Ana Cañas canta Belchior em turnê consagradora em São Paulo e Rio: ‘Paixão da minha vida’ | Entrevista do Arcanjo

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Por MICHELE MARREIRA
@michelemarreira

Fotos BOB SOUSA
@bobsousa

Já faz algum tempo que a cantora paulistana Ana Cañas se conecta às emoções de seu público – sempre ávido por letras e melodias caprichadas. Aos 41 anos, a também compositora, dona da canção Esconderijo, chega cheia de gás para revisitar a obra do saudoso Antonio Carlos Belchior, com o show: Ana Cañas Canta Belchior. A turnê tem dois importantes shows neste mês: em 10 de abril, domingo, às 20h, no imponente Teatro Bradesco do Shopping Bourbon, em São Paulo, e no dia 22 de abril, sexta, 22h, no Circo Voador, no Rio.

O projeto nasceu a partir de uma live realizada na sala de sua casa, durante a quarentena, e se transformou em uma necessária e tocante turnê nacional que é sucesso de público e de crítica por onde passa. A merecida homenagem ao legado do artista cearense, que nos deixou em 2017, vem mexendo com lembranças de fãs veteranos e novos consumidores da genialidade do eterno intérprete de “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior”.  

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Eu sou apaixonada por Belchior, o admiro como ser humano, artista e homem.

ANA CAÑAS

Dona de traços delicados com a força de um furacão em erupção, Ana Cañas não esconde a ansiedade de subir ao emblemático palco do Teatro Bradesco, no Shopping Bourbon, na zona oeste de São Paulo, neste domingo, 10 de abril, para reencontrar a envolvente plateia.

A estrela da nova geração da Música Popular Brasileira, na qual dirige o próprio espetáculo, promete entoar clássicos como Alucinação, Sujeito de Sorte, Coração Selvagem e Como Nossos Pais. No show mais visceral de sua carreira, ela será acompanhada pelos músicos Fabá Jimenez (violão e guitarra), Adriano Grineberg (teclados), Meno Del Picchia (contrabaixo) e Loco Sosa (bateria).

E, para celebrar o importante momento, de sua trajetória profissional – que se mistura com a pessoal – Ana Cañas posou para as lentes do consagrado fotógrafo Bob Sousa. As belíssimas imagens foram realizadas em um amplo espaço com ares retrô do Teatro Garagem, espaço artístico idealizado por Anette Naiman no bairro da Pompeia, em São Paulo.

O Blog do Arcanjo esteve presente, e entrevistou com exclusividade a musa do canto nacional. Leia com toda a calma do mundo.

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Blog do Arcanjo – Você foi muito elogiada pelo público ao cantar Belchior, numa live durante a pandemia. Foi a partir daí que o projeto nasceu ou já era um desejo antigo?
Ana Cañas – Já faz um tempo que Belchior é uma paixão na minha vida, eu já cantava Alucinação nos meus shows. Quando surgiu a pandemia, fiz a live na sala da minha casa. Confesso que não esperava esse acolhimento dos fãs do Belchior com o projeto, inclusive, fizeram um financiamento coletivo pra que a gente gravasse o disco. E agora estamos em um momento lindo, de uma turnê na qual estamos viajando pelo Brasil. Eu só tenho que agradecer essas pessoas que me incentivaram. Tem sido muito emocionante cantar para esse público, criar esse espaço de filosofia, metafísica existencial das estrelas, que a poesia do Belchior sempre nos remete.

Blog do Arcanjo – Dá para fazer uma conexão do que ele cantava nos anos 1970 com o Brasil de hoje?
Ana Cañas – Total. Primeiro por ele ser um gênio. Eles estão além do espaço/tempo. O que caracteriza a pessoa com uma mente brilhante, é essa capacidade de entender o existencialismo humano, que se perpetua independente da moldura histórica. Mas, a gente precisa lembrar que existe uma moldura política, quando Belchior apareceu, que era a ditadura. E não à toa, vivemos em um momento de um governo de extrema-direita, fascista. Existe esse diálogo muito grande, desse repertório extremamente autoral e preciso. Belchior era um profundo conhecedor das palavras, um literato que falava cinco idiomas. Eu precisei rever o meu jeito de cantar, porque eu sou um ser da melodia, e ele era muito da prosódia, da prosa, do verso. Foi interessante trabalhar a dicção também, para que as pessoas entendam a poesia que tem na sua obra.

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Blog do Arcanjo – Alguma memória marcante durante a turnê? Divide com a gente.
Ana Cañas – Estive recentemente em Fortaleza, a terra de Belchior. Ele era da cidade de Sobral, no Ceará, mas é na capital que decide se tornar um artista, cantor, compositor. E no dia seguinte, tive a sorte de tocar no Teatro Riachuelo, em Natal. Foi avassalador. O público nordestino é muito afetuoso! Tenho inúmeras memórias dessa turnê que estamos fazendo. De pessoas ensandecidas indo às lágrimas, palavras que foram ditas durante o show ou pós-show. Textos que eu recebo, postagens, fotos (nas redes sociais), muita beleza e profundidade. Eu sou apaixonada por Belchior, o admiro como ser humano, artista e homem. Ele tem uma coisa magnética do escorpião que eu costumo gostar muito. Eu assisti diversas entrevistas dele e fiquei encantada com a gentileza, doçura, simplicidade e generosidade. Converso com muita gente que conviveu com Belchior, para contar suas histórias com ele. É maravilhoso cantar uma obra na qual amamos a pessoa.

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Blog do Arcanjo – Qual o sentimento de apresentar o projeto em dois palcos emblemáticos do Brasil: Teatro Bradesco, em SP, e Circo Voador, no RJ?
Ana Cañas – Estou contando as horas para isso acontecer na minha vida! O Teatro Bradesco é maravilhoso, babado, tem uma luz deslumbrante. Eu tenho a alegria de contar com uma iluminadora genial que é a Carolina Autran. E depois eu viverei essa emoção de cantar no palco que eu amo, no Circo Voador, que é uma lona mágica desse País. Mas não só isso, como teremos a participação especial de Lenine, que é um ídolo para mim. Além de ele ser nordestino, conheceu Belchior. Será uma noite incrível com emoções avassaladoras. Nem sei se estarei viva no dia seguinte… (risos).

Blog do Arcanjo – O crítico Miguel Arcanjo Prado te definiu como a Elis Regina da nova geração após te ver cantar para 1 milhão de pessoas no Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta a música Como Nossos Pais, do Belchior, em 2019. Como define a obra artística de Elis Regina em sua trajetória profissional?
Ana Cañas – É difícil achar que as palavras alcançam a magnitude de sua capacidade artística, do que o canto dela me causou e nos causa. Eu só posso agradecer por esse espírito ter passado pela terra, feito tudo que ela fez e falou. Não é só a música. É a atitude, o pensamento, a mente, o coração. É a cantora que mais me toca que mais me move, junto com a Cássia Eller. São duas estrelas viscerais, cartásticas, apaixonadas, intensas. Tem muita gente que faz uma conexão do meu canto com o da Elis. Mas, não podemos copiar ninguém, é antiético copiar um artista. Se em algum ponto a gente lembra uma emoção, isso é muito bonito, e fico feliz quando as pessoas me dizem isso.

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Blog do Arcanjo – O feminismo é uma temática quase sempre presente no seu trabalho musical. Como é abordar questões tão necessárias também na TV, ao apresentar um programa no Canal Brasil?
Ana Cañas – Sim. Apresentei um programa sobre sexualidade feminina chamado Sobrepostas. Foi maravilhoso. Conversei com mulheres diversas: pretas, gordas, periféricas, com deficiência física, soropositivas, para conhecer um pouco mais sobre a sexualidade e suas experiências. Eu tenho quatro planetas em escorpião então, falar de sexo para mim é como comprar um pão na esquina. Não tenho tabu com isso. Inclusive a humanidade precisa (quebrar tabus), principalmente as mulheres, pois somos mais tolhidas, cerceadas, diminuídas em nosso poder. Isso vai do clitóris que é um órgão com mais terminação nervosa do que a glande masculina – até a potência de alma. Nós parimos, geramos vidas, somos mais sensíveis. É muito importante falar desse lugar do feminino, dessa força. E como diz a sábia Djamila Ribeiro (filósofa), minha amiga querida, é falando que a gente vai destravando essas opressões.

Ana Cañas canta Belchior em turnê de sucesso de público e crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo

Blog do Arcanjo – A relação do cantor com a difusão de sua música mudou bastante ao longo dos anos. Hoje em dia, a divulgação das canções é feita praticamente por meio das plataformas de streaming. Como você encara esse avanço tecnológico?
Ana Cañas – Honestamente, apesar de eles nos pagarem um valor irrisório, porque ninguém consegue viver do direito autoral de streaming – talvez o Roberto Caros ou Ivete Sangalo – é uma virada de chave importante para artistas independentes. Dá para gravar um disco e lançá-lo de forma autônoma, sem depender de uma gravadora, um diretor artístico que geralmente é um homem cis-hetero, branco que escolhe quem tem a estrela. E muitas vezes a pessoa tem estrela, mas quem tem esse recorte da vida não enxerga isso.

Blog do Arcanjo – Recentemente, a cantora Anitta conquistou o 1º lugar no ranking global do Spotify. É uma inspiração para as demais mulheres, independentemente do ofício?
Ana Cañas – A Anitta presta um favor muito grande sendo livre sexualmente. Para além da música, que eu gosto, ela se expressa de uma forma muito tranquila. Ela fala: “Amor eu sou piranha, e piranha também estuda, piranha arrasa!”. Isso é libertador. É uma reparação histórica, a mulher sempre foi muito criticada e julgada por ter mais de um parceiro. Não casar, não exercer o papel da maternidade, deve ser uma escolha. E a mulher que não deseja ser mãe, que é inclusive o meu caso, ela precisa ter essa liberdade. Talvez um dia eu adote crianças mais velhas… Então, Anitta está contribuindo muito por ser uma mulher fo**, de bilhões, inteligentíssima. E eu amo o favor que ela presta, plena, batendo de frente com Bolsonaro.  

Blog do Arcanjo – Estamos em 2022, ano eleitoral. Qual recado você manda para o público que vai votar?
Ana Cañas – Amigos da nação brasileira votem na pessoa certa, que é a única pessoa que tem o capital político. E que tem o coração voltado para uma empatia, que está inocentado pela Justiça. Jovens, tirem seus títulos de eleitor, contribuam para esse momento histórico. É importante que essa coisa horrível que a gente vem vivendo nos últimos quatro anos, não se perpetue no nosso Brasil. Queremos muito voltar a brilhar, porque a gente é pra brilhar como diz Caetano Veloso.

Até o momento, as cidades contempladas com show Ana Cañas Canta Belchior são: São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ, Presidente Prudente/SP, Araraquara/SP, Jundiaí/SP, Natal/RN, Fortaleza/CE, Recife/PE e Porto Alegre/RS. E, no dia 22 de abril, o espetáculo volta ao Rio de Janeiro para sessão no Circo Voador. Siga Ana Cañas para ficar por dentro da turnê!

Show Ana Cañas Canta Belchior

São Paulo

Quando: 10 de abril de 2022. Domingo, às 20h
Onde: Teatro Bradesco – Shopping Bourbon Retire seu ingresso

Rio de Janeiro

Quando: 22 de abril de 2022. Sexta, 22h.
Onde: Circo Voador – Retire seu Ingresso

Agradecimentos: Eliane Verbena, Anette Naiman e Teatro Garagem.

Veja as imagens do ensaio fotográfico com Ana Cañas por Bob Sousa para o Blog do Arcanjo

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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