré Produções Culturais e Criativos.
Moraes Musical Moreira: Miguel Arcanjo mostra fotos da estreia no Teatro Castro Alves em Salvador pelo olhar do fotógrafo Caio Lírio

























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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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