Crítica: Hamlet, Os Sonhos Que Virão, por Claudia Chaves

Gabriel Leone é Hamlet © Bob Wolfenson Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Hamlet! Presente!

Por CLAUDIA CHAVES
Especial para Miguel Arcanjo
De São Paulo

Tem espetáculo que começa antes da primeira fala — e esse Hamlet, os sonhos que virão é exatamente assim. Muitos emblemas. Muitos significados. Múltiplas memórias. Entramos no antigo Cine Copan, ainda em estado de demolição, e já entendemos: não vai ser uma noite qualquer. É poeira, é ruína, é história, ambiente nebuloso. Tudo ali fala alto no melhor sentido de um site-specific: o espaço não abriga a peça, pensa junto com ela.

A direção de Rafael Gomes acerta ao inverter a lógica do espaço: o palco ocupa o que era a plateia, e o público assiste de onde antes era a tela. Um gesto simples na forma, mas potente na ideia.

O deslocamento do olhar é sutil e, ao mesmo tempo, profundamente desestabilizador ao preparar o terreno para a tragédia do príncipe da Dinamarca. A nebulosidade permanente dos cinzas do concreto nos figura os sonhos, quando são em preto e branco. Um filme antigo, um Hitchcock em p/b.

Os fachos de luz cortam o ambiente como se revelassem fantasmas, e o som sempre presente, quase uma entidade, costura tudo com precisão. Rafael Gomes, junto com Bernardo Marinho, faz do deslocamento sua matriz: reorganiza solilóquios, tensiona a narrativa e conduz com enorme competência a tradução de Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harrington, sem perder um milímetro de sentido.

Os figurinos de Alexandre Herchcovitch seguem uma linha atemporal, com uma melancolia elegante, meio opaca, meio suspeita. Tudo parece carregar um segredo — exceto Ofélia, que surge com um frescor que quase dói de tão efêmero. Um respiro breve entre tantos choques.

O elenco é coeso, afinado e muito bem calibrado entre gerações. Eucir de Souza constrói um Rei Cláudio breve, mas forte. Enquanto Susana Ribeiro é uma Gertrudes ambígua. Fafá Renó, Polônio preciso, ironia e pulsação contemporânea à cena: Samya Pascotto (Ofélia); Felipe Frazão (Horácio); Bruno Lourenço (Laertes); a dupla Rael Barja e Daniel Haidar (Rosencrantz, Guildenstern e os coveiros) e Davi Novaes (Marcelo e Osric). Completam o conjunto Giovanna Barros, Lua Dahora e Conrado Costa, que, no ensemble, ajudam a dar corpo e continuidade ao desenho da encenação.

Mas é Gabriel Leone quem atravessa tudo isso com força rara. Ele não só interpreta Hamlet. Sustenta Hamlet. A voz, amplificada por um sistema de som, é domínio a lucidez e a vertigem: ora vingativa diante da mãe, ora dilacerada na dúvida, ora suave nas cenas com Ofélia. E o corpo ocupa o espaço com leveza e rigor, como se cada deslocamento fosse pensamento em movimento.

Um dos achados mais inteligentes é o uso dos carrinhos de dolly. A linguagem do cinema invade a cena, aproximando e afastando o olhar, como se editasse ao vivo as intenções dos personagens. É recurso e é discurso: fala sobre imagem, sobre registro, sobre como vemos — e somos vistos.

No fim, o que fica é a certeza que a nossa cena teatralavança. A montagem honra a densidade de Shakespeare e não se curva ao peso do clássico. E nos lembra, com uma beleza teimosa, que sempre há algo de novo — que pode ser brilhante — no reino da Dinamarca.

Hamlet, Os Sonhos Que Virão
Nu Cine Copan (Av. Ipiranga, 200 – Centro – São Paulo/SP) – Entrada pela Galeria do Copan
Horários: Quartas, 20h | Quintas, 17h e 20h30 | Sextas, 20h | Sábados, 16h e 20h | Domingos, 17h – Até 3/5/2026
Ingressos: de R$25,00 a R$250,00
Vendas online: nucinecopan.byinti.com
Bilheteria física: no local 2h antes da sessão
Duração: 2h15 minutos (sem intervalo)
Capacidade: 345 lugares
Classificação indicativa: 14 anos

A colunista Claudia Chaves © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2025

*CLAUDIA CHAVES escreve sobre a cultura e o teatro do Rio de Janeiro (e ocasionalmente de outros lugares) para Miguel Arcanjo. Carioca da gema, é doutora em Letras pela PUC-Rio, jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, doutora em Literatura, bacharel em Direito, curadora, gestora cultural e de marcas. Atua como crítica de teatro e colunista cultural em veículos como Veja Rio, Lu Lacerda, Miguel Arcanjo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário do Rio. Siga @claudiachavesdosaber e também leia as colunas de Claudia Chaves.
E-mail: [email protected]

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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