CineOP abre com impacto indígena em Ouro Preto e conclama Brasil a preservar seu audiovisual

A coordenadora da CineOP Raquel Hallak é rodeada de seus convidados que representaram os povos indígenas na abertura da 17ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação – 23/6/2022 – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

ENVIADO ESPECIAL A OURO PRETO – A abertura da 17° Edição do CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto foi um verdadeiro acontecimento que aqueceu a fria noite desta quinta, 23 de junho, na histórica cidade de Minas Gerais. O evento celebrou a volta ao presencial após dois anos online por conta da pandemia.

O público foi recepcionado pelos virtuosos sopros da banda da Sociedade Musical Senhor Bom Jesus das Flores e logo se acomodou nas cadeiras do Cine Praça.

Em noite ao ar livre, a festa ocorreu na emblemática Praça Tiradentes, no centro histórico de Ouro Preto, maior joia do barroco mineiro, com o primeiro dia tendo seu foco para artistas e realizadores indígenas.

Estar de volta com a CineOP integralmente presencial é um momento muito especial, com um significado histórico. Reencontrar profissionais da educação, da preservação do audiovisual, abrir o evento na praça pública neste cenário tão emblemático para o país é motivo de celebrar. Estamos vivos e reunidos por uma causa que é maior que uma empresa, uma pessoa, uma causa de todos nós enquanto cidadãos, de salvar nossas imagens e valorizar a produção indígena dentro da história da nossa cinematografia, uma produção que muitas vezes fica invisibilizada e desconhecida. A CineOP vem carregada dessa missão, que nos aquece a alma e o coração.

Raquel Hallak
Coordenadora da CineOP
Sociedade Musical Senhor Bom Jesus das Flores – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação – 23/6/2022 – Blog do Arcanjo
Cantos indígenas ecoaram na histórica Praça Tiradentes, em Ouro Preto, na abertura da 17ª CineOP – Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção/Divulgação 23/6/2022 – Blog do Arcanjo

Caminhos da Pachamama

Depois, o evento seguiu em grande estilo, com a cerimônia Caminhos de Pachamama, um ritual que invoca o canto, a dança e a reza, para em conjunto saudar a mãe terra, realizado pelo Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas. Estiveram presentes os povos Kambiwá, Aranã Pataxó, Xukuru kariri, Quéchua e Aymará.

A apresentação empolgou o público que lotou o Cine Praça, que aplaudiu de pé e fez coro para os cantos ritualísticos.

Público da 17ª CineOP se emocionou com povos indígenas – Foto: Nereu Jr./Universo Produção/Divulgação – 23/6/2022 – Blog do Arcanjo

Logo após a apresentação, o mestre de cerimônias, David Maurity, conduziu elegantemente a noite, introduzindo a coordenadora geral do evento, Raquel Hallak.

Em seu poderoso discurso, a diretora da Universo Produção enfatizou a alegria de voltar ao presencial e ressaltou a importância do festival, para a cidade de Ouro Preto e para o país.

“A CineOP foi a primeira das nossas três mostras — Tiradentes, Ouro Preto e Belo Horizonte — a ter de ser online em 2020, por conta da pandemia, o que foi um grande desafio para toda a equipe. Agora, o desafio é retomar o primeiro evento integralmente presencial. É muito histórico. A CineOP é um evento em que trabalhamos a preservação da vanguarda desse imenso patrimônio audiovisual brasileiro, nesta cidade que é patrimônio histórico da humanidade, Ouro Preto, lugar tão emblemático para o Brasil”, disse Raquel Hallak, em conversa com o Blog do Arcanjo.

Ela ainda reiterou que a preservação tem de ser tema que importe a todos os que integram a cadeia produtiva do audiovisual.

“Preservação do audiovisual tem de ser coisa de cineasta. Se não contarmos com quem faz filmes, com quem lida com essa história, desde o primeiro momento que começa a pensar o filme, vamos perder muitas imagens, algumas silenciosamente, outras como o caso da Cinemateca. Filmes não foram feitos para ficar na prateleira, foram feitos para circular e serem preservados para gerações futuras terem acesso”, pontou Raquel Hallak, lembrando que cerca de 90 profissionais da educação participam do evento, com 24 debates justamente com este foco.

Preservação começa dentro da nossa casa, com álbum de retrato guardado, para sabermos quem foram nossos avós. Se ampliarmos, levamos para as empresas e para o poder público. Precisamos cuidar daquilo que é nosso. Queremos persistir neste propósito de salvar o patrimônio audiovisual brasileiro, missão da CineOP.

Raquel Hallak
Coordenadora da CineOP
Kuaray Poty (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira) são homenageados na 17ª CineOP com o Troféu Vila Rica – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação – 23/6/2022 – Blog do Arcanjo

Homenagem a dupla de cineastas indígenas

Kuaray Poty (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira), cineastas homenageados pela edição, receberam com muita emoção o Troféu Vila Rica, entregue pelo prefeito da cidade de Ouro Preto, Angelo Oswaldo e o cineasta Vincent Carelli.

Na sequência, o público ouro-pretano viu dois filmes da dupla de cineastas, Bicicletas de Nhanderu, de 2011, e Nossos Espíritos Seguem Chegando – Nhe’e Kuery Jogueru Teri, de 2021.

Povos indígenas pedem respeito aos povos originários e à floresta com a bandeira do Brasil na abertura da 17ª CineOP em Ouro Preto – Foto: Nereu Jr./Universo Produção/Divulgação – 23/6/2022 – Blog do Arcanjo

Pista e show

A noite continuou na parte baixa da cidade histórica, no Sesc Cine Lounge Show, montado no Centro de Convenções de Ouro Preto. Primeiro, a pista de dança ferveu ao som de excelente música brasileira e internacional de estilo urbano, funk e pop sob comando da DJ Kingdom.

Ela energizou o público para receber o show de encerramento do dia, feito pela artista ameríndia dos povos andinos Brisa Flow, com ancestralidade chilena.

Brisa Flow na abertura da 17ª CineOP – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação – 23/6/2022 – Blog do Arcanjo

Brisa celebrou sua primeira apresentação na cidade de Ouro Preto e trouxe suas letras que exaltam sua vivência como mulher ameríndia e da periferia, com um flow de excelente qualidade e ritmo contagiante. O público se acabou em mais de 1 hora e 40 minutos de potente apresentação. Ao fim, enquanto o filho dormia no camarim, a artista conversou com o Blog do Arcanjo.

“Para mim foi muito feliz estar com várias etnias reunidas. Muito especial para mim, meu filho, ver guaranis ganhando um prêmio tão bonito, incentivando o cinema indígena. É preciso valorizar a artes dos povos originários para além da música e do cinema, ver que nós todos estamos trançando uma transculturalidade em brol do bem viver. E isso é muito importante”, concluiu a cantora.

*O Blog do Arcanjo viajou a convite da CineOP. Colaborou David Godoi.

Veja cobertura completa da CineOP

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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