Gui Leal e Vitor Rocha falam sobre Mundaréu de Mim, musical grátis no Parque da Água Branca em SP

O compositor Gui Leal e o dramaturgo Vitor Rocha estão à frente da criação de Mundaréu de Mim, musical com sessões grátis no Parque da Água Branca em outubro em SP © Guilherme Radef Divulgação Blog do Arcanjo 2023

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Dois talentos em ascensão do teatro musical brasileiro, o dramaturgo e ator Vitor Rocha e o ator, músico e compositor Gui Leal se unem na criação de um projeto robusto. O musical original Mundaréu de Mim, com texto de Vitor e músicas de Gui, ganha sessões neste mês de outubro, entre os dias 6 e 29, ao ar livre e gratuitas, no Parque da Água Branca, na zona oeste de São Paulo. O espetáculo é apresentado por Ministério da Cultura, RICO, plataforma financeira e Instituto Brasileiro de Teatro – IBT e tem patrocínio RICO, plataforma financeira. Com direção artística de Duda Maia, texto de Vitor Rocha, composição de Gui Leal e direção geral de Luiza Porto e Oliver Tibeau, a obra é o segundo grande musical a ser encenado a céu aberto – o primeiro foi Evita Open Air, no Parque Villa Lobos, em 2022. No elenco estão Sara Chaves, Flávio Pacato, Vitor Rocha, Luiza Porto, Gabriel Vicente, Castilho, Larissa Noel, Marina Mathey, Wesley Leal, Lakís Farias, Nana Nunes, Leandro Vieira, Cainã Naira, Tassia Cabanas, Paulinho Ramos, Juliana Linhares, Danilo Canindé e Natasha Jascalevich. Já abanda de nove músicos é formada por Grazi Pizani, Marina Bastos, Cindy Borgani, Luis Rodrigues, Junior Kaboclo, Dessa Ferreira, Beto Lemos, Abhul Junior e Daniel Alfaro. Todos ficam em cena o tempo todo. Vitor Rocha e Gui Leal conversaram com exclusividade com o Blog do Arcanjo sobre o espetáculo. Leia a entrevista com a dupla.

Elenco de Mundaréu de Mim, de Vitor Rocha com músicas de Gui Leal: temporada gratuita no Parque da Água Branca em SP © Bruno Favery Divulgação Blog do Arcanjo 2023

Miguel Arcanjo Prado – De onde veio a inspiração para o texto de Mundaréu de Mim?
Vitor Rocha –
Em outros projetos eu já havia falado sobre os causos caipiras do interior de Minas, dos cordéis e repentes do nordeste e até inventado uma ilha inspirada num festival folclórico do norte do Brasil. Mas quando eu soube da dimensão que Mundaréu de Mim teria, eu quis mergulhar em algo que fosse mais nacional, de todo nós mesmos, independente da região ou estado. Acabei me reencontrando com uma antiga ideia de falar sobre o carnaval e pensei: mesmo que seja o fato de não gostar, alguma coisa com o carnaval todo mundo nesse país tem, né? E foi isso!

Miguel Arcanjo Prado – Gui, quais foram suas inspirações para compor as canções deste espetáculo?
Gui Leal –
Eu, como minha mãe costumava me chamar, sou um “negrinho do samba”. Cresci na noite boêmia paulistana  com meus pais, absorvendo desde literalmente quinze dias de vida, os sons dos tan-tans e tamborins. Eu que já passei por um bacharelado em arte lírica, ou a minha conhecida especialização em “teatro musical” muito antes disso cresci com esses estímulos, que são a base da minha arte. Vem daí meu primeiro contato com a música. E tratando-se de um espetáculo brasileiro, nada como simplesmente voltar pra onde tudo começou em mim. Quando Vitor me disse “Carnaval” eu já me senti em casa, mas não pense que só o samba tem lugar nesse mundaréu. Samba, samba reggae, baião, muita riqueza da minha tão amada música afro-brasileira marcando presença com ritmos como o ijexá e é claro as provocações de Duda Maia que também levaram minha música original a visitar diversos cantos do Brasil, flertando também com o coco de roda e o frevo-canção.

Miguel Arcanjo Prado – Sobre o que fala o musical Mundaréu de Mim?
Vitor Rocha –
O espetáculo fala sobre a vida e a morte, sobre nossas mágoas e saudades. Eu escolhi uma curiosidade minha pra começar o processo: por que será que a gente diz que mata as saudades? E a partir disso inventei uma lenda. Uma lenda que diz: gente não morre, vira saudade. Quem planta saudade em outros corações ao longo da vida, quando morre, na verdade não morre, assume uma outra forma, a forma de saudade! Uma forma indecifrável e intraduzível que segue por aqui ao nosso redor. Mas uma vez por ano, no carnaval, a batida dos tambores se alinha com o pulsar  dos corações dos vivos e isso permite que quem já “virou saudade” assuma sua antiga forma de gente outra vez por apenas cinco dias. Mas é claro que temos um porém, né? Quem já virou saudade não pode ser visto pelas pessoas que conheceu em vida, afinal se a gente se encontrasse… Mataria as saudades! Essa é nossa premissa.

Miguel Arcanjo Prado – Como está sendo a parceria com o Gui Leal, como compositor da música original?
Vitor Rocha –
Trabalhar com o Gui foi um presente que me dei nesse processo, porque sempre admirei muito o trabalho dele como um artista plural. Já estivemos juntos num processo onde fui autor e ele arranjador, mas na época o bichinho das musicais originais ainda não tinha me mordido. Desde então, sempre quis repetir a parceria nesse outro formato, onde o Gui pudesse dar som para as minhas palavras, e foi, sem sombra de dúvidas uma das melhores escolhas que fiz nesse projeto. A sensibilidade, criatividade e opinião do Gui como artista e ser humano são muito aguçadas e peculiares, isso enriquece qualquer obra ou parceria. Ele teve a imaginação e a brasilidade que eu precisava ao meu lado pra sonhar esse universo. Acredito que a música original do espetáculo é um ponto altíssimo do projeto e aposto com quem quer que seja que o público vai sair do Parque da Água Branca cantando “um pouco de purpurina…” em outubro! [risos]

Miguel Arcanjo Prado – Gui, como está sendo essa parceria com o Vitor Rocha?
Gui Leal –
Essa parceria começou já faz um tempinho, ali no ano de em 2018 quando criei arranjos originais pra músicas do cancioneiro popular do sertão que serviam de trilha em “Comitiva esperança” texto esse do nosso gênio Vitor Rocha. Foi um encontro rápido mas que deixou aberta a possibilidade e o desejo de algo mais. Quase quatro anos depois aqui estamos e eu sinto um imenso prazer em afirmar que foi uma parceria de sucesso, claro que o resultado do palco é o que esperamos que seja reconhecido como “sucesso”, mas desde os primeiros encontros na sala de criação do IBT, já deu certo. Quando chegamos ao final da primeira música, nos olhamos e pensamos “É! Vai rolar!”. Aquela certeza gostosa de que você pode sugerir algo que vai ser ouvido com carinho e respeito! Isso não tem preço! A maneira carinhosa e amorosa de dizer “Tá lindo, mas acho que é mais por aqui, amigo!” Ou os ouvidos atentos e abertos pra minhas sugestões de encaixe necessários nas tão respeitadas e cobiçadas palavras que saem da cabeça desse rapaz. Em resumo, um trabalho sério, leve e com espaço pra verdadeira criação em sua essência. A madrugada foi nossa aliada nesse processo e agora à luz do sol vamos revelar o que nossos corações criaram juntos.

Miguel Arcanjo Prado – Vitor, qual a expectativa para ver um texto seu encenado a céu aberto?
Vitor Rocha –
Nem sei colocar em palavras, pra ser honesto.  Eu não sei qual foi a última vez que uma produção 100% original (texto, letras, músicas, figurinos e tudo mais que se imaginar) recebeu um incentivo desse tamanho no nosso país, ainda mais ao ar livre, com entrada franca e acessibilidade em todas as sessões, pra todo mundo. Não sei quando foi a última vez, mas de qualquer forma, também nunca imaginei que na próxima vez seria uma responsabilidade minha criar e gerir essa produção. Ver uma história sua ganhar a proporção que projeto tem é algo pro qual a gente não consegue se preparar, mas preparar a história pra isso eu podia, sim! E o fiz. Mundaréu desde o nome foi pensado nas pessoas que iriam assisti-la: aos montes, ao ar livre com o céu de São Paulo ao fundo, à luz do sol ou da lua. Minha maior expectativa talvez seja ver se vou acertar nelas o lugar onde mirei em mim enquanto criava jornada da minha Graciela.

Miguel Arcanjo Prado – Gui, qual a sensação de estrear um grande musical ao ar livre com suas músicas?
Gui Leal –
Não poderia estar mais empolgado! O que começou com uma mensagem misteriosa de áudio do Vitor no fim do ano passado agora está aí pra estrear e numa estrutura gigante na qual eu nunca imaginei ouvir minhas criações!  De fato, Mundaréu é um espetáculo muito grandioso e a magia é a simplicidade que ele carrega. Já estive em diversas produções grandiosas inclusive uma delas ao ar livre, mas ser um dos responsáveis pela criação do zero de algo desse tamanho, além de certa ansiedade pra que as pessoas conheçam essas músicas, carrego também muita alegria por fazer parte de algo inédito que é um musical original brasileiro nessas proporções.

Miguel Arcanjo Prado – Vitor, você vem se destacando cada vez mais como autor de musicais. De onde surgiu sua verve na escrita?
Vitor Rocha –
Desde pequeno eu gosto muito de escrever! Em casa, sempre fui muito estimulado a ler pela minha mãe, e na escola tive a sorte de passar por uma professora que mudou drasticamente o meu caminho com a sua paixão por boas histórias, a Tia Cristina. Ela me ensinou a ler, interpretar e gostar dos maiores poetas, dramaturgos e romancistas do mundo e, por ser muito engenhosa, sempre me fazia colocar em palavras minhas o que tinha me encantado em uma leitura ou outra. Sempre conto que isso é que me fez ter uma intimidade maior com o papel e encontrar a  ligação direta entre a cabeça, a mão e o coração.

Miguel Arcanjo Prado – Gui, por sua vez, você vem se destacando cada vez mais na área musical, apesar de também ser ator. Gosta de equilibrar os dois lados? Neste momento, o músico está falando mais alto?
Gui Leal –
Em outra conversa aqui do Blog do Arcanjo já contei um pouco da trajetória do músico de formação acadêmica que ficou adormecido uns anos pra dar lugar ao “ator dos musicais”! Há quem chame de “Gui Leal dos musicais” e tudo, título que sempre me faz rir. Principalmente durante e depois da pandemia eu voltei a me dedicar à música, seja pelo lançamento do Studio Kumkani, minha marca de produção musical ou pela minha parceria em direção musical dos espetáculos escritos e idealizados pelo Nosso Projeto, ao lado de Bruno Narchi, Thiago Machado e Zuba Janaína. Sinto que o Gui Leal dos palcos está dando cada vez mais espaço pro diretor musical,  arranjador, produtor musical e preparador vocal, áreas que assim como meu trabalho de ator também são componentes da minha especialização artística. No momento, quero me desafiar cada vez mais a aceitar desafios criativos de composição, arranjo e direção musical (alô produtores!). Já nos palcos tenho buscado adicionar, aceitar e embarcar em papéis que me tragam desafios e novidades, coisas que julgo importantes e necessárias depois de dez anos de carreira nos palcos. Vamos ver até quando levarei essa vida dupla.

Miguel Arcanjo Prado – Vitor, os musicais brasileiros estão ficando mais maduros em sua opinião? Acha que será tendência termos cada vez mais musicais autorais?
Vitor Rocha –
Acho que estamos no caminho. Acredito, sim, que as produções estão amadurecendo enquanto produções, mas não vejo o amadurecimento das obras no mesmo lugar – ainda, é claro. Temos produções cada vez mais caprichadas de musicais autorais e isso me enche de alegria, mas ainda são histórias que se sustentam por já serem conhecidas de outros formatos (filmes, biografias, livros, novelas, etc) ou por terem um repertório já famoso. Eu não tenho absolutamente nada contra esses espetáculos, pelo contrário, eu gosto e acho importantíssimo que eles existam. Mas acredito que nosso teatro musical tem muito a ganhar com histórias originais, de fato! Acho que é a bandeira que sempre tento levantar com o meu trabalho, porque acredito de verdade que uma música nova, criada para contar uma determinada história (se possível nova também!) vai ser a melhor música para contar aquela história, e uma história bem contada encanta mais pessoas. Mais pessoas encantadas voltam ao teatro e acabam estimulando mais artistas a criarem músicas e histórias novas! Pra mim a roda ideal do teatro autoral gira assim, mas tenho os pés no chão e sei que pra abrirmos esse caminho a “folha em branco” apresenta mais riscos e incertezas do que as histórias conhecidas e isso nos leva ao início da conversa. Então, acho que estamos amadurecendo, sim, mas algumas coisas antes de outras [risos].

Mundaréu de Mim

Quando: 6 a 29 de outubro de 2023; Sextas e sábados: 18h; Domingo: 15h e 18h; *Apresentação extra 12 de outubro, quinta-feira, às 15h e 18h
Duração: 75 minutos
Local: Parque da Água Branca – Av. Francisco Matarazzo, 455, próximo ao metrô Barra Funda, São Paulo – SP
Classificação etária: Livre
Capacidade por sessão: 3 mil pessoas
Ingressos: gratuitos, mediante disponibilidade de lugar

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Jornalista cultural influente e respeitado no Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo Pod. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra o júri de Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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