Crítica | Longa Jornada Noite Adentro tem brilho de Ana Lucia Torre em clássico de Eugene O’Neill ✪✪✪✪

Elenco agrade fortes aplausos para a peça Longa Jornada Noite Adentro no Tucarena – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Fotos RAFA MARQUES
@rafamarquesfotografo_jpg

Longa Jornada Noite Adentro
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado

O teatro paulistano tem feito recentemente um notável movimento de volta aos clássicos. Prova disso, é a recente e fortemente aplaudida estreia de Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O’Neill, no Tucarena, com brilho de Ana Lucia Torre no posto de protagonista.

Talvez, após tantas experimentações durante a quarentena, sobretudo com o teatro digital, os artistas dos tablados queiram recuperar suas bases. O que é um formidável exercício para quem já está na lida e que serve como aula ao tão imediatista público das novas gerações.

Nesta retomada clássica, o drama segue em espaço nobre, sobretudo o realismo produzido pela dramaturgia estadunidense no século 20, da qual Eugene O’Neill (1888-1953) é um dos maiores expoentes. É dele a peça que a Morente Forte, produtora das incansáveis Selma Morente e Célia Forte, acaba de estrear.

Antes, o mesmo Tucarena abrigava outro drama clássico, Anjo de Pedra, de outro dramaturgo norte-americano fundamental, Tennessee Williams (1911-1983), dirigido com frescor por Nelson Baskerville em esmerada produção de Rodrigo Velloni protagonizada por Sara Antunes,  Ricardo Gelli e grande elenco, todos em excelentes atuações.

Mas, voltemos a O’Neill. Apontada por muitos como sua melhor obra, Longa Jornada Noite Adentro ganha encenação de Sergio Módena com a grande atriz Ana Lucia Torre, que, finalmente, recebe papel à altura de seu talento. Ela faz par com outro grande nome de nosso teatro, Luciano Chirolli, ator que fez história ao lado da lendária Maria Alice Vergueiro.

Luciano Chirolli e Ana Lucia Torre são aplaudidos ao fim da peça Longa Jornada Noite Adentro no Tucarena – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Não à toa, Longa Jornada Noite Adentro é uma das principais peças produzidas no mundo no século 20, pioneira do que se convencionou chamar de teatro moderno.

Em foco, está uma dona de casa norte-americana de 1912, desiludida da vida de casada com um velho ator, homem vaidoso que acreditou na frivolidade da fama e do dinheiro como tantos que conhecemos.

Esta mulher encontra-se, já há muito tempo, aprisionada entre o marido ególatra e os dois filhos não tão promissores, espécies de sanguessugas sem força de vontade para criar rumo próprio.

Diante do imenso vazio no qual se depara, a personagem só encontra fuga em seu vício secreto em morfina.

Ao abordar um tema tão delicado, a dependência química dentro de um lar, e escolher fazer isso na figura de uma respeitável matriarca norte-americana, o texto de O’Neill mostra-se corajoso e pungente, sobretudo nos dias atuais, onde tal problema social só se agravou.

Ana Lucia Torre recebe fortes aplausos do público da peça Longa Jornada Noite Adentro – Foto: Rafa Maques – Blog do Arcanjo

Uma grande atriz

Senhora de sua Mary Tyrone, Ana Lucia Torre vive um grande momento na carreira, demonstrando ser intérprete potente, de linhas stanislavskianas, trazendo uma teatralidade precisa e pontual — teatralidade esta que, infelizmente, vem se perdendo nas pouco estudiosas novas gerações de atores.

Não custa lembrar que a personagem já pertenceu a outras grandes atrizes do teatro brasileiro moderno: Cacilda Becker, Cleyde Yáconis e Nathalia Timberg. Ao assumir tão importante bastão, Ana Lucia Torre cumpre sua missão com louvor, presenteando o público com uma aula de atuação digna de premiação.

Com excelente texto repleto de poéticas frases, publicado em 1957, quando deu um Prêmio Pulitzer póstumo ao autor, o espetáculo navega pelas águas turvas de uma família em conflito.

Cada membro dos Tyrone desfalece aos poucos, perdendo viço e fôlego de vida, seja em mais uma dose de morfina (da mãe), de álcool (do pai e do primogênito) ou nas tosses da tuberculose que avança sobre o caçula, que também não dispensa um gole a mais sempre que possível.

Por qualquer lado que se enxergue, trata-se de um lar completamente disfuncional, doente e entregue ao vício, como tantos lares que o espectador identifica secretamente em seu cotidiano.

E é isso que torna essa obra universal — já levada ao cinema em 1962 no filme que rendeu indicação ao Oscar à icônica Katharine Hepburn e sua premiação como melhor atriz no Festival de Cannes.

A peça é, sobretudo, de Ana Lucia Torre, feita sob medida para que ela brilhe. E a atriz consegue tal façanha sem ansiedade alguma, mas com a delicadeza e generosidade com seus colegas típica dos grandes nomes.

É preciso também aqui ressaltar o talento de Luciano Chirolli, ator de múltiplas possibilidades. Ele sabe dar o texto de uma maneira deliciosa. Tamanho é seu virtuosismo, que por vezes até transborda. Em alguns momentos, o ator, de pendor brechtiano em sua trajetória, faz com que isso afete o drama, como quando seu olhar busca o do público, diferenciando-se do registro de atuação da protagonista, mais contida e dramática.

Na pele dos filhos, Gustavo Wabner, como o amargurado primogênito Jamie, e Bruno Sigrist, como o estabanado caçula Edmund, jovem com pretensões artísticas inacabadas, são o retrato da nova geração, perdida e incapaz de transformar sua juventude em algo, completamente dependente dos pais e repetidora de seus erros.

Em alguns momentos, Wabner e Sigrist chegam a destoar da atmosfera da obra, sobretudo quando seus personagens discutem em altos decibéis. Na humilde visão deste crítico, sem querer desrespeitar as escolhas da direção, o grito faz uma cena dramática perder força. Mas esta é apenas uma opinião, sem pretensão de dogma. Mas, não custa lembrar de uma entrevista deste mesmo crítico com o mestre Antunes Filho, que demonstrou desagrado com cenas gritadas, por ser o caminho mais fácil.

Por fim, apesar de demonstrar talento, Mariana Rosa, como a empregada Cathleen, parece julgar sua personagem, para além de interpretá-la, fazendo uma atuação de linhas brechtianas e no limite da caricatura, o que destoa da teatralidade do drama realista e faz com que a mesma perca verossimilhança no conjunto. Sua personagem joga para o riso do público, o que serve também, é preciso dizer, de certo alívio àqueles espectadores que consideram gargalhar como fundamental na experiência teatral.

Sergio Módena busca desconstruir esteticamente o realismo, utilizando elementos que poderiam ser considerados conflitantes com o mesmo, como o cenário de móveis brancos desconexos de André Cortez ou a iluminação também excessivamente branca de Aline Santini.

A iluminação demonstra estar a todo instante em conversa com as viradas da dramaturgia, mas peca pelo excesso de luz branca, que rebate na cenografia e força os olhos do público, ainda mais sendo uma peça longa — na sessão vista, ultrapassou os oficiais 110 minutos.

Assim, é um conforto quando a neblina avança na peça e o dimmer dosa a luz, baixando sua intensidade, permitindo ao espectador que seu foco esteja realmente nos atores, e não no outro espectador que está na última fila à frente, já que trata-se de um teatro de arena.

Fábio Namatame, com seus sempre elegantes figurinos, é quem segura a atmosfera clássica. Também é preciso destacar a trilha criada por Marco França, que mescla o erudito a pitadas bem dosadas de contemporaneidade.

Fica até a dúvida neste crítico se as diferentes teatralidades observadas no elenco seriam uma proposta estética da direção.

Diretor e elenco de Longa Jornada Noite Adentro agradecem fortes aplausos do público no Tucarena – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

É preciso parabenizar toda a equipe de Longa Jornada Noite Adentro — teatro é feito de muita gente —, por trás desta formidável obra. Ter textos universais em cartaz só valoriza o teatro paulistano e brasileiro e combate uma certa iconoclastia nas artes cênicas contemporâneas. Afinal, pode-se construir o novo sem precisar fazer o velho sucumbir nas labaredas do esquecimento. Até porque, uma revisita aos clássicos, não faz mal a ninguém.

Por isso, vista uma bela roupa e saia de casa rumo ao Tucarena para ver Uma Jornada Noite Adentro. Além de conhecer ou rever este excelente texto do grande Eugene O’Neill em uma encenação cheia de frescor, você poderá aplaudir presencialmente a grande atuação desta atriz chamada Ana Lucia Torre.

Longa Jornada Noite Adentro
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado

Sexta e sábado, 20h30, domingo, 18h. No Tucarena – Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes, São Paulo. 120 min. 16 anos. Até 28/8/2022. Retire seu ingresso!

Blog do Arcanjo mostra atores de Longa Jornada Noite Adentro no camarim do Tucarena pelo olhar do fotógrafo Rafa Marques

Retire seu ingresso para Longa Jornada Noite Adentro

Famosos aplaudem estreia de Longa Jornada Noite Adentro

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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