Minha Estrela Dalva tem encontro de Renato Borghi e Dalva de Oliveira no Teatro do Sesi

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
A memória da música brasileira ganha um novo e sofisticado capítulo a partir de 28 de março. O Teatro do SESI, na Avenida Paulista, torna-se o palco de “Minha Estrela Dalva”, espetáculo que marca o retorno de Renato Borghi ao universo de Dalva de Oliveira, a “Rainha do Rádio”. Longe de ser uma biografia convencional, a montagem é um “delírio documentado” que entrelaça a trajetória de uma das maiores vozes do país com a história de formação do próprio Borghi, um dos pilares do teatro moderno nacional e fundador do Teatro Oficina.
A gênese desta produção remete à infância do artista. Aos seis anos, ao ouvir Dalva de Oliveira dar voz à Branca de Neve em um disco de 78 rotações, o ator iniciou o que descreve como uma paixão duradoura. “Ali, na vitrola da infância, nasceria uma paixão avassaladora e que atravessaria décadas, palcos e revoluções – culminando no encontro real e improvável entre fã e diva poucos anos antes dela nos deixar”, revela o dramaturgo e protagonista.
O espetáculo propõe um exercício de imaginação histórica: Borghi invade o camarim de sua musa para sugerir uma colaboração na qual a intérprete de sambas-canção entoaria as composições de Bertolt Brecht e Kurt Weill, fundindo o lirismo popular à crueza do teatro épico.
Uma nova Dalva
Para encarnar a complexidade de Dalva, a produção escalou Soraya Ravenle. A atriz, que iniciou sua carreira no coro de “A Estrela Dalva” em 1987 — montagem icônica de Borghi com Marília Pêra —, agora assume o protagonismo. Ravenle ressalta que sua abordagem não busca o mimetismo, mas a evocação da essência da cantora.
“Em cena, eu não a interpreto, eu a convoco, canto a mulher que desafiou seu tempo com o peito aberto e transformou dor em beleza”, afirma a atriz. A narrativa explora a faceta humana e resiliente de Dalva, uma mulher que enfrentou o escrutínio público e o machismo estrutural de sua época, mantendo sua autonomia diante de maridos e de uma indústria que tentaram moldá-la.
A encenação, dirigida por Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas, utiliza um jogo de espelhamentos. Seixas interpreta a versão jovem de Borghi, o ator da contracultura que, em 1969, equilibrava-se entre a rebeldia do Oficina e o fascínio pelo rádio.
“No palco, sou ele jovem — o menino que ouviu aquela voz pela primeira vez e nunca mais foi o mesmo”, explica Seixas, que define o processo como uma “devoração” antropofágica das figuras de Renato e Dalva. O elenco é completado por Ivan Vellame, que interpreta as figuras masculinas centrais na vida da cantora, como Herivelto Martins, visando provocar uma reflexão sobre a masculinidade e o respeito à feminilidade intrínseca.
Sob a direção musical de William Guedes, o espetáculo apresenta uma sonoridade que transita entre a nostalgia e a inovação. A equipe técnica conta ainda com o cenário de Márcia Moon e figurinos de Fábio Namatame, criando o ambiente necessário para esse diálogo entre o passado e o presente. Esta incursão teatral não é apenas um tributo a uma intérprete virtuosa; é um exame sobre como a arte permite que feridas pessoais sejam transmutadas em patrimônio cultural. Como define Elias Andreato, “ver Borghi confrontar sua própria história em cena é testemunhar um dos gestos mais íntimos e corajosos do teatro contemporâneo”.
A temporada de “Minha Estrela Dalva” acontece de 28 de março a 12 de julho no Centro Cultural Fiesp, especificamente no Teatro do SESI-SP, localizado na Avenida Paulista, 1313, em frente à estação Trianon-Masp do metrô. As sessões ocorrem de quinta-feira a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h, com duração de 90 minutos e classificação etária de 14 anos. A acessibilidade é garantida em todas as sessões de sábados e domingos com intérprete de Libras e audiodescrição. A entrada é franca, e os ingressos são liberados exclusivamente pelo site oficial do SESI-SP (www.sesisp.org.br/eventos) sempre às segundas-feiras, às 8h da manhã, para as apresentações daquela mesma semana.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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