★★★★★ Crítica | Caetano Veloso acerta em novo formato de show, brilha com voz límpida e define: ‘Gil é foda, Gal é eterna’

Caetano Veloso samba no palco do Espaço Unimed: show inédito em formato pista e mesas foi aprovado pelos paulistanos – Foto: Anderson Carvalho/Espaço Unimed – Blog do Arcanjo

Meu Coco Tour, de Caetano Veloso
Avaliação: Ótimo ★★★★★

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Caetano Veloso levou o público paulistano ao delírio neste domingo, 27 de novembro, quando fez pela primeira vez o show da turnê Meu Coco no formato que mistura pista e mesa no Espaço Unimed, na Barra Funda, em São Paulo. A noite era de uma garoa insistente, que transformava a primavera num melancólico outono.

A novidade de formato, aprovadíssima, trouxe mais frescor e comunhão com o público, misturando fãs de diversas faixas etárias, todos altamente jovens como sempre foi e é a música produzida pelo artista baiano filho de Dona Canô e Seu José. Afinal, público de pé é outro papo. E este pode conviver com os que preferem o conforto de suas mesas bem servidas de canapés e uísque. Afinal, democracia é isso, não?

Após o público ouvir Apesar de Você, de Chico Buarque, antes de o show começar, Caetano subiu ao palco elegantemente vestido de camisa amarelo-mostarda, calça azul-marinho e tênis azuis sem cadarço. E disse ter gostado de ouvir Chico nos bastidores, justamente com aquela canção, que já deixou o público aquecido.

Caetano Veloso: cada vez mais jovem aos 80 anos e dono de límpida voz – Foto:

Este crítico precisa ressaltar a limpidez da voz de Caetano. Dono de vitalidade ímpar aos 80 anos, sua voz soa irretocável, recriando com louvor músicas lançadas mais de cinco décadas atrás, caso de Baby ou You Don’t Know Me.

O próprio Caetano se vangloria dessa dádiva na faixa Não Vou Deixar, do disco novo Meu Coco, no verso que diz “porque eu sei cantar”. E sabe mesmo.

A voz eternamente jovem mostra o cuidado que Caetano sempre teve com seu instrumento de trabalho, o que faz dele um dos grandes cantores da história mundial.

O show foi no mesmo dia em que toda a classe artística saiu em defesa de Gilberto Gil, também de 80 anos, tratado com grosseria extrema por torcedores bolsonaristas na Copa do Mundo do Qatar. Caetano declarou no palco: “Gil é foda”. O público, ansioso por essa manifestação, aplaudiu.

A frase veio quando Caetano lembrou que o grande amigo Gil foi quem batizou seu estilo de tocar violão, presente em canções como Trilhos Urbanos, que levantou o público com o versos ” Cinema transcendental, trilhos urbanos, Gal cantando Balancê, como seu sei lembrar de você”. Ao fim, Caetano deu mais definição: “Gal é eterna”. Foi ovacionado.

Reconvexo: Caetano Veloso samba no palco do Espaço Unimed: show inédito em formato pista e mesas foi aprovado pelos paulistanos – Foto: Anderson Carvalho/Espaço Unimed – Blog do Arcanjo

Outro detalhe que não poderia passar despercebido neste show é a homenagem que Caetano faz aos músicos que tocaram com ele ao longo da vida. É um gesto de generosidade rara, que evidencia que ninguém é gênio sozinho. Não mesmo.

Caetano fez questão de dizer a ficha técnica dos companheiros de gravação do álbum cinquentão Transa, na sweet London de 1972, do qual cantou You Don’t Know Me com os jovens fãs sabendo a letra inteirinha em inglês. Após a catarse coletiva, confessou ficar satisfeito de que o álbum siga sendo cultuado pela juventude meio século depois de sua feitura.

Também mereceram menção os músicos que formaram a icônica A Outra Banda da Terra, que o acompanhou em discos e turnês lendárias na virada dos hippies anos 1970 para os enérgicos anos 1980, e fez questão de cantar a música que leva o nome dessa banda, do álbum Uns, puxando os r em homenagem às moças do interiorrrr paulista.

Depois, fez tributo à conseguinte Banda Nova, “nome sem muita criatividade”, também utilizado por Tom Jobim para sua banda, por pura coincidência, como contou.

Um banquinho e um violão: Caetano Veloso mantém viva a tradição da boa música brasileira herdada de João Gilberto – Foto: Anderson Carvalho/Espaço Unimed – Blog do Arcanjo

Obviamente, também mereceu menção os jovens roqueiros que o acompanharam no começo do século 21, a Banda Cê, “um nome mais criativo”, como confidenciou Caetano antes de cantar A Bossa Nova É Foda. Por fim, celebrou sua atual banda, com destaque para Pretinho da Serrinha, a quem dedicou a deliciosa Sem Samba Não Dá, encerrando o show.

A apresentação trouxe ainda canções clássicas como Menino do Rio, Sampa — sempre um presente para os paulistanos — e Reconvexo, com direito a Caetano dançando todo malemolente o típico samba do Recôncavo.

Ter Caetano Veloso entre nós, tão produtivo e jovem aos 80 anos, é uma dádiva a ser celebrada cotidianamente. Afinal, Caetano Veloso é foda. E sem Caetano não dá.

Meu Coco Tour, de Caetano Veloso
Avaliação por Miguel Arcanjo Prado: Ótimo ★★★★★

Caetano Veloso lotou Espaço Unimed com pista e mesas em formato inédito que provou ser um sucesso – Foto:

Meu Coco, por Caetano Veloso

“Muitas vezes sinto que já fiz canções demais. Falta de rigor?, negligência crítica? Deve ser. Mas acontece que desde a infância amo as canções populares inclusive por sua fácil proliferação. Quem gosta de canções gosta de quantidade. Do rádio da meninice, passando pela TV Record e a MTV dos começos, até o TVZ no canal Multishow de agora, encanta-me a multiplicidade de pequenas peças musicais cantadas, mesmo se elas surgem a um tempo redundantes e caóticas. Há nove anos que eu não lanço álbum com canções inéditas. No final de 2019, tive um desejo intenso de gravar coisas novas e minhas. Tudo partiu de uma batida no violão que me pareceu esboçar algo que (se eu realizasse como sonhava) soaria original a qualquer ouvido em qualquer lugar do mundo. “Meu Coco”, a canção, nasceu disso e, trazendo sobre o esboço rítmico uma melodia em que se história a escolha de nomes para mulheres brasileiras, cortava uma batida de samba em células simplificadas e duras. Minha esperança era achar os timbres certos para fazer desse riff sonhado uma novidade concreta. E eu tinha a certeza de que a batida, seu som e sua função só se formatariam definitivamente se dançarinos do Balé Folclórico da Bahia criassem gestos sobre o que estava esboçado no violão. Com isso eu descobriria o timbre e o resto. Mas chegou 2020, o coronavírus ganhou nome de Covid-19 e eu fiquei preso no Rio, adiando a ida à Bahia para falar com os dançarinos. Esperaria alguns meses? 

Passou-se mais de ano e eu, tendo composto canções que pareciam nascer de “Meu Coco”, precisei começar a gravar no estúdio caseiro. Chamei Lucas Nunes pra começar os trabalhos. Ele é muito musical e também é capaz de comandar uma mesa de gravação. Começamos por “Meu Coco”, de que “Enzo Gabriel” é uma espécie de península: seu tema (seu título) é o nome mais escolhido para registrar recém-nascidos brasileiros nos anos 2018 e 2019. À medida que vou fazendo novas canções, me prometo pesquisar a razão de, na minha geração e mesmo antes dela, nomes ingleses de presidentes americanos terem sido escolhidos por gente simples e pouco letrada, principalmente preta, para batizar seus filhos: Jefferson, Jackson, Washington – assim como Wellington, William, Hudson – eram os nomes preferidos dos pais negros e pobres brasileiros. Ainda não fiz nenhum movimento nesse sentido, mas ter esse disco pronto e estar empenhado em lançá-lo me leva a certificar-me de que farei a pesquisa, como se fosse um sociólogo, assim como ter feito “Anjos Tronchos”, canção reflexiva que trata da onda tecnológica que nos deu laptops, smartphones e a internet, me faz prometer-me ler mais sobre o assunto. 

Cada faixa do novo álbum tem vida própria e intensa. Se “Anjos Tronchos” tem sonoridade semelhante à de Abraçaço, o último disco que fiz antes deste, “Sem Samba Não Dá” soa à Pretinho da Serrinha: uma base de samba tocada por quem sabe – e a sanfona de Mestrinho, que comenta as fusões de música sertaneja com samba tradicional. Uma discussão sobre o (não) uso da palavra “você” pela brilhante jovem fadista Carminho virou o fado midatlântico “Você-Você”, que ela terminou cantando comigo – e ganhou bandolim sábio de Hamilton de Holanda fazendo as vezes de guitarra portuguesa. Há “Não Vou Deixar”, com célula de base de rap criada no piano por Lucas e letra de rejeição da opressão política escrita em tom de conversa amorosa. “Pardo”, cujo título já sugere observação do uso das palavras na discussão de hoje da questão racial, teve arranjo de Letieres Leite, baiano, sobre a percussão carioca de Marcelo Costa. “Cobre”, canção de amor romântico, fala da cor da pele que compete com o reflexo do sol no mar do fim de tarde do Porto da Barra. Jaques Morelenbaum, romântico incurável, veio orquestrá-la. Mas também tratou de “Ciclâmen do Líbano”, com fraseado do médio-oriente salpicado de Webern. Devo Lucas a meu filho Tom: os dois fazem parte da banda Dônica; devo a atenção a novas perspectivas críticas a meu filho Zeca; devo a intensa beleza da faixa “GilGal” a meu filho Moreno: ele fez a batida de candomblé para eu pôr melodia e letra que já se esboçava mas que só ganhou forma sobre a percussão. E eu a canto com a extraordinariamente talentosa Dora Morelenbaum. 

Este é um disco de quantidade e intensidade. “Autoacalanto” é retrato de meu neto que agora tem um ano de idade. Tom, o pai dele, toca violão comigo na faixa. A nave-mãe, “Meu Coco”, guardou algo da batida imaginada, agora com percussão de Márcio Vitor. Mas o arranjo de orquestra que a ilumina foi feito por Thiago Amud, um jovem criador carioca cuja existência diz tudo sobre a veracidade do amor brasileiro pela canção popular.  

Caetano Veloso”  

Elegantemente vestido por Felipe Veloso, Caetano Veloso canta no Espaço Unimed em São Paulo – Foto: Anderson Carvalho/Espaço Unimed – Blog do Arcanjo

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Respeitado jornalista cultural e crítico de artes do Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, criado em 2019. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e apresenta o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Eleito um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se por três vezes e recebeu a Medalha Mário de Andrade, maior honraria nas letras do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, Uma, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Melhores do Ano Guia da Folha, Prêmios ANCEC e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil e Prêmio Governo do Estado de São Paulo – Medalha Mário de Andrade.
Foto: Edson Lopes Jr.
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