Sesc São Paulo assume TBC, o histórico Teatro Brasileiro de Comédia, que será o Sesc TBC, no Bixiga

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Após anos de abandono, o histórico prédio do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, na Rua Major Diogo, 315, no bairro do Bixiga, na região central de São Paulo, será transformado na nova sede do Sesc São Paulo, o Sesc TBC.

O Sesc fará a gestão do edifício, que é um dos principais berços das artes cênicas no Brasil e onde funcionou a célebre companhia nas décadas de 1950 e 1980, que lançou artistas como Paulo Autran e Cacilda Becker. O espaço deu projeção internacional ao teatro brasileiro e colocou a então jovem industrial São Paulo no marco das grandes capitais culturais do mundo.

Tombado na década de 1980, o prédio preocupava a classe artística devido à situação de abandono em que se encontrava. Ele integra o corredor cultural do Bixiga, tradicional bairro teatral paulistano e fica próximo ao Teatro Oficina.

A concessão do imóvel do TBC ao Sesc São Paulo será oficializada nesta quarta, dia 21 de dezembro, pelo governo federal. A solenidade ocorrerá na sede da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, onde o presidente do Sesc, o empresário Abram Szajman, firmará o acordo com o presidente da Funarte, a Fundação Nacional das Artes, Tamoio Athayde Marcondes, que é gestora do TBC desde 2008. 

Termos do contrato

Inicialmente, o contrato de cessão especial do imóvel do TBC ao Sesc São Paulo prevê a ocupação por 35 anos, renováveis por igual período, somando 70 anos.

O Sesc se compromete a entregar um projeto arquitetônico em dois anos e a concluir as obras para dar início à operação do espaço em mais seis anos. O que dá previsão de inauguração do espaço para 2030.

O presidente do Sesc, Abram Szajman, afirma que “oferecer a ocupação de um espaço histórico para tornar-se mais uma unidade do Sesc na capital, mostra-se como um dos mais importantes momentos para a instituição, pela ampliação da capacidade de atendimento, pelo oferecimento à população de São Paulo de mais opções para o lazer e o aprendizado permanente, em um espaço propício para o desenvolvimento humano e a prática da cidadania”. 

Para o presidente da Funarte, “Resgatar o TBC é trazer para a sociedade o direito de frequentar esse teatro histórico e devolver aos artistas esse palco iluminado. O Sesc tem papel fundamental nessa retomada, sendo o parceiro ideal para resgatar o teatro e sua história”, afirma Tamoio Athayde Marcondes.

O TBC propôs em sua criação um modelo de gestão inspirado nos teatros europeus, com um diretor artístico à frente de um pensamento curatorial e compondo um quadro artístico que reunia diferentes encenadores.

Sesc TBC

“A ideia é estabelecer no local uma unidade do Sesc com ampla oferta de serviços e programas oferecidos pela instituição em todo o estado”, diz Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo. O executivo ressalta o elemento revitalizador que um equipamento de lazer socioeducativo traz para a região central da capital paulista.

“O Sesc se apresenta mais uma vez como protagonista na utilização e conservação de um espaço histórico ao assumir um equipamento com a importância para a cidade de São Paulo como este espaço do TBC. Ali, o Sesc vai promover um renovado fluxo de pessoas, atraídos ao local para uma programação dinâmica e diversificada, cujos benefícios logo se apresentarão também para todo o bairro e região, pelo reordenamento de utilização de espaços, públicos e privados, que a cidade frequentemente proporciona para seus moradores.”

Danilo Santos de Miranda
diretor do Sesc São Paulo

Em 2016, aconteceram os primeiros contatos entre o então ministro da cultura Marcelo Calero e o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, que chegou a visitar, na ocasião, o edifício do TBC, tombado desde os anos 80.

Em 2019, o então secretário especial de cultura do governo federal, Henrique Medeiros Pires, retomou as tratativas para que o Sesc enfim assumisse a gestão do espaço.

Instituições criadas no pós-Guerra

O TBC e o Sesc foram criados na década de 1940, no período pós-guerra. O Sesc – Serviço Social do Comércio foi criado em 1946, uma iniciativa do empresariado do setor com o compromisso de realizar ações que beneficiassem os empregados e seus familiares, considerando o cenário na ocasião.

Com o tempo, a ação do Sesc se transformou e o trabalho foi estendido para toda a população. O TBC – Teatro Brasileiro de Comédia foi fundado em 1948 por Franco Zampari, um engenheiro das Indústrias Matarazzo com apoio financeiro da burguesia paulistana. A história das instituições se cruza em um momento importante para o País e criou marcos na construção das artes cênicas na capital paulista.

Paulo Autran e Cacilda Becker no TBC – Foto: Arquivo Funarte – Blog do Arcanjo

História do TBC, Teatro Brasileiro de Comédia

Em 1948, o edifício do Teatro Brasileiro de Comédia passou a abrigar a companhia de teatro homônima, fundada pelo empresário de origem italiana Franco Zampari (1898-1966) no mesmo ano. A estreia se deu com a montagem, em francês, de “La Voix Humaine” (A Voz Humana), monólogo de Jean Cocteau, estrelado pela atriz franco-brasileira Henriette Morineau (1908-1990).

Durante os 16 anos de existência da companhia, mais de uma centena de obras foram encenadas e passaram pelo TBC grandes nomes das artes cênicas nacionais e internacionais, entre atrizes e atores, cenógrafos e diretores, como Paulo Autran (1922-2007), Tônia Carrero (1922-2018), Adolfo Celi (1922-1986), Aldo Calvo (1906-1991), Elizabeth Henreid (1928-2006), Nydia Licia (1926-2015), Sérgio Cardoso (1925-1972), Cleyde Yáconis (1923-2013), Antunes Filho (1929-2019), , Flávio Rangel (1934-1988), Leonardo Villar (1923-2020), Sérgio Britto (1923-2011), Walmor Chagas (1930-2013), Cacilda Becker (1921-1969), Ziembinski (1908-1978), Luciano Salce (1922-1989), Maria Della Costa (1926-2015), Gianni Ratto (1916-2005), Maurice Vaneau (1926-2007),  Ítalo Rossi (1931-2011), Stênio Garcia (1932) e Fernanda Montenegro (1929).

Os anos de ouro do TBC marcaram profundamente o teatro nacional e sua modernização. Os profissionais que passaram por lá acabaram estabelecendo outras companhias importantes, como o Teatro de Arena e o Teatro dos Sete. Antunes Filho, que estreara como assistente de direção no TBC no início dos anos 1950, fundou seu grupo teatral no final dos anos 1970 e, em 1982, foi convidado pelo Sesc para coordenar o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), na unidade Consolação, onde atuou até falecer, em 2019. Desde então, passou a dar nome ao teatro do Sesc Vila Mariana, assim como Paulo Autran nomeia o teatro da unidade de Pinheiros.

Muitos dos artistas que construíram a história do TBC também se apresentaram em produções no Sesc São Paulo, em especial no histórico Teatro Anchieta (Sesc Consolação), e ajudaram a consolidar a atuação do Sesc no campo das artes cênicas em São Paulo. Além da programação regular de espetáculos nas unidades da capital, Grande São Paulo, interior e litoral do estado, a instituição realiza também ações educativas e reflexivas sobre a linguagem e festivais, como o MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos e o FIT – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, em parceria com a Prefeitura Municipal.

Bixiga, o coração paulistano

O bairro do Bixiga sempre esteve associado com a identidade paulistana. Localizado no distrito da Bela Vista, na região central do município, o Bixiga é entendido como um dos mais tradicionais bairros da capital, embora na divisão administrativa da cidade ele não exista oficialmente.

Formada predominantemente por imigrantes italianos – em particular, os calabreses, na época da extensa imigração na capital a região lembrava as pequenas aldeias da Itália. No entanto, os primeiros registros referentes ao Bixiga são de 1559 e tratava-se de uma grande fazenda chamada Sítio do Capão, cujo dono era o português Antonio Pinto.

No século 19, a região era conhecida como Pequena África, onde se localizava o Quilombo Saracura. Durante as atividades de monitoramento arqueológico das obras da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, um sítio histórico foi encontrado na área da futura estação 14 Bis no Bixiga, local que abrigou os quilombolas em seu entorno.

A partir do século 20, o bairro ganhou o status de reduto da boemia paulistana ao receber diversos teatros (Oficina – de José Celso Martinez Corrêa, Maria Della Costa e Sérgio Cardoso), os amantes do samba, que tiveram como ícone local, Adoniran Barbosa e inúmeros bares e restaurantes – com destaque para as cantinas italianas.

O Bixiga é palco de diversos símbolos que demonstram a importância das artes cênicas para o Brasil. Entre eles, a atriz Laura Cardoso, que nasceu no bairro em 13 de setembro de 1927 e o ator Sérgio Mamberti, morador do local por grande parte de sua vida e, inclusive, integrou a Fundação Pró-Bixiga – organização em defesa da conservação do bairro.

Sesc São Paulo

Com 76 anos de atuação, o Sesc – Serviço Social do Comércio conta com uma rede de 45 unidades operacionais no estado de São Paulo e desenvolve ações com o objetivo de promover bem-estar e qualidade de vida aos trabalhadores do comércio, serviços, turismo e para toda a sociedade. Mantido pelos empresários do setor, o Sesc é uma entidade privada que atua nas dimensões físico-esportiva, meio ambiente, saúde, odontologia, turismo social, artes, alimentação e segurança alimentar, inclusão, diversidade e cidadania. As iniciativas da instituição partem das perspectivas cultural e educativa voltadas para todas as faixas etárias, com o objetivo de contribuir para experiências mais duradouras e significativas. São atendidas nas unidades do estado de São Paulo cerca de 30 milhões de pessoas por ano. Hoje, aproximadamente 50 organizações nacionais e internacionais do campo das artes, esportes, cultura, saúde, meio ambiente, turismo, serviço social e direitos humanos contam com representantes do Sesc São Paulo em suas instâncias consultivas e deliberativas. Mais informações, clique aqui.

Futuro SESC TBC

R. Major Diogo, 315 – Bela Vista, São Paulo – SP, 01324-030

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Respeitado jornalista cultural e crítico de artes do Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, criado em 2019. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e apresenta o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Eleito um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se por três vezes e recebeu a Medalha Mário de Andrade, maior honraria nas letras do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, Uma, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Melhores do Ano Guia da Folha, Prêmios ANCEC e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil e Prêmio Governo do Estado de São Paulo – Medalha Mário de Andrade.
Foto: Edson Lopes Jr.
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