Jorge Drexler mergulha no candombe e toca Sampa e Gonzaguinha na turnê Taracá em São Paulo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
“É show do Jorge Aragão?”, perguntou uma ambulante ao ver a extensa fila na entrada do Espaço Unimed, na fria noite deste sábado, 23 de maio. Na realidade, o show era de outro Jorge que esgotou as entradas da grande casa de shows: o representante da música uruguaia no mundo e vencedor do Oscar Jorge Drexler. O músico radicado em Madrid está no Brasil para a turnê de seu novo álbum, o ótimo Taracá, no qual, aos 61 anos, faz uma volta atrás e mergulha nas raízes da música negra uruguaia, em especial o candombe, acompanhado de excelente banda. A presença do exímio percussionista uruguaio Victor “Pikiki” Aguirre na banda é elemento crucial para que essa força dos tambores ancestrais se estabeleça. Para alegria dos paulistanos, ele cantou vários hits antigos além de Sampa e sua versão em espanhol de O Que É O Que É de Gonzaguinha.

Taracá é o 15º álbum de estúdio do artista. O título do disco, conforme ele explicou ao público paulistano, é uma onomatopeia do toque do tambor chico, fundamental para o candombe uruguaio, e funciona também como uma aglutinação de “estar acá”ou seja, estar presente. Após mais de três décadas radicadas na Espanha, Drexler vivencia um regresso às suas origens em Montevidéu. Esse mergulho na ancestralidade afro-uruguaia e no candombe, manifestação percussiva negra historicamente marginalizada, fez reluzir o show como uma ode ao movimento dos corpos, onde a densidade lírica do músico encontrou o transe dos tambores. Nada mais latino-americano.

A abertura arrebatadora alinhou sequências do novo trabalho, como a contagiante “Toco Madera” e a reflexiva “¿Cómo se ama?”. O artista, perspicaz cronista da música contemporânea, questionou as fronteiras da autenticidade artística na era digital com “¿Hay alguien A.I.?”. O novo repertório dialoga de forma orgânica com os marcos de sua trajetória. Na clássica “Al otro lado del río” (vencedora do Oscar em 2005 por Diários de Motocicleta), executada à capela num bloco acústico central de intimidade tocante, com o artista no meio do público, voltou à baila seu violão límpido e sua voz doce.
A relação estreita de Drexler com a música brasileira, com trocas históricas com nomes como Caetano Veloso, Paulinho Moska, Gal Costa, Chico Buarque e Marisa Monte, se revelou na fase final do show. O uruguaio entregou uma versão primorosa em espanhol de “O Que É, o Que É?”, clássico de Gonzaguinha, rebatizada como “¿Qué será q. es?”, dizendo ao público que a música, que ele conheceu em rodas de samba no Brasil, merece ser conhecida em Buenos Aires, Lima ou Cidade do Mexico.

O encadeamento final amarrou passado e presente com precisão matemática. Das síncopas eletrônicas de “Tocarte” (parceria com C. Tangana no aclamado Tinta y Tiempo, de 2022), com seu funk carioca sintetizado, ao manifesto político-dançante de “Ante la duda, baila”, que resgata decretos proibitivos do século XIX para criticar a perseguição contemporânea ao funk e ao reggaeton, Drexler provou que o ritmo é uma ferramenta de sobrevivência política.
O final apoteótico com “Todo se transforma” (Universos Paralelos, 2014) reiterou a física afetiva do compositor: na arte, assim como na vida, nada se perde. Para aquecer o coração dos paulistanos em noite de Virada Cultural, na qual já tocou na edição de 2013, ele tocou “Sampa”, a belíssima homenagem de Caetano Veloso à metrópole brasileira na qual o uruguaio conquistou uma legião de fãs que esgotaram cada um dos ingressos do show de Taracá.


Agradecemos Paola Correa – Access Mídia e Espaço Unimed.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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