Jorge Drexler faz show Taracá no Espaço Unimed em SP, álbum em que volta às raízes afro-uruguaias do candombe

Jorge Drexler faz show do álbum Taracá © Divulgação para Miguel Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

O cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler, um dos melhores músicos da cena atual latino-americana, retorna ao Brasil, onde tem forte base de fãs, para apresentar seu novo trabalho de estúdio, o álbum Taracá, em que retoma suas raízes. O show em São Paulo ocorre no dia 23 de maio, no Espaço Unimed, na Barra Funda, com abertura dos portões às 20h e início da apresentação previsto para as 22h.

Lançado mundialmente em 13 de março de 2026, o álbum sucede o premiado Tinta y Tiempo (2022) e marca uma nova etapa na carreira do artista, que soma mais de três décadas de trajetória e 15 discos de estúdio. O projeto atual explora a rítmica e a conexão humana, mantendo a característica de Drexler de unir poesia e experimentação sonora, com destaque para o candombe, ritmo negro uruguaio que perpassa todo o disco.

Em Taracá, Drexler utiliza o candombe uruguaio como eixo central, misturando gêneros tradicionais com elementos contemporâneos. O disco aborda temas como a identidade ibero-americana, a passagem do tempo e a relação entre tecnologia e humanidade.

Entre as 11 faixas do álbum, destacam-se composições como “Toco Madera”, primeiro single do projeto, e “¿Qué será que es?”, uma versão em espanhol do clássico “O que é, o que é?”, do brasileiro Gonzaguinha, gravada com o grupo Rueda de Candombe. O trabalho também inclui colaborações com a artista porto-riquenha Young Miko na canção “Te llevo tatuada” e reflexões sobre a inteligência artificial na faixa “¿Hay alguien A.I.?”.

A turnê brasileira é produzida pela Music Tour Brasil e conta com uma banda de sete músicos no palco. Além de São Paulo, o músico passará por Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, onde encerra a série de apresentações no final do mês. A proposta cênica busca traduzir a atmosfera percussiva do novo disco, sem deixar de lado sucessos anteriores que consolidaram Drexler como um dos nomes mais relevantes da música hispanofônica, vencedor do Oscar e de múltiplos prêmios Latin Grammy.

Os ingressos para a apresentação no Espaço Unimed estão disponíveis com preços a partir de R$ 390, e o evento tem classificação indicativa de 18 anos.

TARACÁ
Por Jorge Drexler

TARACÁ
“Allá va el chico dando guerra
taracá, taracá, taracá,
media corchea después de la tierra”.

“Taracá” é uma possível onomatopeia do som do padrão rítmico fixo produzido pelo Tambor Chico, um dos três tambores do Candombe, talvez o mais difundido dos nossos ritmos afro-uruguaios.

Em sua forma mais comum, um golpe de mão acentuado (TA) é seguido por dois golpes de baqueta (RA-CA), com a ressalva de que o acento da mão não cai no primeiro tempo do compasso (o mais forte, a “terra”), mas sim uma semicolcheia depois.

Esse deslocamento gera um efeito rítmico desconcertante tanto em quem toca quanto em quem ouve. O eixo rítmico parece estar “movido”, “virado do avesso”.

Sempre me fascinou o fato de que o tambor que serve de metrônomo, de relógio, de andaime temporal, sinaliza a terra do compasso sem tocá-la, evitando-a, contornando-a.

Seu pulsar repetido, deslocado e uniforme produz, assim, uma desarticulação da linguagem conceitual do ritmo. Uma espécie de paradoxo temporal que sempre me impulsionou para o aqui e agora. Não sei se esse sentimento é compartilhado e não posso dizer muito mais porque estou muito longe de entender como funciona um sistema infinitamente complexo como é a maravilhosa polirritmia hipnótica do candombe.

Quando perguntei a Facundo Balta (que, apesar da juventude, vive o candombe mais de perto do que eu, a partir do bairro e de sua família) o que achava dessa onomatopeia, ele me disse: “Está certo! Porque soa como ‘estar acá’ (estar aqui)!”. Ali se abriu um mundo para mim, pois pude estabelecer o vínculo entre vários pontos que antes estavam soltos.

Em primeiro lugar, “Tar acá” é uma aférese (perda de sons no início de uma palavra) prateana de “Estar acá” e eu só utilizo essa expressão e o advérbio de lugar “acá” quando estou no Uruguai. Tem para mim, portanto, algo de proximidade familiar, de casa, de presença afetiva. Resume também, de certa forma, a necessidade que tive de voltar, depois de muito tempo, para gravar aqui, no Uruguai, por diversas razões pessoais.

Dali, estendeu-se para “Estar aqui e estar agora”, referindo-se à expansão do presente, ao transe rítmico, espiritual, preciosíssimo, que a África — através da prática do candombe — deu de presente à sociedade uruguaia.

Por fim, é um título de disco com a vogal A, a vogal mais aberta, a que não retém o ar, a que solta a emoção sem filtro nem modulação, quase sem processar o som. O disco que vocês têm em mãos, poder-se-ia dizer, tentou cumprir estas últimas premissas.

Jorge Drexler
(La Serena, Uruguai, Janeiro de 2026)

TARACÁ
O novo disco de Jorge Drexler: voltar para casa

Por Belén Fourment

No Uruguai, a clave do candombe — três batidas, depois mais duas — aprende-se por osmose. Não se ensina nas escolas nem em todas as casas. Vive em nós, embora nunca tenhamos percebido quando lhe abrimos a porta. Aparece em infinitas canções. Soa em uma tarde qualquer na esquina de algum bairro. Improvisa-se batendo na mesa no churrasco de domingo. Mistura-se o tempo todo com as sirenes e os carros da rua. Habita a cidade como um vizinho onipresente. Quando se está longe desta terra, ouvi-la é uma forma direta de voltar para casa. Jorge Drexler sabe bem disso.

Também sabe outras coisas, como que tudo na vida tem seu próprio tempo. Que só assim se explica que recém agora — agora que completou 60 anos, que se passaram três décadas desde que se instalou em Madri, que morreu Gunther, seu pai, e ele se tornou o mais velho da família — esteja lançando um disco de candombe. Um disco de candombe feito no Uruguai, mas que olha de frente para o mundo inteiro.

Taracá, seu novo álbum de estúdio, é um disco de pontes: geracionais e geográficas, estilísticas e temporais, concretas e simbólicas. Um disco que funciona como uma comunidade musical — nunca um trabalho seu havia sido tão colaborativo — e como uma aula intensiva do patrimônio musical de Montevidéu. Mas, acima de tudo, um disco de celebração.

“Que viva todo aquele valente que estende uma ponte / E o valente que a cruza”

Atravessado pela clave do candombe, Taracá reivindica o tambor como uma forma de estar ancorado no presente. “Taracá” funciona como uma possível onomatopeia candombeira e, ao mesmo tempo, como uma declaração e um ato de compromisso: estar aqui e estar agora.

Em um tempo em que diferentes referentes contemporâneos realizaram trabalhos arqueológicos para resgatar suas próprias tradições sonoras, Drexler decide fazer o mesmo voltando ao Uruguai — literal e metaforicamente — para trabalhar conscientemente sobre uma raiz que sempre esteve ali, mas que até agora havia ingressado de maneira lateral em sua obra.

Agora ele se entrega totalmente a essa busca, com um olhar no qual convivem seu extenso percurso e sua rica trajetória com a permanente inquietude pelo novo. Isso explica que este álbum esteja bordado pelas contribuições de jovens produtores e talentos uruguaios como Lucas Piedra Cueva, Tadu Vázquez e Facundo Balta, e simultaneamente por duas presenças fundamentais da cena porto-riquenha: Mauro e Gabo Lugo. De forma inesperada, Drexler conecta dois territórios com muitos pontos em comum para construir, a partir da tradição, um som atemporal e carregado de frescor.

Ouvir Taracá é entender o que constitui o DNA da música uruguaia. O candombe, a milonga, o milongón, a plena, a experimentação, a murga e o cuidado com a palavra estão ali, entre peças que remetem às comparsas, ao Lobo Núñez, a Jorginho Gularte, a Eduardo Mateo, a Jaime Roos, à mais fina canção de autor.

O disco propõe uma convivência singular: o cantor de plena Américo Young, uma gravação caseira da comparsa La Dominguera, o violão do mestre Julio Cobelli, a invocação flamenca, a original contribuição de Young Milko, os arranjos orquestrais da Seleção Uruguaia Sinfônica e a poderosa presença da murga Falta y Resto, além da transversalidade do projeto Rueda de Candombe. Há composições recentes e outras que esperaram seu momento por mais de dez anos. No Uruguai, o tempo funciona de maneira diferente. Taracá também tem a ver com isso.

É um álbum repleto de perguntas — muitas vezes explícitas — sobre assuntos importantes: para onde vamos, como se ama, o que fazemos para ser amados, o que define o ser humano, por que os artistas fazem arte e o que é a vida, em uma comovente transposição da poética ternamente filosófica de Gonzaguinha.

Um álbum com o candombe como prece, e com pelo menos uma linha como guia: “na dúvida, dance”. Porque em meio à incerteza, ouvir um tambor é vislumbrar uma certeza. Uma senda de volta para casa: esse itinerário sônico no qual Drexler embarca e para o qual agora quer convidar o mundo inteiro.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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